No La suma de los dias, a Isabel Allende fala a uma certa altura que existem eventos na vida familiar que passam a servir de referência para todos os outros eventos na época. Coisas como “ah, isso aconteceu depois da saga dos peitos” ou coisa assim.
Bem, esse último mês vai ficar, no mínimo, como referência na vida de todos da minha família. Isso se não virar marco para redefenir todas as referências de data.
Quem não convive comigo talvez não saiba, mas minha irmã Ana Paula fez um transplante de fígado há duas semanas.
Dá pra demarcar o início do evento por volta de 2 meses atrás. Apesar de ter sempre tido um fígado problemático, e já ter feito um transplante de rim, tudo ia aparentemente bem até que, antes de uma consulta periódica com o médico do transplante, a Ana Paula começou a vomitar sangue. Eu não estava presente, mas consta que it wasn’t pretty. Obviamente o alerta vermelho soou, correram com ela pro Hospital das Clínicas, onde ela ficou internada alguns dias até ser transferida para Campinas.
Ninguém sabia direito a razão para aquilo, mas havia de ser relacionado ao fígado. O pessoal do Centro Médico de Campinas olhou, olhou, olhou, controlou a situação e deu alta. Mas dava pra ver que ela não estava bem, sempre cansada, fraquinha, a barriga inchando e a pele amarelando.
Uma ou duas semanas depois, no começo de março, os sintomas não passavam, a menina só piorava, então levaram ela de novo pro hospital. Ela foi direto pra UTI, e a família se mobilizou da melhor maneira possível pra orbitar essa situação. Minha mãe passou a dormir na UTI com ela, meu pai trocava o plantão sempre que possível, eu deixei minhas férias para depois e fiquei por aqui.
Durante as visitas que eu consegui fazer em Campinas, o quadro parecia cada vez mais preocupante. Entre uma e outra, Ana Paula ficava mais magra, mais fraca e mais amarela. Além de tudo, o rim transplantado dava sinais de que estava em risco. Cada exame de sangue ficava mais feio que o anterior.
Depois de uma estadia um tanto traumática na UTI do Centro Médico de Campinas (lugar com enfermeiras cheias de má-vontade, sem um chuveiro quente para os acompanhantes, e que deixa os pobres passarem fome apesar de terem direito a comida), uma das médicas que acompanha o caso da Ana Paula desde criança conseguiu que ela fosse transferida para o hospital AC Camargo. A essa altura a inevitabilidade de um transplante de fígado já era mais que clara, e ela foi inscrita na fila do estado de São Paulo nesse hospital. Claro que o convênio não queria ceder a internação dela sem luta, mas depois de algum conflito ele liberou a internação no novo hospital. Mas se recusou a pagar a ambulância para levá-la de Campinas para São Paulo.
A diferença de um lugar para o outro foi gritante. O caso da minha irmãzinha era claramente complicado demais para o povo de Campinas. Uma vez no AC Camargo (vulgo Hospital do Câncer, em que qualquer caso é complicado), o tratamento da Ana Paula foi ajustado e em poucos dias a situação dela melhorou. Não que ela ficasse bem – ao longo do processo, a situação ficou tão preta que ela ficou em segundo lugar na fila do transplante -, mas se ela conseguiu superar essas semanas foi graças ao pessoal do AC, principalmente à dra. Massami, uma abnegada onipresente que resgata seus pacientes do fundo dos poços.
Assim que ela veio para Sampa, meus irmãos Danilo e Anselmo começaram a fazer os exames para checar a compatibilidade entre eles e a Ana Paula para um transplante. Eu faria, mas sendo gêmeo do Danilo, acharam que não precisava – qualquer coisa, somos geneticamente idênticos e o resultado de um havia de servir par ao outro.
Duas semanas depois de vir para Sampa, a situação da Ana Paula ficou sob controle. Tanto que a posição dela na fila caiu para 50 e tantos. Então se decidiu em fazer um transplante intervivos mesmo. Os últimos exames do Danilo ficaram prontos, e os resultados vieram positivos. Conseguiram marcar a cirurgia para dali a dois dias.
