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Esses dias que você fica em casas incríveis são um bálsamo pro ciclista viajante. Você volta a ser uma pessoa limpinha, que dorme entre quatro paredes, toma café da manhã sentado e assiste televisão. O único problema é que corre o risco de amolecer e daí voltar para a rotina não é muito fácil.
O combinado para o dia hoje era uma pedalada um pouco mais curta, para compensar a esticada do dia anterior e aproveitar ao máximo a hospitalidade de Sharon & Mark. Então me permiti acordar mais tarde, e pela primeira vez no mês me fiz ficar dormindo até as oito da manhã. Às oito Lewis ainda nem tinha se movido ainda, mas eu achei que daí também já era demais, levantei e comecei a organizar as coisas. Sharon surgiu na cozinha de roupa de ginástica e roupão logo depois, e começou a preparar um super café da manhã pra gente. Ah, a felicidade de alguém cuidar de você.
Nove da manhã, tudo pronto, mas Lewis começou a falar via Skype e não parava. Sharon foi fazer seus quinze minutos finais de esteira (“tenho que fazer trinta minutos por dia, mas cansa muito, então faço quinze, descanso e depois faço mais quinze”), e eu fiquei vendo TV esperando Lewis subir na bike. Dava pra ficar vendo os Jogos Olímpicos, então não achei muito ruim. Mas ficava aflito de qualquer jeito. Vieram as eliminatórias de natação, as eliminatórias de ginástica olímpica, e Lewis falando. Deu pra folhear os livros que a Sharon devia estar lendo, jogados na mesa de centro (A dieta das mulheres e Perdendo peso com Deus, sem brincadeira). No fim das contas, Lewis estava resolvendo um problema com a companhia aérea que o trouxe pros EUA e tinha perdido a bagagem dele, e achou por bem aproveitar da internet de Sharon. O que faz sentido. Mas significou cair na estrada meio-dia.
O caminho era até que fácil, mas a onda de calor aqui está impossível, quarenta e tantos graus todos os dias, sendo que os picos de temperatura são no final da tarde. Ou seja, bem enquanto a gente estava cercado de asfalto por todos os lados e sem uma sombrinha que ajudasse. Eu, com toda a minha brejeirice brasileira, estando hidratado e alimentado e rodando na bike pra ter o ventinho do movimento, me viro razoavelmente bem. Mas meu colega inglês entra em pane com o calor. Não estou acostumado a deixá-lo pra trás, mas a performance dele estava tão comprometida que isso aconteceu várias vezes. Por volta das três da tarde trombei com uma casa que tinha várias árvores na frente, parei, esperei ele chegar, todo esbaforido, e sugeri uma pausa. Ele aceitou e quase desmaiou no gramado. Isso é uma enorme prova de amizade minha, porque eu gosto de ir logo, chegar logo e poder descansar de vez logo. Mas depois o menino desmaia na estrada, um caminhão passa em cima e eu fico sem colega de viagem.
Por volta das cinco da tarde, ainda quente de fritar ovo no asfalto, chegamos em Toronto, Kansas, e lá ficamos. Viajar no calorzão não estava gostoso. Entramos num restaurante no cruzamento entre duas estradas, pedimos uma pizza e a senha do wi-fi e enrolamos até o sol baixar. Uma senhora nos mostrou a previsão do tempo para os próximos dias: 40 e tantos graus até o fim da semana. Meu padimpadiciço.
Quando o sol estava prestes a se por, voltamos pra rodovia e tocamos pra cidade de Eureka. Olha o estado em que eu me encontrava, indo pra uma cidade chamada Eureka e nem conseguia juntar a alegria pra aproveitar o nome. No Kansas, a maior parte dos parques permite que você acampe de graça. E a grande parte deles têm piscinas dignas de parque aquático. Então imagina minha desolação ao chegar no parque pra acampar às oito da noite, o dia se esvaindo, depois de passar calor o dia inteiro, sabendo que a piscina tinha acabado de fechar.
Depois de tomados os banhos e inflados os colchonetes, prestes a dormir, Lewis vem me falar que achava uma boa retomar o esquema de acordar às quatro da madrugada. E eu nem precisei dizer nada. Que alegria.



