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Pirambabas


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Altitude do dia

O desafio do dia, subir subir…

Deixei a casa da Cookie Lady no mais escuro dos escurinhos de todas as minhas saídas, o que me deixou muito orgulhoso. O trajeto hoje era o trecho com a maior elevação até agora, e eu o plano todo era subir a megaladeira antes que o sol surgisse.

Quando você sai à noite de regata e bermuda e não sente sequer um calafriozinho,se prepare que vem muito calor por aí. E realmente. Às sete da manhã já estava um diazinho gostoso, o que significa que a tarde vai ser infernal. Eu respirei fundo, coloquei as marchas da bike no mais leve e fui pedalandinho sempre pra cima, pra cima, pra cima, que uma hora você chega.

A estrada principal do dia foi a Blue Ridge Parkway, uma estrada supercênica no alto de uma serra. Cheia de mirantes, sem nenhuma cidade, posto de gasolina ou nada que dê uma assistência. Muito bonito para deliciosos passeios de carro ou moto (sério, vi umas trinta pessoas passando de Harley), mas não é a situação ideal para ciclistas que, primeiro, têm que chegar no alto dessa serra, e depois têm que atravessar a estrada tão sinuosa. E o fato de estar no alto das montanhas não significa que é tranquilinho: apenas que a subida bizarra já passou. Ainda tem subidas normais serpenteando pelos picos a serem conquistadas.

Era um dia dia com uma jornada basicamente numa estrada só, e a estrada com apenas um cruzamento. Mas, como eu não passo de um pirambaba, eu consegui me dar mal justamente nesse único desvio. Um pouquinho fora do caminho, nesse cruzamento, tinha um resortzinho com uma loja onde eu poderia comprar uma água, então entrei nele para me reabastecer e descansar. Quando saí, me distraí, virei pro lado errado e segui feliz e contente – na estrada errada. A estrada começou a descer, e eu todo feliz que a estrada da serra estava acabando, quando eu passei por um camping. “Que estranho, o mapa dizia que não tinha camping nesse trecho.”. Depois de descer mais, eu finalmente consegui carregar o GoogleMaps e confirmei: já estava dez km fora da rota. E láááá embaixo.

Eu no mirante

3 mil pés de altitude, e ainda tem mais o que subir…

Analisei o mapa, voltei um pouco, e entrei numa outra estrada que seria um “atalho”. Felizmente, na primeira ladeira insana dessa estrada, um tio dentro de uma van apareceu, ficou com dó de mim empurrando a bike ladeira acima com toda a carga, e disse que me daria uma carona de volta pro alto. “Assim eu aproveito pra descobrir se dá pra pedalar nessa estrada!”, disse, abrindo a porta de trás da van. Dentro dela já tinha uma bike: o tio era ciclista. Fomos conversando enquanto a van escalava o asfalto em ângulos impossíveis, eu cada vez mais feliz que não tinha subido aquilo tudo na bike. O tio da van me deixou exatamente no ponto onde eu errei o caminho, me desejou sorte, disse que gostaria de ter idade pra atravessar o país como estou fazendo, e lá se foi.

Mais duas horas e eu comecei a despencar na ladeira certa – quase literalmente. Se o lado que eu subi era íngreme, o que eu desci era mais, tanto que não dava pra deixar a bike rodar livremente – a velocidade chegava perigosamente no limite em que uma freada mais brusca faria com que a bagagem toda rolasse por cima de mim. Muitas freadas mais tarde, cheguei no pé da serra, e daí foi mais meia hora até chegar no camping onde eu passaria a noite.

A rotina de camping se repetiu como sempre: chegar, pagar, comer algo, montar a tenda, deixar tudo lá dentro, e buscar algo mais substancioso pra comer. Descobri então que o lugar que o mapa indicava como próximo pra comprar umas comidas básicas estava sem eletricidade há uma semana, então não tinha o que comprar lá. O administrador, Allan, enquanto terminava uma breja, se ofereceu pra me levar pro supermercado mais próximo por dois dólares, o que eu aceitei feliz.