O dia do transplante foi um dos mais tensos que eu já vivi. Tanta coisa acontecendo, e tudo o que eu podia fazer era manter as velas de Reiki do Danilo acesas no meu apartamento. A presença do meu tio Emerson nas cirurgias nos manteve informados, felizmente. Tudo começou às 8 da manhã, e terminou às nove da noite. Felizmente, tudo correu bem.

Eu mangando de Danilo, que mal se aguentava no dia seguinte ao da cirurgia.
Começou então a segunda parte da história, a recuperação. Danilo ficou internado 1 dia na UTI, mais 3 no hospital. Está de repouso em casa até agora, mas no fringir dos ovos se recuperou as fast as it can.
Já Ana Paula passou por apertos bem maiores – todos normais e esperados em alguém que recebe um fígado novo, mas mesmo assim exaustivos, principalmente para uma adolescente que já está há semanas na mesma cama de UTI. Ela inchou horrores, ficou com uma sonda urinária, e um soro em cada braço. Sem falar dos exames de sangue diários.
Mãinha continuou ao lado da Ana Paula o tempo todo, revezando com meu pai quando precisava trabalhar. Eu peguei o plantão uma ou duas vezes por semana. Nunca vou me esquecer do dia em que, quando eu estava lá, precisaram trocar a agulha do soro. A menina já tinha sido tão furada por tanto tempo que nenhuma veia funcionava mais, e achar uma veia nova era dificílimo. A enfermeira tirou a agulha antiga (doloroso) e furou uma vez (muito doloroso), duas vezes (torturante), três vezes (excruciante). Ana Paula chorando e gritando, e, mais uma vez, tudo que eu podia fazer era tentar consolar e dizer que ia passar. Mais uma vez a dra. Massami came to the rescue, mesmo assim não foi fácil.

O coelho gigante ocupa o lugar do meu pai na poltrona dos acompanhantes, na UTI.
Ana Paula fez aniversário na UTI, poucos dias depois do transplante. Levamos bolo e fizemos uma festinha silenciosa e limitada a meia hora, mas já felicíssimos: Danilo, o doador, ainda internado, ainda na cadeira de rodas; Mãinha; Pai; Dany; Anselmo; Vó Maria. E eu. Também surgiu um casal tocando violão, do nada, e tocou “Como uma onda”, pedido da aniversariante. Nós todos ficamos lá tentando não chorar. Dias depois, tio Emerson veio com tia Nilva, Lucas e tio Eraldo, e deixou de presente um coelho de pelúcia maior que ela.
Enfim. Eu posso contar pouco, não passei tanto tempo lá no cotidiano do hospital. Só sei que foi um trabalho lento e cuidadoso para conseguir equilibrar o órgão novo, o rim transplantado e a recuperação da cirurgia.
Há três dias tiraram um dos soros da Ana Paula, e ela voltou a beber água, aos montes. Ontem tiraram a sonda urinária. Hoje, de presente de Páscoa, ela ganhou a alta da UTI e foi para um quarto normal de hospital. Finalmente o dia em que Ana Paula vai voltar para casa – bem – parece estar chegando.
E assim a vida há de entrar nos eixos de novo, para melhor. E nossa família daqui a algum tempo vai poder olhar para trás e falar de todas as bobagens que aconteceram “na época do transplante”.
p.s.: Confira o relatório do período pós-UTI neste post.
Lindo o coelho e por mais que difícil, a história também. Porque ela faz todo o resto ficar pequeno pra gente repensar no que realmente importa.
Beijo pra grande família
Muito lindo, só com estes filhos maravilhosos é que a gente toca com alegria todas as nossas missões
Beijos Mã
Marcio, sou amiga de sua mãe há muito tempo e sei o que vocês já passaram com a saude de Ana Paula.
Sem desfazer de nenhum de vocês, quero registrar o “AMOR de MÃE” que a Helena tem dedicado todos estes anos a esta menina tão querida.
Da mesma forma, dirijo -me a todos desta familia maravilhosa, sempre unida, e disposta a enfrentar todos os desafios para que ela se recupere.
