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(Nota: eu sei que o conteúdo dos próximos parágrafos é pura criancice e imaturidade. Na minha busca por ser uma pessoa cada vez melhor, tento não ter mais esse tipo de reação, mas relato aqui por honestidade blogueira)
Ontem à noite, depois que montamos acampamento e estávamos passados a limpo, Lewis vira pra mim e fala “Vamos tentar tomar café da manhã às sete da manhã e cair na estrada amanhã às sete e meia?”. Eu, que já vi esse filme antes, respondi sinceramente: “Olha, amanhã o despertador vai tocar, vai estar frio pra caramba, a gente só vai sair da barraca às seis e meia, até estar tudo empacotado vão ser sete e meia, até tomar café da manhã vão ser oito e meia, então a gente provavelmente só vai tomar rumo às nove.”
Daí ele vira pra mim e diz “Ah, você que demora, eu resolvo minhas coisas de manhã superrápido, sete da manhã eu vou tomar café e depois vou pra estrada.”
Fiquei tão, mas tão injuriado que perdi a fala. O tanto que eu já esperei esse indivíduo, que já ficou uma hora falando pelo skype depois de almoçar, que já parou pra comprar tripé e caixinha de som, que não aguentava pedalar no calor e tinha que descansar na sombra no meio da tarde. E eu que sou o lerdo? Subi pra onde pegava o wi-fi com o laptop debaixo do braço soltando fumaça. Vamos ver quem é devagar de manhã.
No alvorecer seguinte, o alarme de Lewis tocou às seis da manhã como sempre. Eu, de dentro da minha barraca, acordei com o sinal, e metodicamente coloquei o uniforme polar de ciclista (que tava um frio deprimente). Esvaziei o colchonete, enrolei o saco de dormir, guardei tudo em seus devidos alforges, e meia hora depois de abrir meus olhinhos saltei para o ar gélido do mundo exterior. Seis e meia o alarme de Lewis toca pela segunda vez, como sempre, e ele se move dentro da barraca. Estava pra começar a remover os grampos da barraca do chão quando ele saiu da barraca dele, encapotado e com laptop na mão, dizendo que ia pro saguão do motel que tinha liberado pra gente acampar, tomar chafé. Claro, vai lá.
Mais vinte minutos e eu subi, bike carregada, até a porta do saguão. Entrei, avisei Lewis que ia pro restaurante do lado tomar café da manhã. Ele olhou, caneca de chafé com leite pela metade na mão, laptop aberto no colo. “Belê, já vou também”, ele disse. Deu quinze minutos e ele me encontrou na mesa do restaurante, ainda à paisana. Tomamos café da manhã calmamente, e, quando, como sempre, terminamos uma hora depois, eu paguei minha parte da conta e disse que ia pegar a estrada. “Você já está com tudo na sua bike, né? Eu nem desmontei minha barraca ainda…”, disse meu coleguinha. “Falou então, te encontro mais pra frente.” Virei e fui.
Ele se lembrava do que tinha falado na noite anterior? Não. Sequer sabia que eu tinha entrado numa competição besta de orgulho ferido pra ver quem saía antes? Obviamente não. Mas e daí, o que importa é que eu ganhei. Hohohohoho.
A primeira metade do caminho de hoje atravessava a reserva indígena de Wind River. Como é o futuro de todos os indígenas do mundo inteiro, de tipicamente indígena tinha bem pouco. A única coisa que se assemelhava à cultura native american que eu vi foi o prédio do cassino que fica bem perto da entrada da reserva, cujo teto remete às teepees dos índios. De resto, muito espaço vazio, algumas casas decentes, um número bem maior de casas ou trailer bem pobres. Não parecia haver nada que desse a impressão que seja qual índio que ainda morasse lá tinha muito orgulho de lá estar.
O dia passou sem grandes emoções além das sempre surpreendentes rochas do Wyoming. Quando parei para fazer um lanchinho das minhas várias barrinhas, Lewis me alcançou, comentou como a paisagem era incrível e seguiu em frente. Segui na minha e em mais algumas horas cheguei em Dubois, onde encontrei meu coleguinha para comer algo decente num restaurante.
Depois de alimentados fomos para o camping, e, passada toda a rotina de montar barraca, guardar tudo e tomar banho, sentei com o laptop para colocar o blog em dia. Lewis sentou do outro lado da mesa, e, entre um Facebook e outro, comentou “Cara, minha cara tá toda ardendo, tô vermelho?”. “Tá”, respondi, “precisa passar protetor solar”. “Mas protetor solar no rosto faz mal”, ele respondeu. Eu, que bem ou mal já passei 30 anos no Brasil com sol tropical, olhei para aquela pilha de inglesice na minha frente e respondi “É por isso que você tem que usar um protetor solar diferente para o rosto, assim não fica todo ensebado, eu tenho um 30 para o corpo e um 70 para o rosto”. “Besteira,” ele redarguiu, “eu desde que comecei a viagem só passo protetor solar no nariz e funcionou muito bem até agora, não sei por que não funcionou hoje”. Então tá.




Muito bonitinho, eu que sou sua Mãe e conheço suas birras desde que você desceu do berço parece que estou assistindo….. estou com saudades!!!!!!!!!!!
Bjs!!
Mãinha
Acabei de descobrir que o papa-léguas foi filmado no Wyoming…
Passei por esse tipo de situação numa viagem de bike pro Chile, e aí descobri que pra esse tipo de trip, só bons amigos mesmo.