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A alegria de encontrar O Melhor Albergue do Mundo em Hindman, KY foi enorme pelo fato de ter sido bem tratado, ter uma janta deliciosa e um café da manhã melhor ainda incluídos na hospedagem, e ainda por cima ter roupa lavada. Mas mais bacana ainda foi encontrar vários ciclistas que estão indo na mesma direção que eu, e assim sair da solidão (ou pelo menos da obrigação de ter que ser o amigo do Joe na viagem inteira). Na noite que passei lá, conheci Pavel, um europeu que estava viajando com a filha de 12 anos, Bianca; John, que viaja como se estivesse apostando corrida, quebrou quatro raios da roda num só dia, estava com lesão no joelho e não tinha força pra piscar no fim do dia, mas não se convenceu que estava exagerando; Lewis, um inglês que conseguiu o primeiro emprego como professor secundário e resolveu fazer a viagem antes de virar “gente grande”; Jim, James, outro John… foi um dia cheio de Js.
Tão feliz fiquei que quebrei meu princípio de acordar às quatro da madrugada pra sair pedalando antes do sol nascer; queria aproveitar a companhia da turma mais tempo, passar um dia pedalando acompanhado, já que todos iríamos pra mesma cidade no dia seguinte. Tomei o café da manhã gigantesco que o albergue oferecia, e aguardei todos se aprontarem; acabamos saindo às nove da manhã, horário que em geral já estou no meio do caminho.
Valeu pela sensação de não estar abandonado no mundo fazendo uma coisa sem sentido: outros loucos também estão nessa luta. Mesmo sendo praticamente impossível pedalar junto o tempo todo, a gente acaba se encontrando nos postos para as paradas pro Gatorade, e quando, por exemplo, começa a chover com trovoada, calhar de ter alguém pra te ajudar a pedir abrigo na varanda de um estranho é bem melhor. Mas as preciosas horas da manhã, em que tudo é fresquinho e gostosinho, fazem falta; quando eu estava pedalando entre as duas da tarde e as cinco, sentindo o sol queimando apesar de todo protetor solar, eu queria matar todas essas pessoas que preferiam dormir umas horinhas a mais a acordar num horário absurdo pra fugir do sol.
O relevo do Kentucky é bem mais agradável, mas ainda cheio de subidas que volta e meia te forçam a descer e empurrar a bike. As pessoas têm um sotaque igual ao dos filmes de caipira, eu tento imitá-los quando converso com eles, cheio de medo que eles vão achar que estou tirando sarro, mas eles não percebem nada de errado, então ótimo. O povo também começa a ficar mais feio: gente REDONDA, gente flácida, gente faltando dente da frente, de um jeito que não estamos acostumados desde que inventaram a água fluoretada e a dieta balanceada.
Outra coisa curiosa do estado em que estou são as tartarugas. Desde o começo da viagem que é a coisa mais comum do mundo encontrar carcaças de animais atropelados na beira ou no meio da estrada: veados, pássaros, gambás, quatis, guaxinins, cachorros… no começo dava dó, agora já viraram carne de vaca. Você tá pedalando e sente um cheiro intenso de carniça, pode olhar em volta que tem uma carcaça grande alimentando as moscas e os urubus. Agora, hoje, comecei a reparar na presença das tartarugas na estrada. Em geral, também já atropeladas: um casco todo despedaçado, com as tripinhas ainda dentro do estojo se esparramando aos poucos pelo asfalto. Vi grandes e vi pequenas. Volta e meia se vê uma tartaruga viva prestes a tentar a emocionante aventura de atravessar a estrada: daí a gente pára e vira ela pro outro lado, por mais que ela vá ficar contrariada.
(Você vê que está chegando no ponto sentimental da viagem quando tá pedalando, vê uma centopéia ou besouro no caminho, e pra se distrair passa com a roda em cima. Daí fica MORTO DE REMORSO e fica perguntando POR QUE fez uma maldade tão gratuita como essa.)
Chegamos em Booneville já depois das sete, com o dia ainda quente, e eu num mau humor do cão. Não consegui fazer nada até tomar um banho (gelado, que nosso abrigo do dia não tem chuveiro quente; mas nesse calor, não incomodava) e comer algo descansando. Depois o resto das pessoas foram chegando, outros ciclistas surgiram. Bianca, que certamente não queria perder a oportunidade de passar mais uma noite cercada de ciclistas gatinhos, puxou o ritmo do pai pra fazer ele chegar na cidade onde sabia que a gente ia parar. A noite foi bem gostosa, com várias conversas interessantes, mas quando deu dez e pouco, pedi desculpas e me escondi na barraca: dia seguinte eu ia acordar bem cedo de novo. Sair às nove, nunca mais.




Aff, tartaruga morta deve ser um horror, eleve dar dó tardinha. Vc disse pra Bianca que vc tinha uma irmãzinha!!! Beijos saudades
Que horrível, Márcio!!! Pode parar de atropelar os bichinhos!!!
Depois desse post criei consciência cármica de que era ruim atropelar insetos na estrada, e desde então tenho desviado de todos!