20100528

Xangai vs. Seul: estilo

Já aviso de saída que esta é uma luta injusta e covarde. Querer comparar Xangai e Seul em termos do bem-vestir de seus habitantes é como querer fazer com que Rio e São Paulo compitam com base no bronzeado de sua gente. Não há duvida sobre quem vai ganhar – e mesmo que os paulistas argumentem que de nada serve em termos práticos ostentar uma pele dourada sobre músculos torneados, não há como esconder a inveja que sentem debaixo de seus ternos, coçando a pança.

Seul é uma das cidades mais fashion e modernas que eu já vi. De todas as minhas andanças pelo mundo, lá foi o único lugar em que, ao andar de metrô, eu comparava meus trapinhos com o que o populacho em geral estava usando e me sentia mal vestido. Os coreanos têm um fashion-sense mais afiado que as agulhas que costuram suas roupas; as bancas oferecem inúmeras revistas gigantes com as últimas tendências da moda, e fica claro que todo alguém que quer ser alguém faz a lição de casa, lendo as revistas com a avidez com que no Brasil se lê os resumos da novela.

Além disso, o povo lá não tem pudor de ser moderno. Seja nos cabelos com cores improváveis e cortes de mangá, seja vestindo cotidianamente aquelas peças que o estilista nunca imaginou que sobreviveriam à passarela, os coreanos sustentam suas escolhas de aparência com uma segurança invejável, principalmente os jovens. Agora com a moda do nerd chic, não é muito difícil cruzar com garotos e garotas usando óculos de armação grossa – mas sem lentes, já que não têm problemas de visão e estão portando os óculos como um mero acessório pendurado na cara. Um cara que vestir uma calça-samurai em Sampa dificilmente vai sobreviver ao escracho dos colegas. Em Seul, vão perguntar onde ele comprou.

Os coreanos são provavelmente os orientais mais bonitos e bem-acabados da Ásia, e sua capacidade de combinar 6 camadas de roupa impecavelmente me enche de admiração. No meu último dia em Seul, vi no metrô um cara que desfilava de um vagão para outro de mão dada com sua namorada, vestido dos pés à cabeça com um terno de xadrez escocês azul e preto slim fit, e um brinco pendurado na orelha esquerda que deixaria Boy George com inveja. Eu observava o cara e não pensei que ele parecia uma cortina ambulante, mas sim que tinha vontade de ser jovem e coreano pra poder sair com esses modelitos com tanto gusto. Eis o poder do fashion sense de Seul.

A China, em comparação… coitados. A Revolução Cultural fez inúmeras vítimas, e o senso de estilo da nação certamente foi uma das primeiras. Depois de décadas em que as pessoas, tanto homens como mulheres, tinham que usar o mesmo uniformezinho cinza todos os dias, a população ainda não sabe o que fazer direito com tanta opção. As lojas de marca e o fake market oferecem todo o necessário para se vestir bem em qualquer parte do mundo, mas o povo ainda está inseguro sobre como ornar tudo e prefere não arriscar muito. Constrastando com a exuberância sul-coreana, a juventude aqui se veste num estilo correto-bleh que não impressiona at all. E sem um contraponto forte da moçada, os faux-pas dos coroas é que chamam a atenção.

Uma das visões mais típicas nas calçadas de Xangai é a de um tiozinho andando pelo bairro vestido de pijama. Não é um esquema “calça e blusa de moletom que parece pijama”; é pijama mesmo, listradinho, levinho, com fileira de botões no meio do tronco. Em geral o tiozinho também está de meia e chinelo. Meus assessores expats brasileiros me apresentaram duas justificativas quase complementares para esse fenômeno. Primeiro, o pijama como consequência do já citado uniforme cinza do Mao. Depois de tanto tempo em que cada chinês só tinha uma muda de roupa, sair de pijama na rua é uma forma de mostrar que você está bem de vida, já que obviamente tem duas mudas de roupa, o dobro de todo mundo. De alguma maneira isso ainda continua a funcionar no inconsciente coletivo, apesar de que hoje em dia todos devem ter pelo menos três mudas de roupa, espero. Além disso, desfilar de pijama nos bairros mais chiques significa que você claramente mora por lá, já que saiu de pijama para “ir até a esquina” e já vai voltar pra casa.

Outra coisa bem comum de se ver nos tiozinhos chineses são os combovers: na tentativa de esconder ou compensar a careca, o infeliz deixa crescer bastante as mechas que lhe restam de um lado da cabeça e penteia essas melenas por cima do cocoruto, na esperança de disfarçar sua falta de cabelo. Uma solução horrorosa que apenas os mais iludidos são capazes de experimentar. Tudo preso por cima do crânio com montes de gel, fica parecendo que passaram contact por cima da cabeleira. O mais engraçado é quando uma mecha se solta do resto, e lá vai o chinês com meio metro de cabelo flutuando por cima da orelha…

One Response to “Xangai vs. Seul: estilo”

  1. Lili

    “Inês da minha alma” é um dos meus livros preferidos!!

    Fiquei impressionada com suas mudanças no livro, ficaram ótimas! Aquela linha é ELEGÂNCIA.

    Acompanhando super seus posts coreanos! Adoro como vc é designer o tempo todo, até escrevendo. Típico de pessoas que amam o que fazem. “Os coreanos são os mais bem-acabados…” Mto bom!

    Bjim