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Quanto mais pro centro eu pedalo, mais coisas pitorescas eu encontro. Anteontem, quando fui pagar meu almoço num posto de gasolina pobrinho, eu vi que tinha um potão de plástico com algumas moedas dentro. Em volta dele, rótulo que dizia “Festa de Homecoming – Faça a KATIE beijar um porco!”. Perguntei o que que era isso. Katie era a mulher atrás do balcão. Eles estavam juntando dinheiro para a festa, e vários estabelecimentos tinham um pote desses, com o nome da responsável escrito. A dona da jarra com mais dinheiro teria que beijar um porco durante a festa. Fiz minha parte pra Katie terminar a festa beijando um torresmo e joguei umas moedinhas no pote.
Hoje, em outro posto, vi que estavam vendendo um jornal chamado BUSTED!. Na capa, vários retratos de frente e de perfil de pessoas que tinham sido presas, e chamadas dos crimes que os infelizes tinham feito. O que é isso?, perguntei. A caixa: “Ah, é um jornal, sai toda semana, com as fotos de quem foi preso nos últimos dias”. Jura? E tem tanta gente assim? “Ah, tem, e boa parte deles são clientes nossos!”, ela completou, rindo.
Isso sem falar dos lugares que anunciam alfafa e feno pra vender.
Outra coisa divertida desses dias é que começaram a surgir amish no caminho. Algumas estradas têm uma placa avisando que você pode trombar com uma carroça, e quando você menos espera, lá vem um membro da igreja pela estrada puxado a cavalo, com a barba batendo no umbigo, cara de quem não vê sabão desde que fizeram bullying nele na infância, e roupas que não mudam desde a virada do século passado. Ou mulheres com um gorrinho, também na carroça, cercada de crianças louríssimas, escandinavas até a medula.
Dois dias atrás um pessoal que vinha na direção contrária nos contou que havia um albergue incrível em Sebree, cheio de comida e acomodações confortáveis de graça. Seria uma boa pedalada, mas prometia valer a pena. Acordamos todos supercedo, e às seis da matina estávamos na estrada. Na verdade Joe saiu antes, porque queria chegar logo e “vocês fazem paradas demais”. E lá se foi ele vinte minutos antes de mim. Quando eu e Lewis estávamos saindo do parque, vimos uma bike vindo a toda, e era Joe, com cara de puto. Deve ido pro lado errado na saída do parque, percebeu o erro lá na frente, e agora estava voltando na direção certa. Passou sem nem cumprimentar.
Logo cada um pegou seu próprio ritmo, e eu acabei pedalando sozinho. E foi um dia ótimo, o terreno cada vez mais tranquilo, sem calores, subidas e descidas na medida pra você pegar embalo e sair voando pela estrada. A distância acabou sendo maior que o normal até agora, mas não sofri nada. E o “albergue” valia a pena: o centro social de uma igreja batista, com sala, cozinha, banho, máquina de lavar roupa, internet, tudo de graça. Tão confortável e gostoso, é capaz de converter um ciclista menos preparado.
Mais tarde chegou um outro grupo de ciclistas que vinham do oeste, dois caras e uma mulher, todos de meia-idade. Ela é uma professora de high school, que começou a pedalada no oeste com alguns alunos, mas eles eram “lerdos demais, não tinham a menor pressa”, e ela tem que terminar a jornada antes das aulas começarem. Então deixou os aluninhos lesmas comendo poeira, encontrou os outros dois coroas e vem acelerando desde então.
Outro dos coroas está fazendo a travessia pela segunda vez. Ele contou que já atravessou o país de bike há três anos, com a esposa e o filho. Mas nem o filho nem a esposa estavam muito afim de fazer a viagem, e ele pedalava com o pimpolho numa bicicleta dupla. “Ou seja, era como se eu estivesse carregando uma bagagem extra de 30 quilos, porque o pouco que ele pedalava não ajudava muito, e muitas vezes ele simplesmente botava os pés pro alto e deixava eu ficar puxando ele”. Agora, sem ter que se preocupar com a alegria de outros e com menos peso pra arrastar pelo continente, está curtindo muito mais. Sem dúvida.


