20100519

Explorando Seul: comércio

Chega o fim de ano, no Brasil, e os shoppings deram pra ficarem abertos até meia-noite para dar conta das compras de final de ano. A gente se assusta, e tem até um pouco de dó dos funcionários que vão ficar trabalhando até altas horas (e certamente não devem receber toda a hora-extra a que teriam direito), mas achamos ótimo que o comércio fique aberto até tão tarde. Tão conveniente!

Agora, imagine o pasmado de passar na frente de um shopping em Seul e se deparar com a plaquinha: “Horário de funcionamento: 10:15h – 05:00h”. Sim. Das dez da matina às cinco da madrugada. Nonstop.

Características como essa fariam minha mãe passar dias insone em Seul, fazendo compras. Quando eu tinha 12 anos e ela arrastou a família inteira para Serra Negra porque lá tinha malhas de frio baratíssimas – BARATÍSSIMAS! – eu me encostava pelas quinas para aliviar as pernas doloridas de tanto andar, tentava ler um gibi mas sempre era interrompido para experimentar uma blusa, e caminhava por quarteirões sem fim, para só mais uma loja, e mais uma, e mais uma, e mais uma… mas tinha o consolo de que seis e qualquer coisa da tarde aquele suplício ia acabar, e a gente ia voltar para casa, e, no escuro, eu ia tentar ler o meu gibi que AINDA não tinha conseguido terminar. Estivesse em Seul, essa judieira ia durar até o sol raiar; pelo menos então eu conseguiria ler o gibi na volta.

Não tendo assim essa grana toda, quando resolvi aproveitar a viagem para renovar o guarda-roupa, eu e Anselmo visitamos os shoppings noctívagos genéricos. Há os que têm todas as melhores e mais finíssimas marcas de todo o mundo, mas eu ainda consigo viver sem uma bolsa Louis Vuitton. E, sendo o coreano um dos povos mais fashion e descolados do mundo, mesmo no genérico havia mais coisa bacana e diferente que nos melhores points descolados de Sampa.

Mesmo com dinheiro e disposição para comprar, resolvemos exercitar o tradicional esporte da pechincha. Apesar de não ser algo tão agressivo como dizem ser na China, os coreanos em geral não se ofendem se você pede para dar um desconto. Inclusive, meio que esperam isso. Comprei uma blusa, pedi desconto, ganhei uma camiseta branca básica de brinde. Fui comprar uma calça, o Anselmo pediu desconto por mim, me deram uma regata cinza de graça. Escolhi uma pólo, perguntei o preço, achei OK, disse que ia levar… a mocinha pegou o dinheiro, colocou a pólo na sacola, e tacou junto um par de meias infantis de menina. Achou injusto eu pagar o preço da etiqueta.

Outra coisa marcante do comércio em Seul é que quando eles pegam pra focar num tipo de produto, foca mesmo. Passamos numa galeria mais popular, pra tentar encontrar coisas mais em conta ainda. Trombamos com um estande que vendia cintos – literalmente milhares de cintos num espaço de 3 x 4 metros, empilhados por cima uns dos outros, formando paredes de cintos. O mesmo no estande que vendia chapéus um pouco mais pra trás. Fora dos shoppings e galerias, o fenômeno se repete. Nos arredores do apê do Anselmo, há a rua das motos. Quarteirões e quarteirões de motos à venda. No outro lado, a rua das cadeiras. Preste atenção, não é de móveis, não é de cozinhas, é de cadeiras, e daí tem todas as cadeiras que você conseguir imaginar, com todas as cores e todos os números de pés possíveis, quarteirões a fio. A rua do lado do hotel é especializada em gráficas: todos os dias, indo ou voltando do metrô, eu passava por gráficas imprimindo flyers e cartazes e caixas furiosamente, e tinha que desviar das colunas de papel em branco que deixam na calçada, e fugir dos carrinhos de carga que levam essas colunas para dentro dos estabelecimentos.

Talvez o maior exemplo de compra à coreana que tenho para compartilhar foi quando eu e Anselmo resolvemos comprar um videogame. Depois de bater muita perna no shopping, trombamos com uma loja da Nintendo, olhamos tudo com os olhos de quem queria poder jogar SuperMario na sala de casa desde os 10 anos e nunca conseguiu, fizemos a conta e pasmos vimos que dava pra comprar o Wii, um controle extra, 2 jogos e 1 volante por 400.000 wons, o que dá pouco mais de R$ 600. Já estávamos puxando o cartão de crédito quando perguntamos se tinha como deixar os jogos em inglês, e disseram que NÃO! Korean only! Tristes, fomos embora vendo Mario e Luigi correr na outra direção.

Mas, persistentes, fomos no StandCenter de alto nível de Seul, em que se encontra todos os eletrônicos possíveis e imagináveis, para comprar um HD externo para mim. Subindo as escadas rolantes, passamos pelo andar que vende videogames. Encontramos o estande do coreano mais simpático, perguntamos do Wii. E daí, numa sequência de Koringlish e mímica, conseguimos: que ele destravasse o Wii coreano, que vendesse 4 jogos piratas, que vendesse 2 volantes, que incluísse 2 controles nunchaku, que baixasse o preço, que vendesse um outro controle-padrão, e que desse um jogo de brinde. No fim das contas, saímos carregados e felizes do camelódromo high-tech, cheio de coisas, pelos mesmos 400.000 wons.

E Anselmo ainda promete voltar lá no próximo mês pra comprar um PS3.