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Na manhã seguinte ao dia que eu passei reto por Daleville, encontrei um outro ciclista que tinha vindo do oeste para o leste e troquei figurinhas com ele durante o café da manhã. A principal dica que ele me passou foi “quando você estiver perto do Missouri, tenta pegar a Katy Trail. Vai te poupar dias de subidas e descidas.” A Katy Trail é uma estrada de ferro desativada que cruza o Missouri quase inteiro. O governo cobriu a ferrovia com asfalto e tranformou-a num parque linear, perfeito para ciclistas. “É superplana e arborizada, o único problema é que chega a ficar chato depois de um tempo”, descreveu meu colega de café da manhã. Mil vezes dias entediantes pedalando no plano que dias quentes e emocionantes subindo e descendo ladeiras para atravessar as montanhas Ozark. Fiquei convencido.
Lewis, além de ser uma das poucas pessoas que gostam tanto de leite quanto eu, também gosta de soluções práticas e também quer chegar o quanto antes no fim da jornada. Quando eu contei do meu plano de sair da trilha oficial pra entrar na Katy Trail, ele pesquisou, considerou se os dias de desvio valiam a pena, chegou à conclusão que sim e embarcou no meu plano. Fiquei feliz por ter companhia para a viagem garantida, e ter o plano validado por alguém que realmente se deu o trabalho de fazer a pesquisa.
Mas para isso a gente tinha que sair da trilha e subir até St Louis, onde a trilha começa. Supus que haveria um monte de pontes pra atravessar o rio Mississippi e cruzar a fronteira do estado, mas descobrimos tarde demais que só tem duas – e uma delas fica na área mais barra-pesada da cidade, na cidade que tem o maior índice de criminalidade dos EUA. A outra, mais “segura”, fica numa rodovia nada amigável para ciclistas, e entrar nela de bike no estado de Illinois é proibido. Mas antes arriscar alguns minutos de estrada que várias horas cercados de gangues. Já pra rodovia.
Uma vez eu precisava ir de casa até o Morumbi, e decidi pegar a marginal Pinheiros. Caí na via expressa logo antes do Jóquei e para meu desespero constatei que não tinha sequer um acostamento decente. Os carros e caminhões zuniam perto de mim, eu pedalava furiosamente, e assim que cheguei do outro lado do jóquei peguei a primeira rampa de acesso rumo a uma avenida menos assassina. Esse foi o momento mais terrível da minha carreira de ciclista. O segundo momento foi hoje, cruzando a ponte da rodovia 255/50.
Chegamos na estrada por estradinhas paralelas pra não chamar a atenção da polícia rodoviária até o último momento. Daí chegamos perto da cerca, erguemos as bikes e caímos na rodovia. O acostamento era bastante grande, mas a velocidade dos carros também. Montamos nas magrelas e eu comecei a pedalar com toda a força que tinha, como se tivesse realmente polícia atrás de mim. Os caminhões rugiam, entrei na ponte. O Mississippi corria tranquilamente sob as vigas de concreto, e eu mal olhava pra trás, na esperança de cruzar logo a linha entre os estados e sair das garras da polícia de Illinois. Obviamente em momento nenhum os guardas rodoviários sequer se ligaram na nossa clandestina presença, mas era emocionante imaginar a perseguição. Em poucos minutos cheguei do outro lado, Lewis poucos minutos atrás. Vitória! Pena que não tinha uma placa decente de boas-vindas ao estado. Essa fronteira vai ter que ficar sem foto mesmo.
O resto do dia foi consumido em percorrer 45 km da ponte até o início da trilha. Calor saariano, mas pelo menos percorremos as áreas mais chiques de St Louis, casas lindas, próximas entre si, em ruas limpas e tranquilas – alto contraste do que estava em nosso caminho até agora. O plano inicial era já cair na trilha hoje mesmo e terminar a noite num camping, mas quando deu quatro da tarde e ainda faltava 5km pra chegar na trilha, Lewis achou melhor fazer o que eu secretamente já achava que era pra ser feito desde o começo do dia: rachar um hotel barato e entrar na trilha amanhã. Quando se viaja em duas pessoas, esse tipo de gasto fica bem mais acessível. Paramos num restaurante com wi-fi, comemos e pesquisamos o hotel mais em conta. Amanhã, se tudo der certo, vamos começar quatro dias de altas quilometragens. Sem sobe-desce, não vejo por que não daria certo.



Cara, animal tuas aventuras! Sério, o Blog está incrível e nos deixa com muita vontade. Aí, lembramos que somos apenas meros ciclistas de final de semana … =S .. Vou acompanhar tudo por aqui! Abs, Thiago
Cara… comecei a ler um post… e acabei lendo quase todos hahaha… que aventura louca! Parabéns primo. Vou continuar acompanhando.
Eu li tudo, e eu adoro, pra mim é como se fosse um livro de aventuras do meu irmão, em que cada dia é um capitulo bem certinho.