Seu Allan, um senhor que já foi magro um dia mas agora, pra lá dos 50, tem uma grande pança de cerveja, tinha um problema grave de oversharing me contou mais do que eu queria saber. Assim descobri que ele estava no segundo casamento, mas que a esposa dele, uma sessentona, era lésbica – e que ele descobriu isso depois que eles se casaram e um dia ela simplesmente trouxe outra senhora pra se divertir no quarto com ela, sem ele. Depois contou que um de seus netos tinha se cortado profundamente há muitos anos, ele estava bêbado e demorou pra levar o moleque pro hospital, o corte gangrenou e o menino morreu. “Por isso eu não bebo mais”, ele completou, “a não ser quando eu quero esquecer”.

Seu Allan tinha vários amigos e amigas pra além de seus anos mais promissores, todos passando o sábado no camping entre amigos. Fizeram questão de que eu me misturasse com eles. E assim, passei horas conversando com eles, enquanto eles bebiam sem parar, e descobri como são os legítimos white trash dos EUA. Sério, todos acima do peso, muitos com os dentes da frente faltando, todos falando muito alto, e todos cada vez mais bêbados.

Uma hora perguntei pra um deles onde ele tinha feito suas tatuagens. “Na prisão”, ele disse. “Um homem me atacou com um garfo, e pra defender a mim e à minha família eu torci o pescoço dele, CRAC. Era autodefesa, mesmo assim me prenderam por 17 anos”. Mais tarde, outra “jovem senhora” me contou que seu filho de 20 anos estava preso por tráfego de drogas, mas que ia sair em 2013 e estava muito arrependido. Conforme a noite foi escurecendo, o grupo ia ficando cada vez mais tralalá, os caras querendo dar um jeito das senhoras dormirem nos trailers deles, elas fazendo que não iam, mas claramente iam. Era uma situação meio triste.

Quando finalmente escureceu, Allan lembrou que ainda tinha vários fogos de artifício que sobraram do 4 de julho, saiu um pouco e voltou com um carrinho de mão cheio de fogos. Vamos lá! Ainda meio frustrado com a ausência de fireworks do meu quatro de julho, eu achei que seria bacana, mas logo descobri a verdade.

Garoto brincando na fogueira

Vai fazer xixi na cama…

Primeiro, um show de fogos de artifício depende do ritmo, de um estourar antes que o último suma, e tal. Quando um senhor bêbado resolve acender sozinho, a coisa fica bem mais chata, com um fogo muito mais espaçado que o outro. Depois, eu sempre ouvi que não se brinca com fogos, você acende e sai pra longe pra que ele não exploda em cima de você, pra você não perder um dedo e tal. Dois ou três dos meus colegas de camping ficavam lá acendendo e vendo os fogos subirem, me deixando aflito que mais cedo ou mais tarde um deles ia virar uma bola de fogo.

Já eram dez da noite e os fogos chatíssimos não paravam. Eu estava vendo com paciência, até que eles acenderam uma caixa de fogos, a caixa virou, e começou a explodir em todas as direções – um dos fogos veio pra cima da gente, quase acertou o neto do seu Allan. Os pirambabas bêbados nem se comoveram, continuaram acendendo mais fogos de artifício no escuro. Nesse momento eu já fiquei irritado e me deitei na minha barraca, vendo os fogos espaçados através da tela, apesar de ter medo que outro acidente acontecesse, um fogo viesse pra minha tenda e a bola de fogo da vez fosse eu.  Então uma das donas perguntou “tem muitos fogos pra explodir ainda?”. “Sei lá, parece que o Allan tem mais um carrinho de mão cheio lá com ele.” Caralho. Virei pro lado, decidi que os white trash não mereciam meu cansaço, e puxei o ronco.