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Desde o primeiro momento em que planeja uma viagem de bicicleta, o conceito da chuva está presente. Você compra alforges à prova d’água, bolsas à prova d’água, capa de chuva em cores fluorescentes. Mas de certa maneira, não está preparado, em nossa vida civilizada cheia de telhados, para realmente TOMAR chuva.
Pois ontem a chuva começou.
Anteontem o clima já tinha ficado mais ameno, o calor infernal passou, e o dia transcorreu inteiro numa ameaça de chover que nunca se realizou – o melhor tipo de ameaça. Mas ontem, quando eu saí do hotel, estava começando uma garoinha. Meia hora depois, começou a chover de verdade. E mais quinze minutos, a chuva ficou forte.
Resignado e um pouco gelado, puxei minha capa de chuva, e me liguei que, cabeção como sou, não tinha nada impermeável que protegesse meu saco de dormir. Entrei na driveway da primeira casa com jeito amigável que encontrei, pensando em pedir um saco de lixo, mas não tinha ninguém. Mas veja só, tinha um balde vazio com um saco de lixo branco limpo dentro. Contrariando a Regra da Méris, que diz que tanto faz roubar 10 centavos quanto 10 milhões, peguei o saco de lixo, enfiei meu saco de dormir úmido dentro dele, e segui caminho.
E assim descobri que minha querida capa de chuva nunca tinha pegado um toró de verdade, porque depois de 20 minutos valentes ela também ficou toda molhada, e lá fiquei eu pedalando molhado e com frio, com uma capa de chuva grudada no corpo. Mais suspiros. Cheguei numa cidade que o mapa indicava ter uma loja de bike, e lá fiquei até as dez e meia da manhã esperando a loja abrir. Quando abriu, comprei uma jaqueta que a vendedora prometeu ser super-à-prova-d’água, e me fui sob as nuvens baixas e o céu cinza.
Não voltou a chover mais forte no resto do dia, mas por conta das esperas da manhã e a velocidade reduzida por conta da chuva (dá preguiça de acelerar na subida, e medo de ir rápido na descida), cheguei no meu destino já no meio da tarde. Bem, paciência.
Hoje o dia amanheceu nublado mais uma vez, mas o tempo segurou por algumas horas. Horas frias, em que começa a chover um pouquinho, daí você tem que decidir se usa a jaqueta impermeável que, de tão impermeável, segura seu suor dentro, ou se põe o abrigo de moleton, que vai ficar úmido com a chuva mas pelo menos também vai absorver sua transpiração. Até que começou a chover pra valer de novo, e daí, mesmo com a jaqueta “impermeável”, lá estava eu molhado de novo. Mas pelo menos a jaqueta me deixava mais quentinho, já que o ar dentro dela não circula.
Daí não tem jeito além de fazer as pazes com a água. Não está FRIO, ainda é verão, apenas geladinho. E as roupas já estão dentro de ziplocs dentro do alforge à prova d’água anyway, o mapa é resistente à água, o kindle tá enrolado dentro do saco plástico, o laptop está dentro de uma capa absorvente dentro de uma bola impermeável, então segura na mão (molhada) de deus e vai.
No quarto final da viagem, eu encontrei pela primeira vez outro ciclista que está indo na mesma direção que eu, o Joe. Eu estava distraído com um chihuahua que estava correndo atrás da minha bike, me ameaçando debaixo da chuva, quando ele chegou pelo outro lado e quase me matou do coração. Depois de me recompor, fiquei feliz, porque já tinha perdido a esperança de encontrar alguém que me acompanhasse nessa viagem. Fomos conversando e assim os últimos morros do dia passaram quase sem se fazer notar.
E o Joe fala. Ele é um mulato que cresceu em orfanatos no Oregon, se mudou depois de grande pra costa leste, e agora vai voltar pra lá – e resolveu fazê-lo de bike. Está viajando com um budget mais apertado que o meu, o que é bom pra me fazer segurar os gastos também. E ele fala. E fala bastante. Mas parece ser bem gente boa. Vamos ver se a parceria vai dar certo!


