Terra da garoa

“E isso aqui, Marcinho, se chama ‘vulva de arara’”, disse Beto Sandall, apontando pra um rabanete.

Tudo por causa da minha convicção em não comer alimentos com nomes antropofágicos. A lista não é muito grande, mas revolta muita gente: eu desprezo baba-de-moça, teta-de-nega e bicho-de-pé. Pé-de-moleque eu como porque aprendi a comer antes de chegar na fase da minha vida em que comecei a imaginar moleques encardidos com seus pés mutilados. Na noite anterior, ao pararmos numa doceria em Copacabana, eu descobri um docinho branco chamado barriga-de-freira, e imediatamente fiz mais uma adição ao meu rol de alimentos a evitar. Léo Favre e Beto Sandall, meus queridos anfitriões nesse meu révellon carioca, ficaram inconformados, e no dia seguinte ainda não deixavam o assunto morrer. Enquanto preparavam a salada do almoço, iam vendo até onde que minhas aversões sintagmáticas iam me levar. Beto tirou um tomate-cereja do pirex e disse “Isso aqui, Caparica, se chama olho-de-saci”. Léo pegou um pedaço de brócolis e continuou “E isso aqui vem do latim broccho lisum, e quer dizer pentelho-de-bode”. Não levou nem quinze segundos a mais para o pobre rabanete virar vulva-de-arara, mas eu me mantive fiel aos meus princípios e continuei ignorando os alimentos com nomes genuinamente metonímicos.

Havia já dois dias que eu tinha chegado ao Rio de Janeiro, para passar meu fim de ano. Eu havia visitado Léo e Beto três semanas antes, já que não via Léo pessoalmente desde antes de ir para Londres. Durante o fim de semana que passei em terras fluminenses, choveu o tempo todo sem parar, e minhas esperanças de voltar para Sampa sem a tez verde-escritório que já tinha substituído meu bronzeado mediterrâneo foram por água abaixo. Depois que resolvi voltar para o Rio no fim de ano, a esperança de pelo menos começar 2007 com um bronzeado razoavelmente decente só crescia. Léo me escreveu no dia anterior à minha partida dizendo que estava fazendo um sol esplendoroso e que dessa vez o projeto bronze ia dar certo. Que ilusão.

Cheguei na rodoviária do Rio às sete e meia da matina, tendo sobre minha cabeça um céu de nuvens negras digno de Londres. Num ombro, carregava uma mala vermelha gigante com roupas, laptop e outros petrechos necessários para se passar uma semana fora de casa. No outro, a trombolhuda mala de bicicleta, coadjuvante importantíssima da minha viagem pela Europa. Sim, Angelana Paula, a Intrépida, me acompanhava em mais uma aventura.

Sempre temeroso de taxistas dispostos a tirar vantagem de paulistas otários, fui para as cabines de táxis pré-pagos, fiz uma pesquisa rápida de quem poderia me levar junto com a megabagagem, e fiquei pasmo da variação encontrada: os preços iam de R$ 17 a R$ 40, “por conta da bagagem”, para me tirar dali e me deixar em Laranjeiras. Fui no mais barato, e a mocinha, ao ver a bagagem da bike, adicionou mais R$ 3 por conta da bagagem. Arrastei tudo até o ponto de táxi, e vi, entre pasmo e horrorizado, três motoristas simplesmente se recusarem a me levar por conta da Angelana. Por fim uma Dobló-táxi, de porta-malas gigante, veio me resgatar. Feliz? Não. O cara, mesmo tendo um porta-malas com mais espaço que muitos quartos que eu já vi por aí, começou a reclamar que minha bagagem era muito grande, e só me aceitou depois de eu oferecer mais 4 reais, que era tudo o que eu tinha na carteira.

Desembarquei temporariamente em Laranjeiras, para tomar café-da-manhã com Jimmy W. Depois de alimentado e de colocar a conversa em dia, Jimmy gentilmente me levou Rio adentro até a Gávea, onde mora o Léo. Lá, enquanto mister Favre aprontava o almoço com seus insuspeitados dotes culinários, fazíamos planos para aproveitar meus dias fluminenses e usufruir do sol que mais cedo ou mais tarde havia de dar as caras.

Antes fosse. Como não fazia sol, acabei acompanhando Leozinho até a academia, me assustei com como são marombados os cariocas, e passei vergonha ao descobrir que Léo levanta muito mais peso do que eu. Essa noite, Léo me levou para um passeio ciclístico pela lagoa Rodrigo de Freitas, em que era impossível se ver o Cristo devido às nuvens. Fomos para o cinema ver o novo 007; quando saímos de lá, o já se via o Redentor, mas dois minutos mais tarde ele já havia se escondido de mim.

