Curíntia

Final de campeonato: será o meu fim?

Final de campeonato: será o meu fim?

Meu tio Benê tentou de todas as formas que eu e meu irmão fôssemos corintianos. Até eu fazer uns cinco anos, ele me deu camisetas do Corinthians, toalha, conjunto de futebol de botão… tudo em vão. Eu cresci sem o menor interesse por futebol, e também sem o menor talento. Meu triste período na escolinha de futebol durante a infância só me serviu pra eu aprender a ficar na defesa, torcendo pra que meu time atacasse bastante, assim a bola ficava longe.

Sem o menor estímulo, o Anselmo, meu irmão mais novo, adotou o manto corintiano da família e quaisquer habilidades futebolísticas que caíram no meu lar. Que bom, assim meu pai tem com quem assistir os jogos, discutir a escalação do Josequiélson e como o Uelimílson Amazonense é perna-de-pau.

Agora, nessas ironias do destino, oito meses atrás consegui ir para a Runner’s World, cuja redação foi montada como siamesa da redação da Placar. Ou seja, saí de um ambiente onde se falava de sexo o tempo todo (a redação da Men’s Health) para um em que se respira futebol – e no qual eu jamais pararia de outra maneira.

Reza a lenda que, em setembro de 2001, o diretor de redação da Placar chegou na redação pouco antes do almoço e teve que dizer "Gente, vamos tirar do jogo do Piraporinha contra Tremembé do Norte, que, assim, jogaram dois aviões contra o World Trade Center". E trocaram o canal, meio a contragosto, porque afinal era o chefe que estava mandando.

A Placar é o lugar em que se acompanha todos os jogos desde a série C do Estadual do Tocantins até a Champions na Europa. E todos sacam o que está acontecendo e têm uma opinião a respeito. Todos torcem pra algum time e se dedicam a alfinetar os torcedores dos outros rivais por que motivo for, em discussões intermináveis e moto-contínuas que obviamente não levam a lugar nenhum, mas que os entretêm imensamente.

Como eu não sou tão impermeável assim, para minha surpresa um pouco disso começou pegar em mim. Continuo sem time e tenho certeza que jamais serei capaz de avaliar se uma jogada está impedida. Mas, pela primeira vez na vida, sei o que se passa no gramado. Sei quem é o Mano Menezes, qual é a posição do Rogério Ceni e, impressionante, os finalistas do Campeonato Paulista.

O que aconteceu hoje. Sendo ainda a mesma pessoa, claro que não programei meu dia em torno do Corinthians x Santos, como metade dos cidadãos fizeram hoje. Até porque hoje era o segundo dia da Virada Cultural. Na programação, Cordel do Fogo Encantado às 9 da matina, Zeca Baleiro ao meio-dia, Maria Rita às 18h. A inércia do feriado me fez perder a hora pra pegar o show do Cordel; falta de informação sobre o horário correto do show fez com que eu perdesse o do Baleiro também.

Peguei o ônibus para o centro às 13h, me deliciando com a metrópole vazia. O diagnóstico geral: quem não estava na Virada, estava indo para o jogo. Depois de doze horas de Virada, o centro já tinha pilhas e pilhas de lixo pelos cantos – "parece Ensaio Sobre a Cegueira", disse um amigo do Felipe. Fomos para a São João ver se ainda dava pra pegar o show do Zeca, mas já tinha acabado. Comemos qualquer coisa pelas imediações e chegamos pouco antes do começo do show dos Novos Baianos. Que não valia a muvuca – o grupo parecia que tinha se juntado só pro show, Baby do Brasil quando falava era pra agradecer ao Pai do Céu e pra exaltar a Glória, o que Paulinho Boca de Cantor dizia não se entendia, e o que se entendia eram os poemas de um outro lá que obviamente não compreendia que não agradava a plateia.

Felipe e eu largamos o show depois de uma hora sofrida, e fomos bater perna no centro enquanto aguardávamos o show da Maria Rita. Durante essa espera, o jogo da final estava rolando, deixando a rua mais vazia – a não ser perto dos televisores públicos dos bares. Sem querer fomos parar no único café que não transmitia o jogo, adivinhando os lances do jogo (e o gol do Ronaldo) pelas reações que se ouvia ao longe.

Quando finalmente chegamos no show da Maria Rita, a corintianada já estava soltando rojões. Pouco antes de soarem as primeiras notas do espetáculo, me peguei imaginando qual seria o placar do jogo. Para meu pasmo próprio.

Maria Rita mandou muito bem. Se a Maria do Socorro tem as pernas torneadas pelas ladeiras do morro, as dela devem ter sido torneadas pelo personal trainer mesmo; não importa, ela faz bom uso delas o show inteiro. É impressionante como a São João lotou, e absolutamente todo mundo cantava todas as músicas. A platéia supercraudeada ficava cada vez mais feliz – apesar da imensa maioria só conseguir acompanhar a apresentação pelo telão, que tinha meio segundo de delay com relação ao som dos speaker e volta e meia apagava.

No final do bis, eu e Felipe saímos antes que a música terminasse para tentar escapar do efeito manada. A mudança nas avenidas já era visível: sem jogo e sem Virada, o tráfego voltava com fúria. Volta e meia alguém passava com uma bandeira do Timão, só pra confirmar quem tinha sido o vencedor do Paulistão.

Cheguei em casa e, caramba. Não consegui evitar. Tive que ir para o UOL descobrir o resultado do jogo. Achei divertido o incêndio na hora da entrega do troféu. Amanhã sei que vou prestar atenção nos melhores momentos que a redação vai ver no Globo Esporte, depois de ter lido o Jornal Placar. Não tem como negar, eu já não sou mais a mesma pessoa.

Mas não, seu bando de loco, eu não sou curíntia nem vou ser. Espero.

2 Responses to “Curíntia”

  1. Marcela

    Áh primo, se corinthiano é bom demais, não é tão ruim quanto todos falam.
    esahoihesaiouhesa, excelente o texto primo, to com saudades. beijo

  2. Assis

    é genético, sem saber a gente já nasce curintiano.