Louis Piereck é meu amigo desde quando tínhamos 15 anos. Dos melhores. Ao longo desse tempo todo, criamos barba, deixamos as espinhas pra trás e começamos a acumular algumas rugas. Agora, por conta das evoluções de vida e carreira, a gente só consegue se ver uma vez por ano – e, quando a gente se vê, inevitavelmente rola o checkup dos estragos dos últimos 12 meses.
Dessa vez, Lui olha pra mim e me diz: “você não vai tomar finasterida, não?”.
Assim, eu já tinha pensado a respeito. Pra falar a verdade, já fui pra dermatologista algumas vezes com a intenção de me informar a respeito de finasterida, ou Cabelina, como prefiro chamá-la. Mas nunca me empolguei o suficiente pra realmente comprar uma caixinha.
Histórias de sucesso não faltam. Léo Favre puxa com satisfação os cabelos acima da testa e garante que não estariam ali não fosse os anos de cabelina. Felipe também afirma que mantém milhares de fios de cabelo presos ao crânio graças a seu comprimidinho por dia. E Louis também, claro – que uma vez comprou uma caixa com a concentração errada e, digamos, deu sossego pra esposa por um tempo.
Mas a ideia de tomar qualquer remédio que seja por tempo indeterminado não me agrada. E tem parte da minha filosofia de que a gente tem que aceitar a idade que tem – conheço casos de caras com quase 50 anos e não aceitam que passaram dos 30, com efeitos colaterais bizarros. Também vai que eu sou justo dentro dos 1% que vão ter revertério por conta daquilo?
No entanto… eu faço parte da minha geração. Uma geração em que sua aparência faz parte do seu diagnóstico de sucesso; em que a circunferência da sua pança aumentar não é mais um resultado natural da idade, mas um sinal de desleixo. Em que os caras leem Men’s Health pra ter a sensação de que estão fazendo algo pra conseguir a barriga da capa – mesmo que dobrem essa capa quando leem a revista em público. Que já consideram OK comprar cremes anti-ruga – e que, como Louis me demonstrou, consideram que a única resposta para cabelo rareando no cocoruto é “Por que raios você não está tomando finasterida?”.
Então, sim. Admito. Eu cedi à pressão dos meus pares. Admito ser só mais um entre os jovens de classe média alta. Reconheço que não quero acabar com entradas cada vez maiores nas têmporas. Criei coragem, fui pra farmácia e comprei uma caixa de finasterida. Genérico.
Já faz mais de 20 dias. Até agora não aconteceu nada bizarro, nem acordei um dia com mais cabelo que o Primo It. Tudo parece estar funcionando direitinho. O comprimidinho entrou na rotina, com o porém de que volta e meia eu me esqueço se eu já tomei ou não, daí prefiro esperar o dia seguinte a tomar 2 no mesmo dia. Mas agora isso não deve acontecer mais; me inspirei nas mulheres sofridas e seus anticoncepcionais diários, e escrevi o número dos dias no verso da cartela, atrás de cada remedinho. Com a vantagem de que, se eu esquecer mesmo assim, não vou acabar com um filho por acidente.
São motivos fúteis, mas pelo menos não sou o único. Quem não quer chegar aos 40 com cara de 30 que atire o primeiro tubo de filtro solar. Já consegui a alegria de estar melhor aos 30 que aos 20, se eu conseguir manter o nível pelos próximos 15 anos já estarei bem satisfeito. Tá vendo? Apesar da falta de economias, imóveis e seguros, não se pode dizer que eu não me preocupo com o futuro.
Assim como nos próximos 10 anos vamos ver uma geração de mães tatuadas (que já começou), os pais serão todos cabeludos, equilibrando suas madeixas na base dos comprimidos. Com um viagra vez ou outra sempre que der vontade (pra que esperar até a impotência, não é?). Imagino o estigma que será você ser careca. O infeliz que for careca, gordo e fumante, então, vai ser um pária.
