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Durante a noite a natureza continua funcionando normalmente, só que com os bichinhos do plantão da noite. As aranhas pulam de folha em folha, galho em galho, tecendo suas teias para capturar seu alimento. Daí o sol começa a nascer, e os ciclistas e esportistas pulam de suas camas para percorrer as trilhas onde essas aranhas habitam. E destroem todo o trabalho das aranhinhas com seus corpanzis desajeitados.
Sério, pedalar numa trilha arborizada e plana pode ser muito bacana, mas a primeira hora do percurso é foda. Não só você ainda está se aquecendo, como a trilha tá cheia de teias de aranha. Passei todo o começo do dia tirando teia de aranha da boca, dos óculos, dos braços, da cabeça. Uma hora dava até pra ver a coitada da aranha ainda pendurada no capacete, balançando de um lado pro outro. Acabei com mais teia de aranha no meu corpo que a Noiva Cadáver.
O interessante de percorrer a natureza para meu cérebro tão vítima do imperialismo é que de repente você começa a ver na vida real coisas que só existiam na televisão. De repente, você olha mais pra frente e vê cruzando a estrada um colhinho, ou um gambá, ou um veado, ou uma marmota, ou um castor, ou um esquilo. É como se você entrasse num filme da Disney. Uma sensação não muito diferente da que senti quando fui pro Rio pela primeira vez depois de adulto e me deparei com a rua Nascimento Silva. As tartarugas e jabutis também seguem firmes e fortes, por pouco não atropelamos um jabuti que cruzava a trilha, mas Lewis viu-o a tempo. Eu ia pensar que era uma pedra e passar por cima, e morrer de remorso o resto da vida. Graças a meu colega, jabuti salvo, consciência também.
Mas depois de três dias de estrada de terra, já tava mais que bom, e foi com alegria que chegamos a Clinton, MO, às quatro e meia. Sorte nossa também: o lugar em que podíamos acampar de graça era num centro comunitário que, de sábado, só ficava aberto até as cinco. Chegamos a tempo de tomar o merecido banho e nos livrarmos da poeira do dia. Dali seguimos ao escritório do ciclista viajeiro, também conhecido como McDonald’s, e lá ficamos tomando refil de refri e usando o wi-fi grátis até o sol baixar.
De volta ao centro, tínhamos permissão pra acampar no gramado atrás do prédio. A primeira surpresa, pitoresca até, se você fizer vista grossa, foi descobrir uma pintura que parecia ser o emblema de um time chamado “Coon Hunters” numa parede. Nele, vários cães ferozes sitiavam uma árvore, mas o retrato não mostrava qual era a presa. Dado que “Coon” pode ser abreviação de raccoon (guaxinim), pode ser que a vítima fosse um bichinho. Mas “coon” também é gíria (bem suja) pra negros, e a ideia de que os cães estavam perseguindo um african-american ainda não me saiu da cabeça.
(O que faz valer um adendo sobre essa cultura americana das armas de fogo: sim, você encontra rifles e munição pra vender no supermercado. Já vi em vários Wal-Marts, em geral logo do lado da seção de pescaria. Não sei o que é mais incrível, que um supermercado tenha uma seção de pescaria, ou que pra eles matar peixe e matar gente sejam assim, equivalentes.)
A segunda surpresa, de ordem prática, é que os banheiros estavam trancados. Não tínhamos uma torneira de onde tirar água e muito menos um vaso sanitário para nos aliviarmos. Chegada a hora do número 2, não tive solução a não ser procurar um lugar ao ar livre no qual mandar ver. Para minha sorte, tinha uma obra encostada no fim do gramado, na qual estavam abrindo uma vala, os tratores ainda estavam lá da sexta. E é na vala mesmo que eu vou, pensei. Obrei com vontade, que até segunda o pior já teria secado, espero.
Mas nosso gramado tinha um telhadinho supimpa com mesas compridas onde as pessoas devem fazer festinhas, e lá nos instalamos. Espalhei as bolsas todas pelas mesas, armei minha barraca lymda sem precisar bater um grampo que seja, fazendo dela um mosquiteiro de alto nível, e puxei o ronco.




