Nos aeroportos

Pra minha mãezinha já telegrafei
Que já me cansei de tanto sofrer
Nesta madrugada estarei de partida
Pra terra querida, que me viu nascer
Já ouço sonhando o galo cantando
O inhambu piando no escurecer
A lua prateada clareando a estrada
A relva molhada desde o anoitecer
Eu preciso ir pra ver tudo ali
Foi lá que nasci, lá quero morrer

– Goia e Belmonte, Saudades da minha terra

E foi assim, mais uma vez de madrugada, que eu deixei Lisboa – dando um adeus sonado e agradecido à Aline, descendo as escadas dela uma última vez e tomando rumo para o aeroporto, por ruas que dessa vez eu conhecia bem melhor. As avenidonas vazias já sentiam como o caminho para casa, e o misto de ansiedade, impaciência e medo já se faziam sentir uma vez mais. Dessa vez o retorno era definitivo até segunda ordem.

Tendo de novo ido dormir tarde na noite anterior por conta do rolê pelo Bairro Alto na noite anterior, o embate contra o sono se estabeleceu antes do que eu gostaria. Enquanto havia o que fazer – desmontar a bike uma vez mais, comer algo enquanto lia Os Lusíadas, empolgadíssimo, desbravar o aeroporto – eu tinha uma certa vantagem, mas quando as atividades se acabaram e só me restava esperar para que abrissem o check-in, Morfeu foi ganhando força, e só mesmo o muito medo de perder o vôo me manteve (mal) desperto.

No fim das contas, minha bagagem toda – as mochilinhas e sacolas amarradas juntas, para virar um volume só, e a bicicleta desmontada como outro – não deu excesso de peso, o que muito me tranquilizou. Ela teve que ser entregue num terminal especial para bagagem fora do tamanho-padrão, no entanto, o que só fez aumentar meu perpétuo temor das minhas coisas acabarem no Timbuktu.

Ainda tive que lutar contra o sono até depois da primeira refeição, uma hora depois de iniciado o vôo – a fome dava uma força. Assim que recolheram minha bandejinha, no entanto, me acomodei o melhor que podia e puxei o ronco; quem já conseguiu dormir nas cadeiras de faquir do ônibus entre Barcelona e Madri consegue dormir em qualquer frincha.

Horas depois, já do outro lado do Equador, os chutes na parte de trás da minha cadeira me despertaram. Resolvi manter a boa e não fiz mais do que lançar alguns olhares fulminantes para o moleque de quatro anos que mal se mantinha na poltrona anterior à minha, o que, obviamente, não surtiu efeito algum. Durante todo o resto do vôo Mateus, o moleque, pulou, gritou e se revirou, sua avô, ao lado, tentava apaziguá-lo, e os passageiros ao redor se dividiam nas facções que achavam ele uma graça e os que gostariam de distribuir seus órgãos para transplante.

Conforme o avião se aproximava, minha inquietação ia aumentando, mas eu não tinha a liberdade do Mateus para me remexer e pular e gritar; duvido que muita gente fosse achar isso uma gracinha, e eu acabaria espalhado entre vários doentes agradecidos. Como não era o único, só me restou entrar nas prosas dos passageiros no entorno, dominadas principalmente por um casal de brasileiros que voltava à pátria amada pela primeira vez depois de vinte e tantos anos morando em Portugal. Concordando com a cabeça e fazendo comentários genéricos entretive a última hora antes do pouso.

Voltar para seu próprio país sempre é moleza, chega a ser quase anticlímax para alguém como eu que durante um ano se acostumou a temer o povo da imigração cada vez que voltava para a Inglaterra. Mas, para manter a emoção, a espera para ver minha bagagem surgindo na esteira foi longuíssima. O medo de ser parado na alfândega também rolou, como sempre, mas mesmo com uma bicicleta no carrinho de bagagem não houve qualquer problema.

E então foi só atravessar o portão, e encontrar a família inteira me esperando. E eu estava de volta em casa.