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Cinco da madrugada. Ainda no lusco-fusco antes de começar a clarear. Um frio de fazer pinguim usar cachecol, eu enterrado no meu túnel de ar quente dentro do saco de dormir, sem deixar nem a cabeça pra fora. Acordo com um som insistente, tectec tetetec tetec tec, ensonado, presto atenção e entendo: está chovendo. Porque não basta estar frio, no mato, com ameaças de urso, tem que estar molhado também. Revoltado, desliguei o meu despertador no celular colocando apenas as pontas dos dedos para fora do meu casulo de calor, e deixei Lewis dormir por três snoozes antes de criar coragem para começar minha transformação de forma decadente para ciclista-rah, o de vida eterna, sem frio nas pernas.
Guardar toda a parafernália de acampamento é chato e, para mim, um processo demorado porque não quero perder um grampo ou uma cordinha que seja, então confiro tudo e faço tudo sempre na mesma ordem pra não correr o risco de esquecer algo no processo. Fazer isso no frio e com chuvinha fria é pior ainda. Ainda mais quando não tem jeito e você tem que dobrar a lona molhada, e no processo tudo fica molhado, e você se sente um trouxa guardando uma trouxa de equipamento úmido em cima da bicicleta.
Às oito e qualquer coisa, ainda bem frio, fomos para o único restaurante dos arredores. Bastante chique, de alto nível, já que deve receber turistas do mundo inteiro que chegam lá atrás do combo Teton-Yellowstone. A comida era boa, o atendimento nem tanto: os garçons eram todos estrangeiros, obviamente de programas de intercâmbio que prometem trabalho em áreas turísticas em troca de aprendizado e dias maravilhosos (se bem que raros) em partes lindas do país. A chuva ficou mais forte, e, de dentro do restaurante, eu e Lewis concordamos que era melhor esperar a meteorologia melhorar. Mesmo que significasse pedalar menos. E foi assim que saímos do camping no parque de Teton às onze da manhã, já com o dia começando a ficar limpo. Pelo menos encontramos o pessoal da fogueira no dia anterior e conseguimos nos despedir à luz do dia.
Não demorou muito pra chegar na terra do Zé Colmeia, o parque de Yellowstone. Meu coleguinha, como sempre, estava à frente, a perder de vista, mas eu assim me senti livre pra olhar ao redor e apreciar o parque. O começo de Yellowstone, de onde cheguei, é repleto de pinheiros, e a estrada vai subindo até revelar o canyon do rio Lewis, tão raro para os olhos brasileiros que eu fiquei bobo.
Nas encostas do canyon dava pra ver várias árvores queimadas, caídas e mortas. Ao redor da estrada, vários pinheiros mais baixos, de dois ou três metros de altura, eram entremeados por esqueletos de pinheiros carbonizados, muito mais altos. Não demorou muito e uma prestativa placa histórica dava a explicação: em 1988, um megaincêndio consumiu um terço do parque. A guarda florestal e bombeiros tentaram controlar o fogo de várias formas, sem muito sucesso num verão extremamente seco. O fogo só parou quando chegou o inverno e a neve apagou tudo. Mas isso não é razão para tristeza, informavam rapidamente: isso tudo faz parte do lindo ciclo da natureza, que consome o que está velho e podre já com os meios para renovar o que foi destruído. Com o solo adubado pelas cinzas, mato já começou a crescer na primavera seguinte, alimentando a fauna local, e pinhas que só se abrem sob temperaturas elevadas já tinham espalhado milhões de sementinhas que, ao longo dos anos seguintes, geraram pinheirinhos novos em folha. Todos aqueles pinheiros novos não haviam sido resultado de reflorestamento humano, como eu suspeitei quando vi a primeira placa sobre o incêndio, mas sim o renascimento natural da floresta. Impressionante e muito lindo, ver uma floresta ressurgir em 18 anos. E uma oportunidade também meio única: os informes lembravam que, em mais dez ou quinze anos, os esqueletos das árvores queimadas todos cairão, e só se verão os pinheiros novos, sem nada que lembre o que havia lá antes. Esse estágio intermediário é, na escala da natureza, breve, muito breve.
Encontrei Lewis na entrada do posto de serviço que levaria ao camping, e, quando pagamos por nosso lote da noite, recebemos mais procedimentos para evitar um abraço noturno de um amigo urso. Começava a chover, mas, empolgado com a fogueira do dia anterior, vendo que tinha madeira já recolhida no nosso lote, emprestei o isqueiro do Lewis e tentei acender uma fogueira. Ela meio que começou a dar certo, a memória genética dos ancestrais cavernícolas ficou toda feliz de ver as labaredas tentando consumir a madeira, mas daí bateu a fome. Meu coleguinha inglês fez questão de apagar a fogueira já que a gente não ia estar vigiando o fogo, o que me deixou meio puto, mas apesar dos meus protestos ele foi lá e chuá, jogou água no meu projeto de fogueira e nos meus instintos pré-históricos. Depois de jantarmos em mais um restaurante cheio de staff estrangeiro, jovem e amador, voltei ao camping e à fogueira, que tentei reavivar, mas sem sucesso. Meu piteco interior foi dormir contrariado.



