Maninho Anselmo mora no Rio desde que voltou da sua turnê asiática, depois do fim da Copa do Mundo. Trabalhar como repórter para uma emissora de TV a cabo tem suas vantagens: enquanto resolviam o que fariam com ele, pagaram sua estadia num apart hotel por um bom período. Mas eventualmente ele foi efetivado como um funcionário igual a tantos outros, e assim teve que procurar um apê pra morar. Sendo Paloma, a namorada dele, uma eficientíssima produtora de TV, acostumada a resolver pepinos siderais, não foi muita surpresa quando ela encontrou pra ele um quarto-e-sala a preços aceitáveis, a dois quarteirões de seu trabalho. E foi assim que minha famiglia ganhou um QG no Rio de Janeiro.
Além de uma tolerância desgraçada para o álcool, existe outra característica hereditária que predomina na nossa família: a alegria em ser farofeiro. Conheço várias famílias que não se visitam porque não seria possível hospedar as pessoas “decentemente”, ou seja, com uma cama para cada pessoa, banheiros para cada dois quartos, etc etc. Nosso modus operandi é diferente: colocou algo razoavelmente fofinho no chão tá valendo, se põe três primos pra dormir juntos em dois colchões fica tudo mais divertido, e quem se importa com a quantidade de chuveiros já que estaremos todos ocupados demais correndo de um lado pro outro para tomar banho?
E foi nesse espírito que armamos uma visita coletiva para meu maninho em janeiro, aproveitando os feriados e as passagens aéreas em promoção. Eu, Ana Paula, Danilo, Mãinha, Pai e tio Émerson. Uma semana atracados no Rio de Janeiro, pegando praia, batendo perna, e, no meu caso, fazendo frilas. A visita rendeu mesas, cadeiras e ar-condicionado para o apê do Anselmo; infelizmente, escalaram ele para cobrir algum campeonato nos rincões do país, e acabamos por ocupar seu apartamento por uma semana sem encontrar o dono sequer por uma horinha.
Um dos programas mais programadíssimos dessa visita era ver a montagem em português do musical Hair. Minha mãe é fã do filme desde que ele foi feito; tenho memórias dela assistindo ele na TV quando eu tinha uns cinco anos. Desde sempre ela é incapaz de chegar no “Let The Sun Shine In” sem chorar, não importa quantas vezes já tenha chorado antes. Ver o clássico ao vivo, com a chancela de Möeller e Botelho, era uma oportunidade imperdível.
Eu, que já tinha lido a respeito dele, e visto uma adaptação que o povo da EAD fez alguns anos atrás, sabia que a história da peça era bem diferente da do filme. E sabia do famoso momento em que todo mundo tira a roupa no final do primeiro ato. Fiquei atarantando a Ana Paula: “viu, Fumps, durante a peça você vai vendo qual é o ator que você acha mais gatinho, pra daí prestar atenção nele na hora que todo mundo ficar pelado!”. Ela, sem graça, queria se esconder debaixo da poltrona.
Pelados ou não (e teve mais pelados do que eu esperava), ficamos todos impressionadíssimos com a qualidade da montagem e da tradução, com o talento dos atores, e de como o filme tinha estragado a obra original, como as músicas agora faziam sentido. E ainda por cima no fim a platéia é chamada pra subir no palco, e nós, bons farofeiros que somos, não esperamos o segundo convite para estarmos lá entre os atores pulando e pedindo pra que deixassem o sol entrar.
Pois bem, e heis que, de aniversário, a Gol fez outra promoção de passagens baratíssimas; resolvemos então repetir a farofa de janeiro, mas dessa vez com a presença do Anselmo. Um findezinho no Rio para comemorar o aniversário da Ana Paula, em março (já que o aniversário dela é sempre uma ocasião que deve ser comemorada em grande estilo). Cada um comprou as passagens saindo do aeroporto que lhe era mais conveniente, e Anselmo dessa vez conseguiu reservar uma folga para o fim-de-semana em que estaríamos aqui. E, claro, tínhamos que ver Hair de novo.
O fato de encarar os brucutus esportivos cotidianamente não fez com que Anselmo deixasse de ser um manteiga-derretida: Mãinha e eu anunciamos que ele estaria se desidratando em lágrimas no final da peça. “Magina, já vi o filme mil vezes, nem rola”, desprezou ele. Nos limitamos a responder com um sorrisinho cúmplice. Dessa vez, sentamo-nos em lugares melhores, todos juntos, eu, Pai, Ana Paula, Mãinha, Paloma e Anselmo.
Já menos… constrangido com os hippies sarados e depilados rodando pelo palco em estados variados de nudez, consegui apreciar melhor a peça pelo texto e, do meu assento central e sem cabeças na frente, aproveitar o palco como um todo. Começou a peça; fiel a suas convicções, Mãinha começou a se debulhar em lágrimas assim que Júpiter se alinhou com Marte. Pai fez teatro enquanto estava na faculdade, e compartilhou comigo suas observações stanislavskyanas durante o intervalo. Anselmo perdeu a aposta e estava lá acompanhando Mãinha na choradeira final pelos soldados forçados a matar e morrer no Vietnã. Ana Paula, com os hormônios cada vez mais saltitantes, não sabia se babava mais pelo Claude ou pelo Berger; por via das dúvidas, quando subimos no palco no final, deu um jeito de tirar foto com os dois.
Terminado o espetáculo, encontrei na saída um amigo que é ator. Ele disse que aquela era a penúltima apresentação do Hair. Nos sentimos tão sortudos, por pouco que a gente perdia de fazer a reprise do programa. Saímos contentes da vida, cantando my hair like jesus wore it, hallellujah! I adore it, eu considerando se era melhor a tradução da EAD (“Jesus foi cabeludo, aleluia, eu tô com tudo!”) ou a que tínhamos acabado de assistir (“Igual a Jesus Cristo, aleluia, eu insisto!”). Que dúvida. De certo, só que, se a peça vier pra Sampa, lá estaremos de novo, fazendo o sinal de paz e amor.


Adorei o texto! Seria ótimo ser Hair viesse para SP! Iria com certeza!
De fato foi D+++ ver Hair e que eu tirei foto com o Claude e com o Berger e descobri que eu gosto muuuuuito mais do claude.