Desde que encontrei Joe no meio da estrada, ele me avisou que tinha que chegar até hoje na cidade de Hindville, Kentucky, pra pegar uma caixa de comida que amigos dele tinham mandado pra dar uma força em sua jornada. Eu não estou viajando com muito dinheiro, mas o Joe está pedalando LITERALMENTE sem grana. Ele leva consigo um monte de arroz, um monte de macarrão e um monte de aveia, e um fogãozinho portátil abastecido com gasolina. De manhã ele faz um mingauzão de aveia com água, no almoço ele faz macarrão com arroz, e na janta também. E é isso aí.
Chega a me deixar meio deprimido.
Mas daí, quando eu começo a ficar com mais dó dele, ele começa a comentar como a bicicleta dele é muito fodona e alguém já ganhou o Tour de France com o mesmo modelo, como ele gastou 300 dólares na barraca superincrível dele (“dá pra ver que a sua é bem barata, né”, ele disse, na primeira vez que armei a minha), como tal mala dele é fodôncia e custou montes de dinheiro. Fica perguntando quanto as minhas coisas custaram, o que me deixa maluco.
Fala, fala, fala. Essa madrugada, enquanto eu desmontava minha barraca humilde e colocava tudo na minha pobre bike rodada, ele falava sobre como tava cedo, como tinha montanha pela frente, como tinha gato na casa do lado, como não tinha banheiro, e fala fala fala. Apliquei a tática de me fazer de sonso, mas não funcionou completamente. Ele começou a falar com os gatos. Eu já estava macambúzio pela falta de banho do dia anterior, me restou tomar meu café da manhã de pacotinho em silêncio e começar a pedalar pouco depois.
É bem difícil pedalar o tempo todo ao lado de alguém, o que faz com que a enxurrada de conversa não role enquanto a gente viaja. Mas se eu quiser dar um perdido nele eu ainda não consigo, porque ele me espera a cada mudança de estrada pra ver se eu cheguei mesmo. Mas hoje ele tinha que correr pra cidade antes que o correio fechasse, então consegui fazer a última metade da jornada de hoje sozinho, parando quando queria, seguindo o meu ritmo e ouvindo meu iPod.
Cheguei em Hindman uma hora depois dele, e ele estava me esperando num supermercado perto da entrada da cidade. E é nessas horas que ele se torna útil e prestativo (e ele não é má pessoa, convenhamos). Ele conseguiu pegar as coisas dele antes que o correio fechasse, e tinha passado o tempo em que me esperava conversando com duas mulheres, que falaram pra ele que existia um albergue na cidade que não estava indicado no mapa. Eu, que já estava preparado pra viajar uns 30 km a mais do que o normal simplesmente pra não passar outro dia sem banho, dei pulos de alegria.
(As mulheres eram as duas 1001, ou seja, não tinham vários dentes da frente. Esse universo em que as pessoas se deixam perder o dente da frente não me entra na cabeça.)
E o albergue é INCRÍVEL. É uma casa meio antiguinha mantida pelo David, um senhor que claramente é gay e sem parceiro. A residência é cercada por dezenas de gatos que ele alimenta, apesar de oficialmente só ter um. Pelo módico preço de 25 dólares, dele deixa os ciclistas que passam pela cidade ficarem em um dos dois quartos da casa de fora ou numa tenda gigante que ele deixa montada, ou deixa você armar a própria. Além disso, incluído no preço, está o jantar, o café da manhã cheio de frutas, o banho, e ele ainda lava sua roupa. E tem wi-fi. Depois do dia tristonho de ontem, ficar nesse albergue feliz recuperou minha fé na humanidade.
Joe, coitado, ia procurar os bombeiros da cidade pra acampar no quintal deles, como sempre faz. Mas daí, conversa vai, conversa vem com o David, ele me disse que Joe poderia ficar em troca de trabalho, cortando a grama por duas horas e meia (“dez dólares por hora!”). Fui falar com Joe, e ele topou. Então, enquanto eu ficava usando o laptop de banho tomado, conversando com os outros hóspedes do dia, meu colega empurrava o cortador de grama ainda fantasiado de ciclista. Me sinto um pouco mal. Mas c’est la vie
Até agora, os outros dois hóspedes são um pai e uma filha que estão pedalando juntos pelo país. Não vão fazer a travessia de lado a lado inteira, mas parece que ainda pedalarão por mais uma semana ou duas. É muito bonitinho os dois, falando do tempo que estão passando juntos e tal. Ele é europeu, já viajou por mil lugares, o que também me deixa muito feliz porque consigo conversar com ele sobre mil coisas, e quando eu fico quieto ele também fica. Mal acredito.




Marcio, que orgulho! Vi esses dias um dos seus posts sobre sua jornada. Desejo sorte e sucesso. Espero que vc encontre muita gente bacana pelo seu caminho. Um beijo grande!