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Adeus, Washington!


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Já era hora: depois de muitos e muitos preparativos, finalmente a jornada para o oeste começou.

Ontem eu passei o dia correndo atrás de funções muito importantes que ainda faltava fazer: pegar a bike no bicicleteiro, onde ficou para revisão, comprar os suplementos que a nutricionista tinha indicado, e pintar o cabelo de louro. Isso mesmo. Decidi fazer isso uma vez na vida, e nenhuma oportunidade melhor que essa, um período em que não tenho a menor obrigação de ser socialmente responsável. Estou parecendo um surfista de Sessão da Tarde.

Minha bicicleta de viagem, cheia de carga: dois alforges, uma mochila-despensa, e saco de dormir.

Vida de caramujo: carregando comigo tudo que eu preciso pra viver. Dois alforges de roupa e barraca, uma mochila-despensa, e saco de dormir.

Hoje eu queria sair tipo cinco da madrugada, mas me enrolei na hora de subir tudo na bike. Os suplementos acabaram sendo mais pesados que eu esperava, a pilha no bagageiro ficou bem maior do que eu gostaria. Mais pra frente vou tentar encontrar umas bolsas que se pendurem na roda da frente, pra pelo menos equilibrar melhor a carga.

Saí do lindo prédio onde Gui Piereck e Fede moram já com o dia começando a clarear, o que é bem mais tarde do que eu gostaria. Mas enfim. Google Maps no celular, música no iPod Nano, fui destrinchando um caminho complicadíssimo que me levaria para Stafford, 84 km mais pro sul. A paisagem foi dos gramados verdes da capital dos EUA para trilhas exclusivas para bikes já na Virgínia (o que sempre me deixa contente), até estradas boas com bastante acostamento e motoristas respeitosos. Nenhuma história de terror com relação às máquinas assassinas que entopem as ruas, felizmente.

Minha maior dificuldade ainda está em sistematizar o lugar de cada coisa. Por exemplo, coloquei meu novo e lindo Kindle na bolsa que fica pendurada no guidão, num bolso interno que parecia feito pra Kindle, do tamanho certinho. Quando na hora do almoço fui tentar ler, descobri que o bolso era tão perfeito que era impossível tirar o Kindle de lá sem chacoalhar a bike inteira que, como eu disse, estava num equilíbrio precário, mesmo presa a um poste. Amanhã o Kindle vai pra um lugar mais acessível.

Mais tarde, já depois do almoço, fritando no calor que eu queria ter evitado, fui procurar minha segunda garrafa d’água e não achei. Procurei procurei procurei, e nada. Talvez estivesse em algum canto escondido da bagagem, mas não valia a pena desmontar meu tetris pra caçá-la. Comprei mais água num posto de gasolina, e fiquei triste da vida achando que a viagem já tinha feito sua primeira vítima. Mais tarde, já no camping, encontrei-a entricheirada na minha mochila-despensa.

Minhas roupas de viagem, separadas em bolsas ziploc de acordo com o tipo de roupa.

Tentando se organizar! Cada tipo de roupa numa bolsa ziploc, com a categoria escrita pra facilitar encontrar a roupa do dia.

O camping que me hospeda hoje é bem simpático, me deu um spot bacana para montar a barraca, tem wi-fi (que chique!) e, mais importante, piscina. Assim que pude fui me livrar do calor senegalesco dando um tchibum, porque depois de 84 km eu merecia. Depois, tomar banho, lavar a roupa do dia o melhor possível, caçar um supermercado para a janta… a fome atacou feroz.

Nesse momento, estou sentado no chão de terra, encostado num poste que tem duas tomadas, digitando no escuro, espantando os bichinhos que teimam em bater na luz do monitor do laptop. Vagalumes piscam à distância. Acho que periga chover, deu uns relâmpagos agora, melhor correr com isso aqui. Amanhã, Quatro de Julho, vejo fireworks e finalmente alcanço a rota oficial da Transamérica!