Em algum ponto do século passado (sou ignorante nessa questão), um casal de portugueses se conheceu, se gostou, se casou, veio para o Brasil e tiveram uma linda filha chamada Katia. Talvez até exatamente nessa ordem.
Em 2001 eu conheci a Kates na faculdade, ela fazendo jornalismo, eu Editoração. Pouco tempo depois, fazíamos uma revista eletrônica chamada Quadradinho. Kates uniu as raízes portuguesas e o amor por música alternativa primeiro escrevendo sobre rock português no site, e depois fazendo um TCC sobre esse assunto. E por via dela eu fui apresentado “aos” Silence 4, a banda portuguesa do momento, mas que, alas, já tinha acabado depois de dois discos.
Que se produzisse algo em Portugal além do Roberto Leal já me surpreendeu. Que eles cantassem em inglês me parecia estranhamente traidor de nossa flor do Lácio. Mas o som dela bateu no meu jovem coração, principalmente sua “Empty Happy Song”.
Em 2003 descobri que o líder dos Silence 4, David Fonseca, tinha lançado um disco ao vivo, Sing Me Something New. Recém-formado, começando a ganhar meu dinheiro, numa época em que baixar um disco online via conexão discada levava várias noites, descolei alguém que estava de visita em Portugal que me trouxesse o disco.
Em 2004 eu trabalhava na Recreio, e apresentei Cristiane Yamazato, que tinha voltado a trabalhar lá, ao opus de David Fonseca. Em 2007, eu já estava empregado na Men’s Health, e foi a vez de converter João Franco ao culto de David. Nesse meio-tempo, Cris já tinha plantado uma semente de Fonseca no coração da Gisleine Carvalho, sua amiga e diretora da Recreio.
Agora em 2011, já em seu quarto álbum, Between Waves, David Fonseca anuncia em seu site que está vindo para o Rock In Rio – que, ironicamente, depois de passar por Lisboa, voltava à Terra Brasilis. E mais: também faria shows extra no Rio e em São Paulo. Eu que achava que teria que voltar pra Lisboa pra vê-lo se apresentar ao vivo, quase caí da cadeira.
Johnny foi quem descobriu e me avisou. A partir daí, começou uma gincana para descobrir onde seria o tal show no fim das contas, já que não se mencionava lugar nenhum no site. Katchu foi quem garimpou o estabelecimento: seria no Studio SP. Avisei o resto do fã-clube que ajudei a cultivar e, prevenido como sempre, fui até lá poucos dias depois comprar ingressos antecipados para mim, Gi e Cris. Johnny tinha compromisso na noite do show e não pôde ir. Pra quem ia, começou a contagem regressiva para o espectáculo.
Tem noites que são preciosas, e a desse show foi uma que eu ganhei na minha vida. Cheguei uma hora antes do início e comecei a esperar as meninas. A falta de fila na entrada apontava que aquele seria um show… exclusivo. Primeiro chegaram Gi e Cris, daí encontramos Ísis, a irmã da Katia, na porta do Studio SP. Kates chegou pouco depois, e entramos. Lá dentro, não tinha nem tão pouca gente que o ambiente ficasse deprimente, nem tanta que deixasse o evento orkutizado. Dava pra ficar encostado no palco e ainda ter conforto. Inédito na minha vida.
(Vale a nota de que foi no aguardo do início do show que descobrimos, via celular, que Steve Jobs morreu. Momento de tristeza, mas Santo David estava lá para nos salvar.)
O show começou com pouco atraso, e logo de cara David Fonseca e banda mostraram que a presença ao vivo não deixava nada a dever à presença midiática. Muito pelo contrário. Com palco pequeno, poucos props e muita presença, eles acenderam aqueles fãs que conseguiram descobrir o show e não tiraram o pé do acelerador até a última música. Alternando as músicas mais pesadas e as mais fofinhas (mas sem tocar nenhuma das deprês), com sua performance anos 80 Billy Idol e vários “OH-OH”s, Little David Boy teve o público na palma da mão. E o público feliz por estar lá.
Depois do bis, ficamos nós cinco suspirando, recuperando o fôlego, e esperando a prometida sessão de autógrafos. David em carne e osso tinha sido tudo o que a gente tinha sonhado, mas será que pessoalmente – ou seja, no tratar os fãs – ele seria tudo isso também? Seria. Foi. Meu português mais querido do mundo recebeu todos os fãs sem pressa, com imensa simpatia e boa vontade. Deu autógrafos, conversou e puxou conversa, tirou fotos, sorriu e se deixou aproximar. Nós contamos como descobrimos o som dele, Kates disse que já tinha feito entrevista com ele para seu TCC quase 10 anos antes. Eu vesti o fanzoca, disse que acompanhava ele desde o Silence 4, e perguntei se ele ainda tocava músicas dessa época. Porque eu adoro “Empty Happy Song”, e estava até tentando tocá-la no violão. “Ah, orgulho-me muito dessa música, mas não a toco há mais de dez anos”, ele respondeu, todo bacana.
Bem, fica aqui o pedido pra que ele a toque quando voltar pro Brasil. E que volte logo.

oun! <3
[obs: minha mãe não é portuga – só filha de…; meus pais se conheceram aqui… =)]