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Minha intenção ao fazer a rota era de repente encontrar alguém que também estivesse com os mesmos planos, e assim conseguir companhia pra viagem. Agora já me parece bem mais difícil, porque percebo que quem vai na mesma direção que eu, a não ser que algum imprevisto aconteça, vai sempre estar X dias na frente. Se não encontrei alguém nos primeiros dias, dificilmente vou encontrar alguém agora. Em compensação, já aconteceu várias vezes de cruzar com gente que vem no sentido contrário: ciclistas que começaram no oceano Pacífico e estão (a essa altura) pra chegar no Atlântico. No café da manhã hoje trombei com um outro senhor fantasiado de ciclista. Começamos a conversar um pouco, ele disse que estava pra chegar em seu destino, trocamos algumas figurinhas. E ele me deu a notícia de que a previsão do tempo prometia temperaturas menores e chuva. Coisa que eu, que não tenho o menor hábito de conferir a previsão do tempo, jamais saberia.
A única coisa boa de se pedalar duas vezes o mesmo trecho é que se consegue avaliar o efeito fisiológico sobre a apreciação da paisagem. Ontem, quando escalava os montes cada vez mais desacreditando que a maldita cidadezinha não chegava, aquilo tudo me parecia insuportável. Hoje, passando pelos mesmos morros de manhã, descansado e no fresquinho, eles me pareciam super-ajeitados e pitorescos. Depois de uma hora, passei pela casa do tio que me salvou ontem, fiz um tchauzinho simbólico, e segui caminho.
Mais uns quilômetros, e passei por um senhor de bike carregada que claramente estava fazendo a mesma rota, mas no sentido contrário. Cumprimentei e segui sem parar. Pouco depois, vi mais um casal de terceira idade, que fez questão de parar para trocar umas palavrinhas. Comentamos do terreno, campings e tal, e eles disseram que tinham um veículo de apoio. “Mas a gente começou a viagem em Pequim!”, a senhora disse. Fiquei passado, mas me fiz de blasé e dei os parabéns pra eles.
Pedala, pedala, pedala, e vários desses velhinhos pedalantes passando por mim. Até que encontrei mais um num cruzamento, troquei umas ideias e investiguei melhor. O que rola é que eles fazem parte de um grupo que, a cada quatro anos, vão de bicicleta da cidade onde aconteceu a última Olimpíada até a cidade onde vai ser a próxima. Ou seja, estão pedalando desde abril, e depois de atravessar o Norteamérica vão pra Irlanda pra rodarem até Londres, onde chegarão no dia do encerramento da Olimpíada. O que explica a idade do grupo: tem que ser bem aposentado pra ter seis meses pra fazer essa brincadeira. Imagino como vai ser quando tiverem que ir de Londres pro Rio…
Chegando na cidade onde queria chegar, fui caçar o camping que o mapa indicava. Era um tanto fora da rota. Cheguei, era um lugar feioso, mas respirei fundo e disse que queria passar a noite lá. O cara do escritório pediu mil desculpas, mas disse que o camping não aceitava barracas individuais, apenas motor homes e pessoas que queriam dormir dentro do carro. Daí fiquei bem irritado. Mas fazer o que. Olhei pro outro lado da rua, tinha um Holiday Inn Express, respirei fundo e cavei no orçamento mais uma noite de hotel.
Dessa vez pelo menos não tinha mais afazeres, me tranquei no quarto o resto da tarde e da noite e fiquei assistindo MSNBC até dizer chega. Segunda-feira com Rachel Maddow, isso me deixa feliz.


