Quando saí do Brasil para meu tour pela Ásia, levava uma mala bem cheia e outra pela metade, com encomendas e apetrechos de viagem. Achava que tinha espaço de sobra nelas para a viagem toda, já que as encomendas ficariam pelo caminho. Pois ao refazer as malas no dia de zarpar para Xangai, qual não é minha surpresa ao descobrir que as duas já não davam conta da minha bagagem. Algo me diz que comprei coisas demais nos megashoppings de Seul… Foram duas horas de Tetris, compressão, fé no zíper e alguns replanejamentos, mas consegui deixar a bagagem pronta para embarcar. Mas tive que deixar alguns livros para trás, que eu torço para que meu irmãozinho mande pelo correio.
A viagem para Xangai foi tranquila, saiu no horário correto e não teve maiores percalços. De notável, apenas que a companhia tinha a pior comida de avião que eu já tive que engolir na minha vida – um tijolo de arroz ao lado de um macarrão esquisito com poeira de carne era a versão deles para “beef”. O entertainment deles me deu um flashback das viagens de fretado na faculdade: telinhas no teto a cada quatro fileiras de assentos, passando um filme legendado (em chinês), a trilha sonora do filme tocando baixinho na cabine inteira para os interessados. Felizmente o voo não passava de uma hora e meia.
Imigração, esteira de bagagem. Antes de se libertar do limbo da chegada num país, a China já mostrava seus dentes de Mao: todo mundo tinha que passar todas as bagagens por um aparelho de raios-x antes de sair pelo portão de desembarque. Seguro de que não tinha armas nem bombas na minha bagagem, não passei por incômodo algum, mas preferia o sistema da Coreia do Sul, em que um seu guarda passa entre as malas com um cãozinho farejador tão simpático que dá vontade de fazer cafuné nele.
Quem me hospedaria em Xangai é Louis, meu amigo de longuíssima data que foi pra lá trabalhar já faz quase dois anos. Mas como ele estava num treinamento da empresa de dois dias, quem foi me buscar no aeroporto foi a esposa dele, a Mari. Alta, bonita, esperta e descolada, ela me recebeu com os braços abertos, e imediatamente começou a facilitar os atritos com a cultura chinesa. Nesses dois anos ela garrou para aprender chinês com os nativos, e, apesar de jurar que não passou do intermediário ainda, ela trata de tudo em mandarim com uma facilidade desconcertante. O segredo, disse ela, foi pagar a empregada chinesa uma hora a mais por dia, para ficarem papeando em mandarim.
O primeiro conselho que Mari me deu assim que colocamos as malas na bagagem do táxi foi “olhe para a paisagem, não olhe para o trânsito”. Sábio conselho, que recomendo que todos que venham para a China sigam à risca. Basta considerar que, pouco mais de cinco anos atrás, 70% das pessoas que dirigem hoje não dirigiam. O tráfego pelas ruas de Xangai é uma luta constante para ver quem tem o pau maior (tadinhos), e nisso não se considera fatores como o tamanho relativo dos veículos ou a velocidade em que se encontram. O taxista vai acelerar para tentar entrar na faixa ao lado apesar do carro ao lado estar parelho, frear bruscamente para não bater no carro da frente, e daí voltar bruscamente para a faixa anterior porque a nova faixa não vai no ritmo que ele gostaria. Em busca do espaço vago à frente, não importa se um ônibus já está entrando na faixa, o taxista vai acelerar para se jogar no spot em que o ônibus quer entrar, na esperança em que o busão vai ceder e frear. Quando isso (obviamente) não acontece, a freada é nossa, parando a dois centímetros da jardineira. Não demorou muito para eu compreender por que a Mari ficava tão feliz quando entra num táxi que tem cinto de segurança no banco de trás.
Nessa primeira noite em Xangai, Mari começou a me mostrar as maravilhas da vida laowai me levando para comer na Taikang Lu, um hutong (conjunto habitacional da época da Revolução) convertido em bulevares cheios de butiques e restaurantezinhos bacanas. Um os restaurantes exibia na entrada seu maior motivo de orgulho: num banner de mais de dois metros, uma foto do Jude Law comendo lá.
