20110320g

Leituras interminadas

Fernando Morato costumava ter um quarto dedicado exclusivamente a livros. Não era bem uma biblioteca porque a grande maioria deles ficava empilhada em torres que só se mantinham em pé por conta da força da cultura contida neles. Andando pelo labirinto de páginas do quartinho, perguntei: “Fernando, você já leu tudo?”. “Não”, respondeu ele. “E você não fica com remorso de ter tanto livro sem ler?”. Ele me olhou por cima dos óculos e disse “Parte do prazer do bibliófilo é a presença do livro. Já me conformei que não vou conseguir ler tudo mesmo, então nem sofro mais com isso”.

E com isso eu parei de sofrer com remorsos bibliofágicos também. Um dos meus passatempos preferidos é visitar a Livraria Cultura, rodar, ver o que tem de novo… e volta e meia comprar alguma coisa. Algumas vezes eu leio a última aquisição imediatamente, mas na maioria das vezes ela se une à enorme coleção de livros a serem lidos nas minhas estantes. Eu estou sempre lendo alguma coisa, e, por mais que eu leia, não tem como vencer as dívidas literárias. Inda mais agora que eu tenho iPad e iPhone – estou desenvolvendo uma biblioteca secundária de livros de domínio público eletrônicos nos meus devices, todos esperando serem lidos.

Com essa culpa eu já tinha aprendido a lidar. Mas recentemente percebi um outro comportamento que consegue ser ainda mais incômodo. Acho que já está acontecendo há quase um ano, mas só me dei conta dele recentemente. Eu pego um livro pra ler. Leio, leio, leio. E não termino. Mas não é que eu começo o livro, e depois de 20 páginas descubro que ele é péssimo e desisto. Não é que eu paro ele no meio porque ele ficou insuportável. A questão toda é que eu vou lendo, e, a 20 páginas do fim, eu encosto o livro em algum lugar e lá ele fica.

O primeiro que me fez perceber isso foi Caim, do Saramago. Eu gostei tanto dele, foi ficando esquisito mas bacana… e agora lá está Caim parado em algum ponto do Antigo Testamento, e na estante do meu quarto, esperando chegar ao fim da história. Ainda.

Daí comecei a ver os últimos livros que havia lido. Traffic, tão legal, tão cheio de informações que me interessam: 30 páginas pra terminar. A biografia do Tim Maia: 40 páginas pro fim. Fiesta en la madriguera, escrito pelo JP Villa-Lobos, amigo meu – 15 míseras páginas e lá está tudo congelado, os hipopótamos mortos, o menino isolado do mundo com a amante nova do pai dele, e eu sem saber que fim ele deu pra situação toda.

No reveillon eu levei dois livros pra ler. How to Disappear e God Is Not One. De volta da praia, o ano começou sem que os livros terminassem. O segundo livro é sobre as oito principais religiões do mundo, todas lidas – falta só 10 páginas do apêndice sobre os ateístas, por que não terminar? Tá lá. Os dois livros sobre cachorrinhos, Cesar’s Way e Inside of a Dog… quase no fim. O suspense acho que vai ficar pra sempre.

Será que eu não quero me desfazer dos livros? Será que estou ficando preguiçoso? Será que fizeram um despacho numa biblioteca pra mim e um exu caveira esconde os livros quando estão prestes a chegar no fim? Eu deveria tirar uns dias e resolver esses incômodos, terminar livro por livro, mas não crio coragem. Eu não deveria começar livros novos antes de terminar os incompletos. Mas daí eu encontro um livro novo pedindo pra eu levar ele pra casa…

E nem vamos falar dos jornais e revistas que eu assino e fogo fora sem ler. Marcio, o desperdiçador de letrinhas.

5 Responses to “Leituras interminadas”

  1. Kika

    Oi Márcio!

    Que bom que você voltou a escrever no seu blog!!! Eu estava quase para excluir seu blog do meu Google Reader umas semanas atrás quando o Chão se acendeu novamente!!!

    Sabe que eu também tenho esse problema com os livros, de ter um monte que eu ainda não li…

    Minha culpa piorou muuuuito uns anos atrás, depois que eu descobri o site da Estante Virtual, o que fez com que os livros que eu queria ficassem muito mais baratos e o dinheiro quase deixasse de ser um fator limitante. Resultado: minha compulsão por comprar livros foi à estratosfera!

    Saber que outras pessoas também passam por isso é reconfortante! 😀

    Beijo!

    Kika.

  2. Litoubrou

    Se existe uma pessoa que não desperdiça letrinhas, essa pessoa é você. O leitor mais voraz que já conheci. Você não contou aí, mas chegou a ler a história de toooodos os papas! Sério, quem em são consciência faz uma coisa dessa? Só meu irmãzinho amado que lê tudo o que cai na mão.

    Amo você!

    Selminho

  3. Marcio Caparica

    Kika! Que bom te ver por aqui! Sim, estou no processo de ressurreição do Chão, fazendo de um tudo pra me disciplinar e voltar a escrever regularmente. Nem me fale da Estante Virtual, eu não entro lá por medo que a minha estante analógica desmorone sob o preço das aquisições que eu faria lá… :)

  4. Marcio Caparica

    Litoubrou! Fala sério, os papas devassos são muito mais emocionantes que você pensa! Ehehehe. Saudades, te vejo semana que vem!

  5. Kika

    Falando em papas devassos e livros: leiam Os Bórgias do Mario Puzo e vocês vão ver o que é um papa devasso profissional do ramo…