Deus nos dá forças para superar estes momentos difíceis, e sei que este episódio já ficou para trás.
Agora é um novo tempo.
Um abraço a todos.
Raquel, Andre Samuel e Marilia
Mocinho Bonito!! voce jamais se recordará , mas pequenino te levava pela mão! e não falava, mas achava sua mae maluca…. estudando e com esse monte de “muleque” para atazanar , ainda encontrava alegria para nos fazer um jantarzinho vez ou outra….Sou amiga da Lena desde Araraquara e aos intervalos acompanho a sua luta, Tem coisa que não entendemos , hoje é tão claro o porque da bençao de ter tido aqueles mulequinhos ranhentos, voces são um exemplo de união e de AMOR FAMILIAR , me toca e me faz chorar…Voces tinham que pertencer a VIDA de seu PAi e de sua mãe…. Por acaso combinando nossa festa de 25 anos de formatura ,ele me contou sobre o transplante… estou em pensamento com Ana e todos voces; os dias em silencio me pergunto como estão …. torço para sua(dela) rapida volta a casa e que tudo fique bem … que seja so um marco temporal em suas vidas para que reforcem sempre isso que todos voces conseguem nos passar.
Um beijo meu querido , sinta se abraçado !!! todo o meu afeto do fundo de minha alma! Christianne
Oi Ana Paula!
Minha querida!
Sua mãe sempre conta que roubou você do seu pai.
Para mim, isso significa que você já era amada antes mesmo de ser concebida.
Você é a coisinha mais meiga com que já tive o privilégio de conviver. Portanto, quero que fique boa logo para que possamos dar boas gargalhdas ao lembrar dos maus momentos pelos quais tem passado tão resignadamente.
Quando sua saúde for plena, goze a vida como bem entender, pois é o que você mais merece.
Espero que possamos compartilhar muitos bons momentos juntas.
Se há energia positiva nos bons pensamentos com certeza você está toda envolvida nela.
Boa recuperação, meu bem, é o que seus tios desejam sinceramente.
Beijos de Enio e Tita.
Marcio ,tambem sou amiga da Lena de Araraquara e assim como os outros estamos em oração pela recuperação plena da Ana. A união de vcs mostra quanto esta familia é especial e o elo que os une é o amor.Deus é lampada para nossos pés e luz para nosss caminhos. Confie .
Um abraço grande a todos.
cleide
Primos!
Embora longe, acompanhamos voces com muita oração. Tenham certeza que a felicidade de voces é compartilhada por todos da família!
Aninha,
Passei por apenas uma fração do que voce passou, mas o suficiente para imaginar as dificuldades que voce enfrentou e poder dizer o quanto admiro a sua força e maturidade, demonstrada durante todo esse processo. Temos orgulho de voce!
Que voce continue melhorando cada vez mais e ainda nos traga muitas alegria com a sua companhia.
beijos
Fabio e Lilian
Ana Paula e familia
Desejo a todos muita força para estes momentos.
Sei que são fortes passando por tudo isso com Deus no coração e um sorriso no rosto.
Ana Paula volte logo para casa trazendo alegria e bons momentos junto com sua familia de super herois incasáveis,parabens pelo seu aniversário emuitos anos de vida.Beijos
Graça
Queridos amigos,
Estamos todos emocionados em compartilhar esses depoimentos. Temos certeza que logo poderemos desfrutar de bons momentos juntos. Vocês são um exemplo pra todos nós.
Ana, Joanópolis te aguarda heim?
Cavalgadas….
Um aconchegante final de semana com as meninas aqui em casa…
Te esperamos anciosos.
Beijos
Tia Cecília, Tio Zinho, Carol e Helena
Oi Márcio, a cada notícia, a cada conversa, a cada encontro só cresce em nós a sensação (certeza!!!) de que é um prêmio conviver com a sua família. Posso confidenciar algo? Não tinha dúvida de que seria assim: Um final super feliz!!! Por quê? Simplesmente porque confio plenamente na intensidade do amor que os une. Parabéns a todos e em especial a Aninha!
Ficamos muito contentes em ter na familia algem que consegue colocar em palavras um pouco do que sucedeu nessas ultimas semanas.
