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Ontem, antes de dormir, Lewis combinou comigo: “vamos acordar quatro e meia pra sair cedo, que amanhã vai fazer calor!”. Moleza pra mim. Fui dormir mais tarde do que deveria, escrevendo aqui pro blog, mas quatro e meia da matina, quando tocou o despertador, estiquei os ossos, abri a barraca e comecei toda a rotina de café da manhã, trocar de roupa e empacotar tudo.
Ouvi o celular do Lewis tocar e ser desligado. Dez minutos de snooze depois, tocou de novo, e mais dez, e mais dez, e mais dez. Quando meus dois colegas finalmente saíram de suas barracas pra começar o dia, eu já estava quase pronto pra cair na estrada. Confirmamos o destino do dia, conferi mais uma vez se não estava esquecendo nada, e me despedi deles. Joe, antes de eu sair pedalando, ignora que eu estarei uma hora e meia pra frente deles o dia inteiro, vira pra mim e diz “A gente se encontra mais pra frente!”.
É. Eu sou devagar mas posso ficar mais rápido. E você que é feio?
O plano de hoje era sair da rota seguindo um caminho que montamos no Google Maps, pra evitar uma volta meio besta que a rota oficial dá e assim economizar um dia de viagem. E foi uma ótima. A pedalada foi mais extensa do que o normal, mas o terreno foi suave do começo ao fim, e o dia só começou a ficar quente de verdade por volta do meio-dia, quando eu já estava a apenas 15 km de nosso destino, Hodgenville.
No meio da manhã, ainda sem ter ido pro banheiro por conta da ausência dessa conquista ocidental no nosso host ontem, parei num McDonald’s pra usar o sanitário e fazer um lanchinho. Entro no Mac e parecia um baile da melhor idade: o lugar estava cheio de velhinhos tomando café da manhã. Só velhinhos. Estranho pra gente, que tem vergonha de ir no McDonald’s depois de adulto. Mas pelo menos quer dizer que eles continuam bem o suficiente pra se levantar todo dia e ir entupir as artérias nos arcos dourados.
Hodgenville é como tantas outras cidadezinhas do interior dos EUA, com a distinção de que foi aqui que o presidente Abraham Lincoln nasceu e viveu sua infância comum até a família se mudar pra uma outra roça em outra cidade. Então ela tem uma pracinha no centro (algo incomum pros vilarecos dos EUA) com duas estátuas do Abe, e encostado num lado da praça, um museu sobre o presidente.
Estava um calor do cão, e eu tinha que aguardar os camaradas, então paguei os três dólares pra ver como era o museu, realizando assim minha primeira visita cultural desde que comecei a atravessar o país. O museu faz um esforço sincero pra ser informativo, com várias cenas da vida do Lincoln representadas com figuras de cera, mas não tem como não ser pobrinho. Não importa, eu seria capaz de pagar os três dólares só pra passar aquela hora no ar condicionado deles.
Acostumado com a história do Brasil, cheia de imperadores, golpes e eleições compradas, super estranhei conceitos básicos como Abraham Lincoln estar disputando eleições em 1860, abolindo a escravidão pouco depois e por aí vai. Agora, se parar pra pensar, estão comprando as eleições por aqui hoje em dia, então de repente o Brasil é apenas um país 150 anos mais avant garde. Outra coisa fofinha de se aprender é que o Abe teria deixado crescer a barba por conta de uma carta que uma garotinha mandou pra ele durante seu primeiro mandato.
Depois de uma hora e meia aprendendo sobre a vida do figurão, andei meio quarteirão e fui pra sorveteria do outro lado da praça. Lá resolvi experimentar a comida preferida das velhinhas famintas do Cycling Across America, o root beer float, que basicamente é uma vaca preta só que com root beer ao invés de coca-cola. Eu não tinha boas memórias de root beer de quando fiz intercâmbio, achava (e ainda acho) que tem gosto de remédio. Mas root beer float é T-U-D-O. Seria capaz de tomar mais uns três, não fosse jogar fora o esforço de tanta pedalada.
Estava eu todo pirilampo terminando meu sorvete com root beer quando chegam Lewis e Joe, arfando de calor, uma hora e meia depois da minha chegada. Ah, a satisfação que se sente.
O abrigo de hoje é mais um parque municipal que deixa os ciclistas acamparem de graça. É bem agradável, tem piscina (que não pudemos usar porque estava prestes a chover) e até chuveiro, olha que lindo. Deu tempo de jantar num restaurante mexicano barateiro aqui perto, usar o wi-fi do restaurante pra ligar grátis pros amigos no Brasil, ir pro supermercado comprar comidinhas pro café da manhã e na volta recarregar todos os apetrechos eletrônicos enquanto escrevo. Nesse momento, estou aqui cercado de mariposas ensandecidas com a lâmpada acima de mim, e uma baita tempestade se aproxima. Hoje vou dormir em cima da mesa da área coberta, envelopado no meu saco de dormir, com um toró desse nem vale montar a tenda.




