Quando eu programei as datas da minha viagem para o outro lado do mundo, eu nem sabia que a Expo 2010 seria em Xangai, muito menos que ela ia começar pouco antes da minha chegada na China. Aliás, mal registrava que ainda se fazia essas feiras mundiais – e a única que eu tinha registrado na mente era aquela primeira, em 1815, feita em Londres pelo Príncipe Albert (designers aprendem sobre essa feira, inevitavelmente).
Mas dei sorte que a Expo começou algumas semanas antes da minha chegada, e assim passar lá um dia tornou-se programa obrigatório assim que coloquei os pés em Xangai. Logo na chegada, enquanto o taxista começava a me aterrorizar costurando em alta velocidade no caminho do aeroporto para o apartamento do Louis, já deu para perceber que a cidade estava respirando Expo. E que a escala do negócio era assustadora. Quando atravessamos a ponte de Lumpu, uma das maiores da cidade, a Mari me apontou “olha a Expo!”. Olhei pela janela e vi ao longe o duvidoso pavilhão da China, enorme. “Ah, é lá naquela parte?”, disse eu, inocentemente. “Não. É tudo dos dois lados da ponte”, ela me corrigiu.
Nos dias seguintes, ficou claro que nem que eu quisesse dava pra escapar da Expo. Onde houver um jardim público, há um canteiro com a palavra “EXPO” escrito em flores. A figura do Haibao, o mascote do evento, está por todos os lados – tanto em imagens da prefeitura como por desenhos dos próprios xangaienses. Em todos os lugares de fluxo de gente (principalmente de turistas), pequenos estandes da Expo com dois ou três voluntários, prontos para orientar quem estivesse perdido.
A organização da Expo também não mediu esforços para garantir o sucesso do evento. Quatro dias depois da minha chegada, bateram na porta do apartamento três pessoas de terninho. Perguntaram quem morava lá, e informaram que tinham ingressos grátis da Expo para todos os moradores. Além disso, um cartão de transporte para cada um, com crédito de sobra para ir e voltar. O pessoal tem que garantir a presença das multidões.
E assim, com os ingressos da prefeitura, fomos numa segunda-feira visitar a Expo. Como os chineses não brincam em serviço, construíram uma linha de metrô de 3 estações para levar as pessoas para a Expo. No acesso a essa linha, estruturas prontas para receber filas gigantescas (que não duvido que são necessárias vez ou outra), mas vazias, felizmente. Todo mundo antes de pegar o trem é revistado e passa pelos detectores de metal.
A área da Expo parece grande de fora, mas só quando se está lá dentro que se tem noção de seu tamanho. Para se ter noção, ela ocupa uma área de pouco mais de 5 km quadrados. O Parque do Ibirapuera tem pouco menos de 2.
A melhor analogia que eu encontrei para a Expo é que ela é o Playcenter das nações. É exatamente o mesmo esquema: você vai de bloco em bloco andando pelas ruas asfaltadas, só que ao invés de brinquedos, tem os pavilhões. Todos enormes e em shapes extravagantes; imagino que a Expo deve ter feito a alegria de muito arquiteto entediado.
Outro ponto em comum com o Playcenter é o tamanho das filas. Aliás, me corrijo: as filas do Playcenter são fichinha perto das filas da Expo. Passam por lá centenas de milhares de visitantes todos os dias, a imensa maioria de chineses, claro, dispostos a tudo para fazer sua viagem ao redor do mundo sem sair de seu país. Então dá-lhe fila. Os pavilhões dos países mais conceituados tinham filas de até 3 horas para conseguir entrar. Três horas debaixo do sol. São poucas as coisas pelas quais os chineses arriscariam brancura de sua cútis.
Mas talvez a persistência dos chineses tenha um outro grande culpado: o passaporte da Expo. Algum gênio do marketing teve a ideia de vender passaportes oficiais da Expo, que os visitantes podem carimbar em cada pavilhão visitado. Como alguém que já fez o Caminho de Santiago, eu sei o que as pessoas podem fazer para mostrar que têm mais carimbos que os outros. Na Expo isso era elevado a N. Os chineses querem guardar para o resto da vida seu passaporte megacarimbado, e fazem de tudo para completar a coleção. Não era raro ver aglomerações maiores em torno dos balcões de carimbo que em volta do que o pavilhão realmente queria mostrar. “NO STAMPS HERE” foi o cartazinho colocado em todos os balcões que calhavam de ter outros propósitos (menos nobres, ao ver dos chineses) dentro de um pavilhão.
Sem a menor disposição de gastar nossa preciosa vida em fila, nossa primeira decisão foi que a espera para entrar seria o fator determinante na escolha dos pavilhões. E assim nós começamos a ver os que os países desprestigiados acham que têm de melhor para mostrar. Descobrimos que Portugal é o segundo maior produtor de cortiça do mundo, e que a Estônia é o país com mais crateras de meteorito por quilômetro quadrado do globo. O pavilhão de Cuba era basicamente um bar em que serviam mojitos grátis, excelente ideia, na nossa opinião. O da Coreia do Norte era todo um espetáculo kitsch com sérias restrições orçamentárias tentando convencer que o país é o “paraíso para as pessoas” (sério). O pavilhão coletivo árabe na verdade não passava de uma série de lojinhas de produtos típicos.
(Os portugueses em certo ponto de seu pavilhão também afirmavam orgulhosamente que “80% dos portugueses já marcaram um gol”. Soa bem estranho para os brasileiros, já em que nosso país 100% das pessoas já marcou um gol em algum ponto da vida, mas deve fazer sentido na lógica lusitana.)
Quando anoiteceu, as filas se dissolveram e então começamos a visitar os pavilhões mais populares. Entramos no da Dinamarca, em que se podia andar de bicicleta dentro, e no da Inglaterra, a Catedral de Sementes, uma estrutura linda que te deixa pensando sobre vida e futuro por muito tempo depois de sair dela. Queríamos entrar no da Suíça, que tem um teleférico dentro, mas não deu tempo – nove e meia da noite a maioria dos pavilhões fecha, apesar da Expo ficar aberta até meia-noite.
No fim da semana, voltamos para o dia do Brasil na Expo, e vimos os shows da Martinália e de Carlinhos Brown no teatro principal da Expo. O primeiro show já animou os chineses, mas Brown, com toda sua experiência com as multidões brasileiras, levou o teatro abaixo. Os seguranças chineses não sabiam o que fazer com aquele monte de gente aglomerada na frente do palco, e um showman que descia para ficar entre a platéia, organizava um trenzinho em torno da plateia, e pedia para que todos levantassem e interagissem o tempo todo. Já a plateia amou de paixão, e tentavam imitar os movimentos da brasileirada presente o melhor que podiam – acabavam parecendo uns lango-langos, mas o que vale é a intenção. Ao som de Brown, me despedi da Ásia, com um peso no coração que não esperava sentir quando embarquei 30 dias antes.
