Londres foi bacana comigo. Não seria uma viagem fosfosol decente se fizesse sol o tempo todo. Então, querendo que eu reavivasse as memórias do que é uma terra da garoa de verdade, ontem começou a dar aquela chuvinha perene, gélida e meio irritante que só Londres sabe produzir, e hoje ela continuava lá, irredutível.
Último dia em Londres! Tanto a fazer! Tanto a comprar! Não seria o chuvisco que me deteria, assim, coloquei a jaqueta mais quentinha, joguei a mochila nas costas e saí pra bater perna. Primeira parada, Postman’s Park, o parquinho que passou a ficar conhecido por conta do filme Closer. Eu já tinha ido lá antes, mas não tinha foto da parede de onde a personagem da Natalie Portman pega seu nome, e é bem perto da casa do Roger, então deu pra resolver essa missão sem grandes delongas.
Próxima parada, voltar para o Tate Modern para comprar uma camiseta do Keith Haring. Eu me conheço, e sei que passaria os próximos dez anos me arrependendo se não a comprasse. No caminho, impressionantemente, várias pessoas correndo, com aquela capacidade de enfrentar chuvinha de shorts e camiseta que só o britânico tem. Pode ser uma impressão viciada a minha, já que agora que eu trabalho na Runner’s eu reparo mais no pessoal que corre, mas suspeito que realmente haja mais gente correndo agora do que antes. Mais impressionante é vê-los atravessando a Millenium Bridge em passadas confiantes. Eu teria medo de escorregar e parar no Tâmisa.
De lá cruzei o rio de volta na busca de uma agência dos correios pra mandar pro Brasil uma caixa com os papéis que eu já juntei mas não ia precisar mais carregar. Depois, fui eu no meu zigue-zague pelo mapa até Shaftesbury Avenue pra comprar o ingresso com disconto para ver o Billy Elliot. Só? Nããããããããããooooo!!! Próximo compromisso, voltar para o Guardian para tomar um chazinho com Gareth McLean, amigo e ex-colunista de TV do jornal. Ele embarcou num programa de demissão voluntária que rolou lá faz alguns meses por conta da crise (por contrato o jornal não pode demitir ninguém) e agora está há dois meses tranquilamente vivendo das economias enquanto resolve o que vai fazer. Foi até lá só pra me ver, olha que bonitinho.
Roger aproveitou nossa presença lá pra fazer um intervalinho também, e entre nossos assuntos “catch up” de praxe dizia como as coisas estão puxadas no jornal agora que tem menos pessoas, que o povo se mandou e a chefia não recoloca ninguém na vaga e fica todo mundo trabalhando demais. Num momento Ana Paula, eu sorria (tristemente) e concordava, enquanto pensava que, tadinho, não sabe como as coisas podem ser piores. Pelo que eu vi, um dia puxado dele é um dia normal na Abril, onde mandar gente embora e não colocar ninguém no lugar é uma tradição de quase dez anos – e lá no Guardian nem inventam especiais a serem feitos por um frila de texto e um de arte.
Um busão depois, lá estava eu de novo do outro lado da cidade, de volta na minha querida Trafalgar Square, correndo para pegar a National Portrait Gallery aberta e conseguir entrar na exposição Gay Icons. Esse é um desses eventos que demonstram como o Reino Unido está a anos-luz do Brasil em termos de respeito à diversidade. A idéia é simples, mas genial: pediram para um número de personalidades gays (como Elton John, Ian McKellen, Jacke Kay e Waheed Alli) para listarem pessoas que, em sua opinião, são ícones gays. Essas pessoas não precisavam ser gays, apesar da maioria que foi listada ser. Assim, ao lado de um retratão do “dono” daquela parede e seu perfil, ficavam retratos das pessoas que ele ou ela escolheram: figuras como princesa Diana (que era hétera), Tchaikovsky (que, olha só, era gay), Nelson Mandela e Maya Angelou (héteros), Walt Whitman e Village People (beeshas).
Isso tudo num espaço nobre e um mega destaque – mas tudo muito fino, jamais chegando perto da apelação pelo espetáculo. É um evento muito inspirador, que tenho certeza vai elevar a auto-estima de todos os gays, e fazer que os straights respeitem todos os queers. Não resisti e, quebrando meu voto de não gastar dinheiro em livro, corri pra loja do museu e comprei o catálogo da exposição.
Agora, pra isso acontecer no Brasil… rá.
Nos quinze minutos que sobraram antes de fecharem a NPG, eu consegui ir para a parte de retratos recentes e olhar o que havia de novo. Lá estavam os retratos que o Julian Opie fez dos membros do Blur e o auto-retrato que o Marc Quinn fez tirando um molde da própria cabeça, enchendo-o com o próprio sangue e congelando (a peça está lá, dentro de um freezer transparente). Mas o que eu mais curti foi o retrato da Zaha Mohammed Hadid feito pelo Michael Craig-Martin. É um monitor de LCD enorme em que os traços do retrato ficam sempre em preto, mas as cores mudam aleatoriamente o tempo todo. O efeito é hipnótico – sério, demorou pra alguém ter essa ideia.
Mais um busão e chegava eu em Victoria Station, pronto pra ver Billy Elliot – The Musical pela segunda vez na vida. Dessa vez meu lugar ficava no “segundo andar” da platéia, na frente, o que significava que eu estava bem perto do palco, mas via tudo de um ângulo de cima pra baixo. Ou seja, boa parte da cenografia não funciona muito bem, e volta e meia você vê as pessoas se movimentando por trás dos cenários. Mesmo assim, o espetáculo foi excelente, melhor agora que eu já conhecia as músicas. Pude me concentrar melhor em decifrar o sotaque do norte usado na peça inteira, e reparar nas coreografias como um todo. Impressionante. E, realmente, o treinamento dos moleques que fazem o Billy Elliot deve ser animal, ele faz coisas no palco de tirar o fôlego.
De volta para o apê do Roger, ele ainda estava com pique pra gente ir prum bar lá perto beber uma última antes de eu ir embora. Andamos até o novo Trash Palace, que está com mais cara de pub que o antigo. Super vazio, talvez por ser terça, mas pra gente não fez diferença: o que importava era brindar a semana que passou e torcer pra que outras viessem.