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Passei a noite de ontem num albergue atrás de uma igreja metodista, totalmente vazio e um tanto sujo, mas ajeitado e com água quente. Pede-se (num cartaz) uma doação de 6 dólares pela estadia lá, mas não tem ninguém pra receber, apenas um cofrinho para a grana. Nossa mentalidade gersoniana brasileira sempre deixa a tentação de ir embora sem pagar nada, mas decidi não estragar o karma que tem sido tão bom, e deixei 10 dólares na caixinha.
O Joe quer companhia pra viagem, e minha condição para isso é acordar às quatro e pouco da manhã pra continuar saindo logo no comecíssimo do dia. Ele disse que tudo bem, então às quatro e meia da madruga deixei o despertador tocar um pouco mais que o normal para ele acordar também, pedi pra acender a luz, e lá começamos a juntar os trapos para mais um dia de viagem.
O dia começou friozinho, mas felizmente sem chuva. Os mapas já avisavam que haveria uma subida de 6 km ininterruptos depois dos 34 primeiros km do dia. Então eu estava tentando me concentrar. Acontece que Joe quer companhia, e o Joe fala. Ele é o tipo de pessoa que pensa em voz alta: “olha, uma vaca! Cara, que subida. Será que tem um posto na frente? Minha roda é redonda. Vou mudar a música no celular. Ainda não são nem sete horas, caramba! Xi, tá chovendo.” e por aí vai. Meu sentido de educação não gosta de deixar exortações sem resposta, mas depois de um tempo eu simplesmente comecei a fingir que não ouvia.
Depois de uns 20 km eu deixei ele ir pra frente (ele gosta de correr) e tive uma meia hora de paz. Mas no pé da ladeira, lá estava ele, me esperando, “porque as subidas passam tão mais rápido quando se tem alguém pra conversar!!”. Já estava me conformando em passar a próxima hora e tanto ouvindo como a subida subia, até que passei por um riachinho e senti a necessidade de ir pro banheiro. Tentei avisar que ia parar, mas ele já estava fazendo a curva e não me ouviu. Oh well. Desci, fiz tudo o que tinha que fazer na rusticidade, liguei o iPod e fui pedalandinho subida acima.
Que, mais uma vez, subiu, subiu, subiu. E subiu, subiu e subiu um pouco mais. E subiu mais um pouco. E daí continuou subindo.
Depois de muito serpentear para as alturas, cheguei no cume da serra – e lá estava o Joe me esperando. Mas não porque queria companhia: ele fez tanta força carregando tanto peso, que um dos raios da roda de trás quebrou. Daí achou por bem me esperar, com razão. Se acontece alguma coisa com a roda que faz ele perder o equilíbrio e mergulhar no asfalto na descida, é bom estar acompanhado. E eu disse que tinha voltado a chover?
Então fomos serra abaixo, segurando a velocidade, eu porque me cago de medo de deslizar no asfalto molhado e me ralar até encontrar a curva e daí cair barranco abaixo, Joe porque tinha medo que a roda caísse. É meio frustrante não poder ir tão rápido quanto se deveria, mas é melhor que perder os dentes. Chegamos no pé da montanha sem acidentes, e daí eu resolvi parar para o almoço num posto de gasolina.
O plano daí era pedalar mais 24 km, até uma cidadezinha que tem um parque onde se pode acampar de graça. Joe vira pra mim e fala “você vai na frente agora, pra me impedir de ir muito rápido! A velocidade que você faz é boa pra evitar que a roda piore”. Que alegria. Além de ser chamado de lerdo, ainda fui sendo seguidos pelos pensamentos em voz alta de Joe. Eu sei que não é por mal, mas já não sou das pessoas mais sociáveis, os dias pedalando sozinho me deixaram mais eremita ainda, e ficar falando inanidades ladeira acima depois de seis horas pedalando não está na minha lista de coisas dilicinha.
Mas chegamos os dois vivos no parque em Council, Virgínia. Um parque bizarramente lindo e grande e bem equipado pra uma cidadeca que não tem sequer um mercadinho. Deve ter sido uma doação de alguma empresa. Anyway, tinha até uma piscina e um chuveiro do vestiário da piscina que deixaram a gente usar. Deixaram a gente se instalar numa área coberta cheia de mesas, desde que a gente não incomodasse o povo que ia fazer um evento na outra área coberta – um pessoal Católico Carismático que está fazendo um aleluia. Cheguei a considerar aparecer por lá com um cartaz “I’ll praise Jesus for food”, mas não realizei a ideia.
Joe resolveu aliviar a carga dele pra parar de quebrar os raios de suas rodas (é o quarto desde que ele começou a viajar), e sem brincadeira, separou uns três quilos de tralha que ele carregava à toa. Parecia a Mary Poppins tirando coisas da bolsa. Ele tinha três tesouras diferentes, livros, ferramentas, garrafas vazias de gatorade… pelamor. E daí ele disse “meu, se aparecesse alguém agora com a ferramenta pra consertar o raio, eu ficaria tão feliz, eu trouxe um raio extra”.
Dá-lhe bom karma, em 20 minutos chegou um outro ciclista, vindo na direção contrária à nossa, e parou no parque também. “Oi! Tudo bem? Você tem uma ferramenta pra consertar raio?”. O tio olhou pra ele e respondeu: “tenho sim!”. E daí seguiram-se duas horas dos dois, com eventuais ajudas ignorantes minhas, realizando a complicada operação de trocar um raio e alinhar a roda depois. Final feliz. Pudemos daí ficar conversando, eu pude colocar o blog em dia, fizemos janta, ouvimos os católicos cantando e gritando aleluias na área ao lado, tudo joinha. Deu até pra pendurar tudo na esperança de que os pertences fiquem secos – ou pelo menos passem para um pouquinho úmidos apenas. Hoje não pretendo nem armar a barraca, vou esticar meu saco de dormir quentinho e meu colchão inflável em cima de uma das mesas e puxar o ronco.




