20100505

Um dia em 13 horas

No fim do ano passado meu querido irmão mais novo, Anselmo Caparica, foi escolhido para fazer parte do programa Passaporte SporTV. Levaram ele para o Rio, treinaram ele por um mês e tanto, e daí despacharam o rapaz sozinho e abandonado para Seul, câmera numa mão e laptop na outra, para caçar notícias até o fim da Copa.

Há quase dois anos a Unilever também despachou o Louis, um dos meus melhores amigos (e um dos mais antigos), para Xangai. Munido com todas suas artimanhas para vender sabão em pó para as massas, Lui embarcou para a China com a esposa corajosa ao lado, para quem sabe voltarem dali a dois anos.

E eu, num alinhamento astral inédito na minha vida profissional na Abril, esse ano não deixei as datas-limite passar, não caí em conversa engabeladora nenhuma, e pela primeira vez na minha vida de empregado registrado consegui sair de férias nas mesmas datas em que registraram minhas férias para a lei trabalhista. Pretendia fazer o Caminho de Santiago pela segunda vez, mas depois de pensar bem, analisar todos os sinais e consultar todos os envolvidos, resolvi aproveitar essa oportunidade únida de ir para o Oriente sem pagar um dia de hotel que seja, preparei a conta para mais um semestre sofrido, e comprei passagens para Seul e Xangai.

Minha rota é São Paulo – Dubai – Seul, partindo do aeroporto de Guarulhos à uma e meia da madrugada. O avião da Emirates é de primeira, com uma imensidão de filmes para se ver, aeromoças com lencinhos de odalisca debaixo do queixo e amenidades que incluem uma pequena necessaire com escova e pasta de dente, e toalhinhas quentes úmidas para se lavar as mãos antes de comer.

Nunca tinha voado tão em sentido oposto aos fusos horários, e devo dizer que é uma experiência meio desconcertante. Estava ainda razoavelmente ok, assistindo a A Princesa e o Sapo, quando passa a aeromoça mandando fechar a cobertura de plástico da janelinha. Olho para fora, e o sol está começando a se erguer, poucas horas depois da decolagem. Obviamente: estamos voando em direção ao amanhecer.

Fechei a janelinha como ordenado, e tentei puxar o ronco. Sem muito sucesso, mas o suficiente para não apodrecer de vez. Algumas horas depois, dou uma levantadinha no blecaute, e a luz que passa pela fresta é praticamente um holofote na cabine escura onde os passageiros tentavam dormir. Mas também não durou muito: mais algumas horas lendo e jogando videogame no computador, tento outro sneak peek… e já está de noite. Breu total. O avião continua voando firme e forte, enquanto pela primeira vez vejo relâmpagos de um ângulo superior, iluminando as nuvens na escuridão. Pousamos às dez e meia da noite no horário local.

De pouco depois da meia-noite a pouco antes da meia-noite, em 13 horas. Viva um dia, leve dois.

Nesse momento estou assentado no aeroporto de Dubai, esperando minha conexão da Emirates para Seul. São duas da manhã no horário local, sete da noite no Brasil. O cansaço trava o pensamento e as olheiras quase impedem que se enxergue o monitor. Acho que tenho mais umas nove horas de voo até Seul. À minha volta, o lado oriental da humanidade luta contra o sono aguardando o mesmo voo.

É toda uma experiência conferir ao vivo que as pessoas realmente são e se vestem como na televisão. De um lado a outro, homens barbudos com aquelas roupas brancas e compridas dos pés à cabeça passam casualmente, enquanto as mulheres caminham próximas, debaixo de suas burcas.

Parece que estão chamando o voo. Mais notícias em breve!

Estavam chamando pra passar o portão de embarque, mas o voo está atrasado. Agora estamos todos os passageiros numa segunda área de espera. Ao contrário do cafona do aeroporto de Guarulhos, que cobra pela internet wireless, aqui em Dubai ela está aberta para todos. Tem um totem patrocinado pela LG em que as pessoas podem ligar seus laptops às tomadas, e nesse momento oito pessoas (inclusive eu) estão com as fontes dos computadores esticadas através da passagem, fazendo que as pessoas saltem entre os fios e corram o risco de quebrar os dentes.

Já puxei conversa com um coreano que se sentou ao meu lado, de chapéu coco de palhinha e cabelo acaju. Com um inglês recalcitrante ele me contou que se chama Muni, fez inglês em Londres, tem uma namorada lá que está fazendo MA em Comunicação na Central St. Martins, mas que ele não é artista e estuda administração. Enquanto eu escrevo aqui, ele lê um mangá do DragonBall no computador.

Estava pensando em jogar Starcraft enquanto espero, mas tenho vergonha de fazer isso ao lado de coreanos que vão com certeza me achar o mais prego dos pregos.

One Response to “Um dia em 13 horas”

  1. felipe

    chegando em seul, aguente até a noite coreana pra dormir! e passe condolências ao anselmo pelo corinthians…