No dia seguinte, fui convocado por Louis Piereck, que também estava passando o fim de ano no Rio, até Ipanema, e mesmo com a persistência cumulonímbica eu fui lá dar um oi para meu velho amigo. Nada de sol durante todo dia, com chuva leve ao final da tarde, quando saímos de um bar da Gávea e voltei à residência de Léo.

Acordei dia seguinte com um sol esplendoroso, e resolvi não esperar que Léo e Beto acordassem: convoquei Jimmy e corri para a praia. Foi só eu me instalar na areia, porém, e lá se foram os raios fúlgidos. Me restou só ficar conversando sobre princípios lingüísticos e mitos na psicologia com Jimmy, enquanto me queimava com o mormaço.

Dia 31 nem havia esperança de sol, já que tradicionalmente chove no Rio toda virada de ano. Debaixo de uma chuvinha indecisa, fomos eu, Léo e Beto para uma festinha de revéllon de um grupo de amigos deles. A presença armada se sentia pelo caminho todo, cheio de puliças ostentando escopetas, show de horror. Nós três pedalando, claro; devido às poças do caminho, Beto chegou com as costas de sua camisa branca cheias de barro (a roda das bikes joga a sujeira pra cima, nas costas do ciclista); Léo, que desviou da maioria das poças que cruzaram seu caminho, estava apenas um pouco sujo; eu, que tenho uma soberba bike com pára-lamas, estava impecável.

A festinha estava meio devagar, mas valeu para provarmos o divino pavê que Léo tinha feito para o evento. Onze e vinte da noite nós três nos despedimos de todos os presentes e começamos a correr para Copacabana, para ver os fogos. Foi uma pedalada desabalada, desviando de inúmeros festeiros que já se instalavam para assistir os fogos da Lagoa, enfrentando multidões que também se dirigiam para Copa, e, é claro, desafiando a chuvinha que continuava caindo. O esforço valeu, no entanto, e, depois de prender as bikes e abrir caminho na multidão, estávamos com o pé na areia dois minutos antes de começar a contagem regressiva. O ano virou, a gente gritou, os fogos começaram, e comemoramos com champanhe (francesa, que Beto é chique) bebida no gargalo, enquanto deixávamos os fogos nos encherem de alegria e a chuva embaçava os óculos de Léo Favre.

Terminado o show pirotécnico, voltamos às magrelas e rumamos para Ipanema, felizes da vida de que éramos os únicos a nos locomover razoavelmente rápido na região congestionada e cheia de gente. Ficamos algumas horas indo do lado em que estava o palco do show dos Black Eyed Peas para o outro em que estava rolando uma rave electro, abismados em como tinha gente mijando à beira-mar. Dezenas de caras, o tempo todo. Fez pensar em quanto mijo é produzido todo dia.

Os dias seguintes foram gastos dentro do apê do Léo mesmo, já que o sol se recusou a fazer o começo de 2007 feliz e ensolarado. Ficamos dormindo, lendo e comendo, numa vida de puro ócio romano, ou quase. Beto fez que Léo fizesse uma forma do pavê do fim de ano para seu deleite pessoal, junto com uma panela de brigadeiro. Eu, que ainda não desenvolvi grandes habilidades culinárias, assumi meu papel tradicional lavando a louça. Da janela da sala do Léo via-se o morro Dois Irmãos. Ou melhor, não se via, já que durante esses dias todos eles ficaram cobertos de nuvens. Chegamos à conclusão de que o problema era comigo mesmo, e Beto e Léo começaram a considerar seriamente me expulsar do Rio para que levasse as nuvens comigo, e eles pudessem ter um começo de ano ensolarado. Jimmy passou para se despedir, que no dia seguinte ele rumaria com o cão Teddy para a fazenda da sua família, mas queria assuntar um pouco mais antes. E, entre páginas de livros e Páginas da Vida, sessões gastronômicas e Sessão da Tarde, passaram-se dois dias e chegava a hora de eu pegar o ônibus de volta para Sampa.

Cheguei em Sampa e, é claro, a chuva continuava. Até o momento em que termino de escrever isso aqui, ela ainda não parou. Não sei como está no Rio, mas não me surpreenderia ao descobrir que o tempo abriu poucas horas depois da minha partida.