Beijo gay, mídia e maionese

Ontem a Heinz, fabricante de maionese, retirou do ar um comercial que veiculava no Reino Unido, em que mostrava dois homens se beijando. E não passava de um selinho.

Particularmente eu acho que o anúncio é um erro conceitual: o salto de raciocínio que ele exige dos telespectadores é tão grande que com certeza a maioria não entendeu a “sacada”. A idéia é que a maionese é tão saborosa que você ia se sentir como se tivesse um tiozinho de lanchonete em casa. Mas, primeiro: quem é que realmente quer isso? Depois, a situação das crianças se despedindo da “mãe” antes de ir pra escola, culminando na despedida do casal, é obviamente interpretada como uma família alternativa, não como uma dona de casa de chinelinho metamorfoseada num sanduicheiro pelo poder da maionese.

É uma mensagem extremamente surreal e difícil de compreender – me lembra o comercial de Lux Luxo em que a Andréa Beltrão aproveitava a chuva repentina enquanto andava num conversível para tomar um banho de banheira. Não devia sequer ter sido feito, mas por causa da mensagem trocada que ele transmite, não por dois homens se beijarem ou não.

O clamor contra o comercial veio de pais que de repente se viam na situação de ter que explicar para os rebentos que homens também podem se beijar, que nem papai e mamãe fazem. Não que os pimpolhos a tenham visto entre um bloco e outro de Pokémon; na Inglaterra não se permite que comerciais de maionese sejam exibidos durante programas infantis (não querem que as crianças fiquem com vontade de comer algo assim, pouco saudável). Apenas mais um sintoma de que, apesar de grandes avanços, a hipocrisia persiste mesmo por lá: tudo bem os infantes verem três tiros por minuto, mas esconjuro que dois homens possam ter uma vida conjugal com filhos.

Um dos assuntos mais anedóticos quando se fala da história do cinema são os Rocky-Hudsons: os atores que eram gays mas pagavam de héteros para o público. As assessorias de imprensa do mundo do entretenimento garantem que as preferências de suas celebridades fiquem sempre razoavelmente escondidinhas da mídia; para todos os efeitos, nos últimos 30 anos nenhum ator de sucesso é viado. A civilização ainda não está preparada para que um ator saia do armário sem perder seu marketing value (mas este momento não está tão distante assim…). Depois que eles saem dos holofotes, perdem a “proteção”, e daí as biografias como Carmen podem dizer quem saía com quem sem causar comoção nenhuma.

Não devia causar comoção nunca. Felizmente o mundo está caminhando na direção em que Dora, que amava Lia, que amava Léa, vai causar tão pouco espanto quanto Dito, que amava Rita, que amava Dito. O Guardian, sempre tão bacana, faz matérias estilo “3 casais mostram como reformaram sua casa” em que um dos casais calhava de ser de dois homens, sem um remark que fosse no sentido de que eles fossem de qualquer maneira diferentes dos outros casais. E, mesmo lá, como se vê, tem gente que se incomoda com mixaria.

Já num país em que o Richarlyson sente que tem que se proteger de qualquer insinuação sobre com quem dorme (como dizia um professor meu na engenharia, as pessoas deveriam se preocupar não com quem a gente dorme, mas com quem a gente fica acordado), a mídia ainda trata homem com homem e mulher com mulher como se fosse algo extremamente chocante. Há três anos que a cada final de novela fica um suspense se o personagem gay vai beijar ou não – algo sempre reservado para o final da novela, quando ninguém vai poder jogar uma queda de audiência nas costas das duas bichinhas. Se a Globo já tivesse tirado isso do caminho com o Juninho de América, não ia ter que ficar com medo hoje em dia de perder o troféu do primeiro beijo gay em horário nobre brasileiro para Os Mutantes – o que seria, na minha opinião, lamentável para os gays enquanto gênero humano.

Empresas de comunicação: enfrentem logo o efeito zoológico! Ele, como tudo, passa. Com essa atitude, beijos gays logo não terão sequer a habilidade de vender maionese, e o mundo será um lugar melhor e mais tolerante por causa disso. E comerciais serão retirados do ar por suas reais falhas de comunicação, não pelo desconforto de pais preguiçosos.

Para quem quiser ler mais sobre os efeitos da homossexualidade (ou não) em diferentes tipos de celebridades: “We’re still not a very tolerant society”.

One Response to “Beijo gay, mídia e maionese”

  1. Anand

    Gostei do texto e dos parágrafos justificados. Ri do comentário sobre Os Mutantes. Eu imagino quando outro post terá a tag maionese.