Ano passado, no meu período recém-desempregado, fui conversar com o Alexandre, marido da Rachel minha amiga, que acabou virando amigo também. Ele é um cara empreendedor, inteligente, informado, lido, conhecedor. Depois de uma conversinha profissional e uma boa conversa de coaching, a gente entrou nas conversas eleitoreiras do momento e o assunto acabou caindo nos projetos de união civil, deputados que eram a favor ou contra, etc. E eu falei pra ele que era contra a união civil, e ele me olhou levemente espantado. “Ué”, ele desacreditou, “por quê?”.
“Porque no momento que você institucionaliza uma ‘união civil’ para os gays, você está deixando subentendido que existe dois escalões de união entre duas pessoas”, eu respondi, todo ensaiadinho. “A mensagem é que gays podem até morar juntos, mas que existe um nível mais elevado de união entre duas pessoas chamado ‘casamento’, reservado a homens e mulheres, e que os gays simplesmente não conseguem alcançá-lo. Eu discordo disso, então quero que se estabeleça o casamento entre quaisquer duas pessoas. Ou que se reduza todos os matrimônios a ‘união civil’.”
Alexandre colocou a xícara de café na mesa, olhou pra cima, refletindo, e respondeu “Uau, nunca tinha pensado nisso dessa maneira”.
E ele que é um cara empreendedor, inteligente, informado, lido, conhecedor.
Semana passada nosso Supremo Tribunal Federal reconheceu por unanimidade a união estável entre homossexuais. Fico feliz mesmo que algum dos três poderes desse nosso país esteja mais ligado na realidade social da nação que representa. A presidenta não ia fazer força a favor disso, sempre preocupada em se reeleger, e nosso Congresso, mesmo que tivesse alguma moral e significância hoje em dia, não ia conseguir passar a lei pra frente: os evangélicos todos iam empatar a votação, e os indiferentes não iam colocar o pescoço na linha. Mesmo a resposta medrosa de se “convocar um plebiscito” é um jeito educado de se dizer que não vai fazer nada. A história mostra que dificilmente a maioria vota para se dar algum direito à minoria: os brancos não votariam pela abolição da escravatura, o aborto jamais será legalizado já que 50% da população jamais vai correr o risco de passar por um, e os 95% da população hétera dificilmente se comoveria com a situação civil dos gays para lhes dar o direito de casar que eles têm garantido desde sempre.
O pessoal do movimento está feliz com o resultado, os gays já começaram a registrar suas uniões, mas esse gostinho de que estamos nos contentando com pouco continua comigo. Ter “status legal” igual ao das outras famílias não é a mesma coisa de ser totalmente igual. Basta perguntar se dois pombinhos apaixonados, noivo e noiva, ficariam satisfeitos em assinar uma união civil, quando podem se casar. Acho que a resposta óbvia seria um sonoro “não”. É uma diferença de título, mas uma diferença importante.
Esses títulos são importantes. Na rabeira disso tudo, fiquei passado de verdade ao ler no blog do Reinaldo Azevedo que ele de alguma maneira concluiu que o termo “união homoafetiva” é uma maneira de colocar essa conquista num patamar acima da união dos héteros. É uma inversão absurda. Eu acredito que ele não tenha nada contra, eu suponho que ele está interpretando o blablablá dos juízes e de outros comentaristas, mas, sinceramente: a intenção dessa nomenclatura é exatamente o contrário. Colocar “afetivo” no rótulo dessa união não é uma maneira de valorizá-lo, mas sim de disfarçar com um eufemismo o que eu já escrevi acima: essa união ainda está longe de receber o mesmo respeito, importância e valor sentimental do casamento.
Não, não quero entrar na igreja, até porque sei que o ritmo de mudanças religiosas levam séculos. A Igreja Católica, Universal, Quadrangular e seja qual mais for podem continuar achando relacionamentos homossexuais aberrações humanas que abalam as fundações da família. Caguei. Eu quero que a Constituição trate todos os casais igualmente. Sim, provavelmente agora a prioridade seria a criminalização da homofobia. Nesse sentido, acho que seria mais efetivo que a Globo parasse de ser cagona e mostrasse logo um beijo gay na novela das oito – e, se não fosse no último capítulo da novela, seria melhor ainda. Nem vai causar tanto espanto. Tirando o mundinho tacanho dos políticos de Brasília, ninguém mais se chocaria tanto assim com a cena.
Houve quem tuitasse que era contra o casamento gay porque os gays já sofreram demais até hoje, não há porque submetê-los a divórcios, pensões etc. Bem sacado, mas pra quem não pode, se submeter a esses suplícios seria um privilégio. Pagar pensão, declarar imposto de renda, adotar crianças. E, mais prosaico, se ajoelhar na frente da pessoa com quem se quer passar a vida junto e pedir a mão em casamento.

Muito rico e consistente seu ponto de vista da União Homoafetiva. Tudo sempre tem duas vertentes, assim como varios pontos de vista. O que não podemos, é deixar de acreditar, lutar, e claro lembrar que nada foi feito em um dia, meses ou anos. As maiores mudanças aconteceram aos poucos, mas a base de constantes lutas. O importate, ao meu ver, é que a cada conquista, nenhuma classe desfavorecida, deixe de lutar por aquilo que realmente nos é de direito, afinal, se seu amor ñ é igual ao da “maioria”, não cabe a esta mesma decidir se vc deve ou não ficar junto, concorda???
Esse Márcio é um romântico. Embora concorde contigo na relação dos “patamares”, e achar que não deveriam existir diferenças para casamentos entre qualquer tipo de casal, ainda assim a união civil resolve um monte de problemas práticos: plano de saúde, seguro de vida, benefícios corporativos e coisas assim.
Eu ficaria feliz da vida com algo que me garantisse os termos práticos sem a “firula” toda do casamento, mas, como falei, não sou um romântico! 😀
Mas, enquanto vivermos na ditadura da maioria, dificilmente isso vai mudar.