GOPR0472

Illieu, Illivocê, Illinois


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Motoqueiros na balsa

Motoqueiros na balsa

Depois de uma noite gostosinha dormindo num colchão de verdade, a trupe toda acordou cheia de disposição. Eu acordei no meu horário madrugador de sempre, e para minha surpresa (e certa satisfação) os três coroas que estão indo pro Atlântico acordaram no mesmo horário. Joe acordou meia hora depois; Lewis fez que ia acordar, disse que precisava dormir mais, virou pro lado no sofá e continuou a puxar o ronco.

Eu ainda estava empacotando minhas coisas quando os três já estavam prontos pra cair na estrada. Eficientíssimos. Mas ainda suscetíveis aos efeitos da madrugada: com todo o equipamento já fora na bike, a professora voltou pra pegar uma garrafa d’água, saiu da cozinha com sua power walk a todo vapor e POF, bateu com tudo na porta de vidro. Deve ter doído muito, tadinha, porque ela até ajoelhou na hora, segurando a cabeça nas mãos. No vidro da porta, a marca da cara dela.

Hoje era mais um daqueles dias tão esperados em que se cruza de um estado para outro: no fim do dia, cruzaríamos do rio Ohio e deixaríamos o Kentucky pra adentrar Illinois. Mas nem toda a expectativa foi capaz de fazer Lewis se levantar do sofá, e quando eu encaixei toda a bagagem no bagageiro da bicicleta e saí do albergue dos batistas, ele continuava na mesma posição de quando eu acordei. Joe pretendia ficar esperando por ele, mas sacou que ele não ia se agitar tão cedo e saiu comigo.

E, sim, fui meio malvado. Mas eu trouxe meu iPod nano pra ouvir as coisas que eu gosto de ouvir enquanto pedalo: os podcasts do dia todos nas primeiras horas, e música nas últimas, pra ganhar um gás extra. Coisas que eu não queria ouvir antes do sol nascer, enquanto os músculos se aqueciam com as primeiras pedaladas: Joe comentando sobre como ia fazer calor, como aveia é a comida ideal para começar o dia, como a bicicleta da professora era igual à dele e fodona, como ele não ia ficar com assaduras mesmo usando a mesma bermuda todos os dias, porque ele arejava bem a bermuda, no avesso, durante a noite. Então, quando ele começou a falar, depois de alguns minutos de blablablá eu tirava o fone de ouvido de uma das orelhas e perguntava “Sorry, what?”. Depois da terceira vez, ele acelerou com sua bicicleta megaveloz e me deixou viajar feliz ouvindo The Rachel Maddow Show.

Duas horas e meia depois, enquanto eu parava na sombra pra fazer a segunda pausa do dia, Lewis surgiu na curva da estrada, feliz por ter me alcançado. E eu fiquei contente dele aparecer também, ele é boa companhia, fica na dele, e pedala mais ou menos no mesmo ritmo que eu. Mais pra frente paramos pra almoçar num McDonald’s e encontramos Joe lá, sentado do lado de fora, usando o wi-fi grátis. Vivas e hurras.

Lewis e eu, na balsa

Lewis e eu, na balsa

Em mais uma hora, chegamos na margem do rio Ohio, onde esperamos a balsa chegar. Era sábado e, na cidade logo antes, algum tipo de evento de motoqueiros estava acontecendo; a fila da balsa estava cheia de tios barrigudos cavalgando suas Harleys, em geral acompanhados de suas moleres gorditas encarapitadas no assento do passageiro. E assim mais um estado ficou pra trás.

A cidadeca do outro lado do rio tinha um restaurante, Lewis quis parar pra comer mais um pouco, eu topei, e lá fomos prum restaurante. Sentamos os três numa mesa, e depois de 20 minutos nem eu nem Lewis nos oferecemos pra pagar a refeição pro Joe. Então ele disse que ia seguir. Belê. E lá ele se foi, deixando-nos livres pra comer sem remorso e ainda tirar um cochilo na beira do rio antes de percorrer a hora final do dia.

Encerramos os quilômetros do dia em Elizabethtown, uma cidadezinha bonitinha na beira do rio. Lewis achava que tinha um parque pra gente acampar lá, mas estava enganado. Mas havia dois bed & breakfasts bem em conta, um deles com vagas, então pra lá fomos. O problema é que Joe, no miserê de sempre, não tinha como pagar pra ficar lá, então no fim das contas resolvemos rachar o quarto nós três – e pagarmos a conta só Lewis e eu. Descontada a raivinha, valeu a pena: o b&b era supercharmoso, com quartos confortáveis e uma piscina bem grande. O dono é fã do Elvis e decorou o andar de cima com todo tipo de quadros e quinquilharias de Presley. A TV tinha canais de TV a cabo, mas de sábado minha querida MSNBC só passa documentários bizarros sobre as prisões dos EUA, então fiquei assistindo American Ninja Warrior, um programa que exige zero da mente e faz bem pros olhos.

Chegamos em Illinois...

Chegamos em Illinois…

... e aqui está a placa pra provar!

… e aqui está a placa pra provar!

Brincando de ET com os guardas

Brincando de ET com os guardas

Hora de dormir, Joe, dormindo no chão (não quis aceitar a cama provisória que a camareira do b&b ofereceu) roncava de tremer as paredes. Com três ciclistas no mesmo quarto, o ambiente estava superquente e cheirando a pé fedido. Injuriado, liguei o ar condicionado na orelha do Joe e me esforcei pra dormir.