IMG_0845

Compensações


View Larger Map

Amanhecer no campo

Amanheceu, peguei a magrela, cobri as canela e fui viajar!

Estou usando um guia para orientar essa travessia, The Complete Handlebar Guide to Bicycling the TransAm Virginia to Oregon/Washington, que divide a viagem em dias com distâncias razoáveis para você fazer sem botar as tripas pra fora. Ontem, parando no camping dos pirambabas, eu fiz um pouquinho menos do que devia ter feito; vendo o lugar em que o guia sugeria terminar o dia, eu vi que não tinha uma opção decente de hospedagem na cidadeca que sugeriam. E, depois de uma semana na estrada, algumas coisas como lavar roupa se faziam prementes. Então decidi ir um pouco além do sugerido até uma cidadezinha que pelo menos tinha um hotel barateiro, onde eu poderia dormir numa cama fofinha e lavar meus trapos.

Consegui acordar cedo e lá me fui, aproveitando enquanto o dia ainda estava agradável. A estrada seguia riachos por grande parte do dia, o que foi deixando o dia mais úmido conforme a temperatura subia. Domingão, quase nada estava aberto, principalmente na hora que eu passava. Acabei tendo que fazer um early lunch às onze horas no único Burger King que encontrei servindo no caminho. Não é muito saudável, mas quando se está pedalando desde as seis da manhã, algumas gordices se permitem.

Vaquinhas na água

Está tão quente que as vacas resolveram se jogar no brejo!

Às duas da tarde, já com oitenta e tantos quilômetros rodados, fiz um pit-stop num posto de gasolina, tomei um gatorade, fiquei feliz que estava chegando e lá me fui na rota. E fui. E fui. E fui. E fui. E subia, e descia, e nada de chegar. O celular não pegava, o mapa não carregava, só mostrava que eu estava sim na rota. Fui pedalando cada vez mais injuriado até encontrar um senhor que mexia em seus badulaques na frente de casa. Entrei na propriedade e perguntei pra ele como chegava em Daleville. E ele me apontou na direção de onde eu tinha acabado de vir.

Eu tinha passado reto pela cidade. Fui mostrando os mapas pra ele, e ele foi apontando onde ficava, e eu fui enchendo minha voz de angústia com o prospecto de ter que pedalar tudo de volta. Fui esticando a conversa e caprichando na minha cara de gato de botas desidratado, até que ele ficou com dó e me disse pra colocar a bicicleta na caçamba da caminhonete dele, que ele ia me dar uma carona pro hotel.

Felicidade é isso, um hotel no fim de uma carona que corrige uma pirambabice que você fez no dia. Descobri que aquele posto onde eu parei todo contente pro gatorade ficava na pontinha da cidade, tivesse perguntado onde estava não tinha pedalado à toa.

Dia de hotel é dia de alegria, conforto e tarefas domésticas. Lá fui botar a roupa pra lavar, daí dar um mergulho na piscina porque estava um calor pra burro. Sem querer interrompi um casal de jovens namorados que discretamente se pegavam no canto da piscina deserta, ela já sem a parte de cima do biquíni, ele abraçando ela por trás na quina. Dei uns chuás e fui cuidar da vida, que precisava transferir a roupa da lavadora pra secadora, e não ia atrapalhar a juventude inconsequente.

Ainda aproveitei pra skypear com a família, que sempre é bom, e ver televisão, que é uma prova que a civilização continua nos eixos. Tudo em paz no meu mundo e no mundo alheio, fui dormir sabendo que não precisaria acordar tão cedo dia seguinte: não tinha barraca pra desmontar antes de raiar o dia.

One Response to “Compensações”