No século passado, quando eu era adolescente, junto com o primeiro disco de trilha sonora de novela vinha o hábito de ouvir rádio FM. E, que coisa mais arcaica, a gente ficava esperando as músicas que a gente gostava tocar na rádio para gravar numa fita K7. E depois ouvia com os colegas de colégio. Um dia, depois que uma das fitas já tinha ido do lado A pro lado B e de volta pro lado A, um dos visitantes disse “Nossa, mas você gosta de Roxette, hein?”. E eu, que era bem clueless, fiz cara de interrogação. Aparentemente metade da fita era de músicas do Roxette, que eu tinha pescado ouvindo as ondas do meu dial, e eu nem sabia que elas eram todas do mesmo grupo. Aliás, provavelmente eu pensava que a moça se chamava Roxette.
Com o tempo a minha cultura pop melhorou; copiei fitas do Tourism que o Hugo emprestou, e meu primeiro CD importado foi o Crash! Boom! Bang!. Depois disso, não acompanhei mais o que eles faziam de perto, conforme meu gosto musical foi ficando mais e mais alternativo, mas aquelas músicas que eu ouvi tanto na MTV, de “It Must Have Been Love” a “Almost Unreal”, sempre tiveram um lugar cativo no meu coração.
Dezesseis anos depois, eu descobri que o Roxette vinha fazer show em São Paulo; empolgado, fui tentar comprar os ingressos, mas eles já tinham esgotado. Aquele Marcio cheio de espinhas que tinha ficado tão feliz dentro de mim voltou a ficar murchinho. Mas pouco tempo depois, quando o Anselmo calhava de estar me visitando, descobrimos que tinham marcado um show extra deles. Corremos para o laptop, e sim, ainda havia ingressos. Anselmo ligou pra namorada dele, eu liguei pro Danilo, meu irmão, e resolvemos ir os quatro. Daí paramos, pensamos que a Ana Paula ia querer morrer de rubéola se os irmãos fossem pro show e ela ficasse em casa, e compramos um ingresso a mais pra nossa irmãzinha.
Ela, tão fã dos irmãos mas que nunca tinha visto o Roxette mais gordo, ficou empolgada mais por ir prum show com a gente do que pela banda em si. Mas, dedicada como sempre, pegou os MP3 dos dois discos de Greatest Hits do Roxette (de K7 pra MP3, como os tempos mudam…) e começou a estudar todas as músicas. Não demorou muito e já cantava o nananana de “Joyride” como se a música não fosse mais velha que ela.
Meses depois que os ingressos tinham sido entregues no meu apartamento, o dia do show chegou e eu pude parar de ter medo que eles se perdessem de alguma maneira e levasse tanto estudo pro ralo. Show extra de segunda-feira, não era o dia mais cômodo, mas tem suas vantagens: a famiglia toda acabou vindo pra Sampa ao meio-dia, e assim conseguimos ter um dos raros almoços de todos os irmãozinhos juntos. À noite, Danilo foi me buscar no trabalho, e fomos eu, ele e Ana Paula para o Credicard Hall, seguindo fielmente as instruções do GPS do carro: Danilo não conhece SP, e eu sou ciclista, incapaz de reconhecer a ponte correta em que entrar na Marginal.Muitos anos atrás, na segunda vez que a Alanis Morissette veio fazer show em São Paulo, eu fui na pista com o Danilo, e essa acabou sendo uma experiência traumática pra ele: ficamos bem na frente do palco, saímos encharcados com o suor alheio, e ele mal conseguia ver o show porque seus óculos embaçavam. O argumento de que ele fez cirurgia de miopia e não usa mais óculos não contou pra nada: ele resolveu que ia ficar no fundo da plateia, longe do muco-vuco, porque era pra isso que serviam os telões.
Quando chegamos na pista, o lugar já estava cheio, mas civilizado. O show começou, Anselmo não tinha chegado com Paloma ainda, e o aperto só aumentava. Na segunda música, Anselmo e Paloma chegaram, e tiveram que dar muita cotovelada pra conseguir abrir caminho até onde nós estávamos. Família reunida, fizemos o melhor pra ver o show da melhor maneira possível; Anselmo ganhou o trofeu Irmão Bacana do ano e colocou a Ana Paula nos ombros, porque com seu 1,5m de altura ela não conseguia nem ver o telão.E, nesse lindo mundo digital em que estamos, soltei um twit sobre o show e as pessoas começaram a responder. Meu primo Victor, lá de Araraquara, triste que não estava em Sampa pra ouvir as estrepulias de Per & Marie, pediu pra eu ir tuitando o set list, and I was happy to oblige. E assim nossa famiglia roxetteira ganhou um membro a mais, mesmo à distância.
Depois que todo mundo se acomodou dentro do Credicard Hall, nós pudemos realmente curtir as músicas. Eles começaram com as músicas mais animadas (“Sleeping In My Car”, “The Look”), depois tocaram algumas músicas do disco novo que, honestamente, o pessoal não fazia questão, pra daí seguir pra todos os clássicos. Não demorou muito e estávamos todos cantando “Spending My Time” a plenos pulmões. Comentei com o Danilo que a Marie não chegava mais nos agudos dos bons tempos, e ele: “Dá um desconto, depois do que ela sobreviveu, é impressionante que ela esteja aqui”. E foi assim que eu descobri que ela tinha tido um tumor no cérebro e ainda saiu dessa cantando.
Muitas canções e já quase sem voz, o show terminou depois do obrigatório bis com a camisa da Seleção. Marcamos de comer num café 24 horas, e teria sido um plano perfeito não fossem os 70 min que eu e Danilo passamos parados no estacionamento, engarrafados. Mas nem isso conseguiu acabar com a euforia que se sente depois de um show bacana que você, desde os 14 anos, achava que não ia jamais assistir.