Realmente foram momentos de grande expectativa e ansiedade e estamos todos muito aliviados em ver como Ana Paula mais uma vez mostrou que e uma menina de muita coragem e enfrentou tudo com esse espirito super pra cima que toda a familia emana…
Quero especialmente fazer mencao do ato sublime do Danilo em doar parte do seu corpo por amor a sua irma e familia. Nao imagina o orgulho que sinto de voce Danilo !!!!
Voces realmente formam uma familia super especial.
Beijos com muito carinho,
Tia Celia
Oi Márcio,
temos muito orgulho desta familia maravilhosa, amamos muito todos voces.
Tio Eraldo, Tia Nilva e Lucas
Meus queridos,
Assim como muitos outros amigos, não posso deixar de registrar nossa grande admiração por todos vocês. Em especial pela tia Helena que colocou 2 filhos na mesa de cirurgia com um sorriso no rosto e dizendo aquilo era uma benção, pelo Danilo que fez o ato mais nobre que uma pessoa poderia fazer e, claro, pela Ana Paula, cópia da mãe, que mesmo após dias infindáveis e torturantes em um hospital sempre dizia que tudo estava bem com uma risadinha única!
Graças a Deus, os dias de tortura passaram e o momento de olhar para trás com alívio já chegou (para todos nós) deixando uma lição de vida para aqueles que partilharam deste momento.
Beijos,
Francely, Júnior e Gabriel.
Olá Ana e Família!
Trabalho com seu pai aqui na Progen….
Quero dar Parabéns a todos pela força e união que tiveram durante esses dias difíceis que vocês passaram…
Que Deus continue iluminando e abençoando os dias, o caminho e a vida de vocês!
Um grande abraço.
Luciana Franco
Haroldo
É comum nas empresas as pessoas conviverem durante anos, as vezes até uma vida e não conhecemos nada sobre elas e cada um normalmente tem uma história, sem dúvida vcs estão vencendo um capitulo muito importante na vida de vcs.
Saúde, felicidade e pronto restabelecimento a Ana Paula e seu filho.
Parabéns pela sua Família.
Edison M Oliveira
Progen
Marcio convivi com vocês bem de pertinho quando ainda eram crinças, chegavam na vó Maria e já pediam para buscá-los porque queriam ficar em casa com os meus filhos especialmente a Ne, vocês dormiam de mãos dada com ela todas as noites, isso sempre nos fez muito felizes por sentir o carinho que vocês tinham por nós e nós por vocês, só ficamos sabendo agora de tudo que vcs passaram, e mais uma vez me sinto feliz por ter conhecido uma família como a de vcs. Desde o nascimento da Ana Paula vcs se uniram na fé em Deus de que tudo ia dar certo, e graças ao Pai tudo está dando certo, enviamos muitas vibrações de paz alegria e saúde para todos vcs, continuem assim sempre no colinho de Deus . E num abraço, numa frase ou num sorriso recebam tudo que é preciso para enfrentar as dificuldades, pois bondade semeia e cria vida nova ao coração , que Jesus lhes abençoe por essa união que mostra o verdadeiro significado da família. Beijos para vcs todos.
Oi Helena e Ana Paula, Danilo e toda familia. Estivemos juntos à vcs através de nossos pensamentos e preces durante esses dias dificeis que foram mais uma prova vencida através de sua fé e merecimento.
Nossa alegria é muito grande por vcs.
Recebam toda nossa vibração de amizade, pedindo ao Pai que os abençoe sempre.
Abços
João Rogerio e familia
Bom, o que tenho a falar não tem um final feliz, mas de qq modo fico feliz por ter dado certo com vcs…
Em Agosto de 2008 perdi meu filho no Hospital A.C. Camargo após um transplante, também intervivos, mesmo com total empenho de toda a equipe de médicos do hospital. Ele não aguentou. A hepatite foi fulminante e ele terminou tendo um edema cerebral…
Sou e sempre serei muito grata à toda a equipe de médicos e enfermeiros do hospital.
Desejo a vcs toda a sorte e saúde.
Grande abraço,
Renata