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Depois de uma semana em Washington D.C., resolvendo os últimos detalhes com relação a equipamento (ainda tenho que contar a saga do celular, mas vai ficar pra um post futuro) e usufruindo da generosa hospitalidade de Gui Piereck, chegou a hora de ter um gosto de como será minha rotina pelos próximos meses.
Eu queria seguir a Transamerican Trail do começo ao fim, mas descobri, para meu espanto, que levar bicicletas no trem aqui nos EUA é praticamente impossível. Tipo, se você quiser desmontar a bike, colocá-la numa caixa e despachar num vagão de bagagem do trem, talvez até role (mas não em todas as linhas). Do contrário, no way, José. Que vergonha, quando se compara com a Inglaterra, em que você simplesmente entra com a bike e pronto.
Depois de várias noites de planejamento, cheguei à conclusão de que não valia a pena começar em Yorktown, o início tradicional. Então fui pesquisar no Google Maps, e, depois de conferir várias rotas, decidi que o melhor ponto de início seria a cidadezinha de Mayo, na costa do estado de Maryland. Fica a 50 km de Washington, daria pra ir e voltar no mesmo dia; resolveria meu problema de molhar as rodas no oceano Atlântico (na medida do possível; Mayo fica na baía de Chesapeake, mas tá valendo) e me economizaria uma grana.
Outra vantagem é que seria um ótimo test-drive: a distância não é absurda, pertinho da base em Washington, então qualquer coisa que desse errado, daria pra resolver nem que fosse na base do táxi. Organizei a bagagem (menos do que será normalmente, já que não estava levando barraca nem nada), juntei os suplementos alimentares que o pessoal da FoodCoach me recomendou, e fui dormir cedo. Tinha que madrugar no dia seguinte.
E madruguei mesmo. Queria acordar às cinco, mas estava tão ansioso que acordei três e meia e fiquei virando no sofá que me serve de cama mais que a freira que despenca escada abaixo. Às quatro da madruga, desisti: levantei, me fantasiei de ciclista, tomei café da manhã e, ainda no escuro, parti em direção ao oceano Atlântico.
Ainda estava escuro e friozinho quando eu desbravava a parte nordeste de Washington D.C., tão desprestigiada que nem aparece nos mapas turísticos. Eu tinha comigo um mapão das rotas ciclísticas de Washington e Maryland, estadinho tão pequeno que poderia ser confundido com Sergipe. Também fazendo sua estreia oficial estava a câmera GoPro Hero no meu capacete, sendo usada para fazer vídeos pela primeira vez.
Assim que se saía de Washington, o trajeto era uma estrada só até chegar na água. Ótimo para minha memória de peixinho de aquário no que se refere a instruções de trajeto. Com pouquíssimas exceções, a estrada era ótima, com um acostamento enorme, muitas árvores, subidas suaves e poucos carros.
Cheguei em Mayo (que ainda tenho que descobrir se tem esse nome por conta do mês de maio ou por conta da maionese) em quase três horas, o que não está nada mal. Consegui fazer um último videozinho da minha bicicleta molhando os pezinhos nas microondas da baía (a GoPro come uma bateria que eu nunca vi!), tirei algumas fotos com o iPhone, que a câmera já tinha morrido, e fiquei feliz. Agora a travessia de costa a costa tinha início.
Antes de voltar pra capital, parei meia hora para fazer um lanchinho numa lojinha local. Passei protetor solar, que o sol já estava esquentando, e me fui no sentido oposto ao que eu tinha vindo. É engraçado como o caminho de volta dá a impressão de ser menor que o de ida, talvez por já não ser mais uma incógnita, você tem noção de quando está chegando. O mundo objetivo, no entanto, é implacável, e eu voltei no mesmo tempo que eu fui.
As pastilhas de gel energético, barras energéticas e hidrólitos solúveis em água que a nutricionista recomendou fizeram seu papel, e eu me senti todo pirilampo quase até o fim. Só dentro das ruas numeradas e alfabetizadas de Washington DC que eu comecei a me sentir cansado, muito provavelmente pela perspectiva de em breve poder me deitar no sofazão confortável do Gui de novo e tirar uma soneca. À uma da tarde, banho tomado e almoçado, meu corpinho encontrou o sofazão mais uma vez.
Horas de sono depois, Federica, a noiva do Gui, me convidou pra ir andar de caiaque no rio Potomac com ela e uma amiga. Era um convite tão bacana que não dava pra dizer não, não importa quantos quilômetros se pedalou no dia. Inda mais que eu nunca tinha andado de caiaque na vida – já tinha feito remo na faculdade, mas o bicho lá é bem diferente.
Depois de assinarmos um termo garantindo que, se a gente morresse afogado, a culpa não era do pessoal que aluga o caiaque, vestimos o colete salva-vidas e avançamos pelo Rio, eu num caiaque sozinho, Federica e Nun, sua amiga, em outro. Andar de caiaque é mais fácil que eu pensava, mas exige bastante dos braços – o que é bom pra variar, no meu caso. Foi muito divertido: trombamos no rio algumas vezes, mas os botes, desenhados mais com a estabilidade em mente que a velocidade, felizmente não viraram. Depois de uns quinze minutos aportamos numa ilha no meio do rio, e ficamos jogando conversa fora e dando risada. Depois de muita conversa, mais um pouco de bote; mas a Nun tinha trazido um potão de cerejas, então paramos no meio da água e ficamos conversando mais ainda, comendo cerejas e jogando as sementes no rio, porque é natureza e natureza pode.
Queria escrever esse post à noite antes de dormir, mas daí realmente o corpo pediu arrego. Não conseguia mais fazer o esforço sequer de piscar, quanto mais de escrever algo que fizesse sentido. Agora estou a caminho de Nova York, e o busão tem wi-fi, olha que fino. Alguns dias em companhia de Louis (irmão do Gui) e Mari me aguardam. Daí continuo continente adentro, dessa vez pra valer.