No dia seguinte, fui apresentado a uma das maiores maravilhas da cidade: os spas de massagem. Depois de acordar e virar gente, embarcamos num táxi (baratíssimos) e Mari mandou o intrépido taxista nos levar para Dagu Lu, onde há a maior concentração de salões de massagem e de lojas de DVD pirata. Na China, as massagens são oferecidas por preços tão acessíveis, por massagistas tão entendidos, que não tem como fazer da massagem parte da sua rotina. Fomos num primeiro spa que Mari e Louis frequentam, onde conseguiríamos uma hora de massagem nos pés pelo equivalente a R$ 30, mas teríamos que esperar uma hora. Então fomos para outro meio quarteirão para cima, onde podiam nos atender imediatamente, com uma hora e meia de massagem nos pés por R$ 35.
Eu não conseguia imaginar o que possivelmente poderiam fazer com meus pés por uma hora e meia, mas mal podia esperar para ver. Colocaram nós dois numa sala à meia-luz, sentados em poltronas reclináveis de couro, e daí veio uma chinezinha miúda para mim e um chinês rechonchudo para a Mari. Apresentaram-se, informaram o número de cada um caso a gente queira que eles nos atendam novamente no futuro, e perguntaram se a gente queria assistir a algum filme (dissemos que não – nada vai disputar nossa atenção com a massagem!). Então trouxeram uma tina de água quente com ervas para cada um e deixaram nossos pezinhos cozinhando lá um pouco. Enquanto os pés amoleciam no chá da tina, nos pediram para sentarmos num pufe de costas pra eles e começaram a fazer massagem nos ombros. Eu aproveitei o ensejo para dizer (via Mari) que estava com dor na lombar, se minha chinezita não podia fazer algo para ajudar.
Foi então que eu descobri que dentro daquela estrutura de passarinho tinha uma britadeira. A mulherzinha tinha a força de um dentista arrancando dente do siso, mas no corpo inteiro. Cotovelo, nós dos dedos, antebraço, todos eram armas para subjugarem os nós musculares, sem chance de armistício. Quando eu achava que meus ombros estavam virando patê, a forçuda me pegou pelos dois braços, colocou o joelho à direita da minha coluna e puxou meu tronco para trás, enquanto pressionava cada vértebra com o joelho, de alto a baixo. O susto foi enorme. Estava me recompondo, pensando em que modelo de cadeira de rodas eu ia usar quando saísse dali, e ela repetiu a operação à esquerda da coluna vertebral.
Devo dizer no entanto que o efeito dessas artes marciais sobre seu corpo é fantástico – você acaba realmente todo soltinho. Ao fim disso tudo, era a hora de cuidar dos pés. E lá foi a chinesa forçuda apertar todos os pontos do meu pé com seus dedinhos de talhadeira. Tenho certeza que ela tem uma intimidade maior com meus pés do que eu mesmo, que convivo com eles há quase 31 anos. Como estudei por oito anos num colégio de freiras, tive vários momentos de remorso por ter aquela moça lá se atracando com meus pés – se nem Jesus achava que merecia uma dessas na última ceia, quem era eu pra vir aqui na China explorar a mão de obra barata pelo prazer egoísta de ativar todos os meridianos do meu corpo? Mas daí vinha uma onda de relaxamento e todo remorso católico se dissolvia. E lá seguia a chinesa martelando os recônditos dos meus pés com suas falanges de aço.
Quando já estava com os dois pés amaciados e hidratados, ela passou a subir para as panturrilhas, joelho e coxas. Estou eu lá entrando e saindo da minha névoa de Nirvana quando a chinesa faz um comentário ling li ling para a Mari, que começa a ling li lingzar de volta com ela até que, depois de bastante diálogo, Mari começa a rolar de rir.
– Que foi?, pergunto eu.
– HUAAHUAHAUAHA! Ela virou e disse que você era muito yundong. E eu já tinha visto essa palavra mas não lembrava o que queria dizer. Ela toda yundong, yundong, até que eu tive um estalo e perguntei “Yundong como quem faz natação, futebol, etc.?”, e ela “Isso, isso!”. Yundong quer dizer atlético. Ela está encantada que você é muito musculoso.
Como não estou nem perto dos músculos que gostaria de ter, chego à conclusão que é tudo uma questão de referência mesmo.

Não se esqueça então de voltar a essa chinesinha mais umas duas vezes para sair da china livre leve e solto, afinal vai ter muuuuuuuitas horas de voo depois.