Casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo. A mais linda, a mais amada, respeitada, cuidada… A mais bem comida. E a pessoa mais namorada do mundo e a mais casada. E a mais festas, viagens, jantares.. Casa comigo que te faço a pessoa mais realizada profissionalmente. E a mais grávida e a mais mãe. E a pessoa mais as primeiras discussões. A pessoa mais novas brigas e as discussões de sempre. Casa comigo que te faço a pessoa mais separada do mundo. Te faço a pessoa mais solitária com um flho pra criar do mundo. A pessoa mais foi ao fundo do poço e dá a volta por cima de todas. A mais reconstruiu sua vida. A mais conheceu uma nova pessoa, a mais se apaixonou novamente… Casa comigo que te faço a pessoa mais “casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo”.
– Michel Melamed, Regurgitofagia
A crise da Varig vai tendo repercussões e repercussões, principalmente para nós, pessoas largadas no outro lado do mundo. Ludmilla, como ficou sabendo de repente que ia ter que voltar para o Brasil para não perder sua bolsa, precisava da primeira passagem disponível para cruzar o oceano; eu, vivendo de nômade na Europa, também gostaria de voltar logo pro outro lado do equador, mas podia esperar um pouco. Ficamos querendo. Desde que nossa principal companhia aérea desceu pelo ralo, todos os vôos das outras companhias para o Brasil lotaram, e a situação não deve normalizar tão cedo. Pedalei para o aeroporto de Nice para tentar mudar minha passagem e a da Lud, e, para o espanto do próprio tiozinho da Airfrance, a primeira data disponível era dia 10 de outubro. Menos mal para a Lud, que tem uma passagem pro dia 18 de agosto anyway… Eu, a não ser que dê sorte de pegar um cancelamento, estou aqui até outubro mesmo.
Sexta foi o último dia de trabalho de Lud na cozinha do hotel; até quarta-feira, quando partiríamos os dois, estávamos livres para bater perna pela costa. Acordamos beeem tarde, resultado das visitas intra-hotel da noite anterior, então, depois de café da manhã gourmet e louça, resolvemos passear por Antibes mesmo. óculos de sol na cara, fomos encarar o sol de holofote que fazia e enveredar pela parte velha da cidade.
Eu sempre acho muito interessante como as profissões das pessoas moldam seus interesses e percepções do mundo. Eu, por exemplo, fico reparando nas helveticas do caminho, não consigo deixar de entrar em banca de jornal, e fico aflito quando um poster ou placa está com os dizeres desalinhados ou com o kerning malfeito. Passear com a Lud se provou muito mais interessante que as minhas entediantes manias de designer. Fomos visitar uma loja especializada em azeite de oliva, com garrafas e latas das mais variadas safras, tipos de azeitona e países. Lud provou alguns e não conseguiu se decidir por qual levaria como preciosidade para o Brasil; descobri então que o azeite brasileiro não chega aos pés do mediterrâneo, assim como a farinha, que “lá simplesmente não presta”.
O centro histórico de Antibes, assim como, devo dizer, a grande parte dos centros históricos que visitei até hoje, é cheio de lojinhas; o bom é que no caso existia toda uma variedade de coisas para se olhar, e as lojas eram mais humildes (no conceito Côte d’Azur de humildes, entenda-se bem). Pelo menos a gente podia entrar nas que anunciavam descontos de 50%, e até considerar de repente quem sabe comprar aqueles ítens mais baratos. Eu, que não aguentava mais usar as mesmas quatro camisetas todos os dias; Lud, que agora pode comprar roupa em lojas em que todo mundo compra: paramos de loja em loja. Pobres que somos, não compramos nada (minto, ela comprou uma legítima boina francesa), mas nos divertimos mesmo assim.
Perdemos de pegar o mercado municipal aberto, mas Lud aproveitou que estávamos por lá para me mostrar o Bar do Absinto. Numa loja de esquina, no andar inferior, um lugarzinho todo art-noveau, com mesinhas redondas decoradas com as mulheres do Mucha, e tudo que se precisa pra se tomar absinto como se deve. Nas paredes, vários pôsters de propagandas do século passado (ou retrasado?) de absinto. Me dei conta de como fomos manés naquele ano-novo na casa da Júlia em que todos resolveram virar um copinho de absinto puro se achando o máximo, e ficamos todos tralalás e com o estômago revirando o resto da noite, claro. Descobri que a maneira elegante de se tomar absinto é colocar a porção desejada no fundo de um copo médio, colocar um torrão de acúcar em cima do copo, equilibrado numa bandejinha, e usar uma garrafa apropriada pra ir pingando água gelada sobre o acúcar, de forma que tudo se misture lentamente no fundo do copo, e se tome um absinto mais diluído e agradável ao paladar (e ao estômago).
Achei tudo tão lindo que fiz a Lud sentar lá comigo, e disse que só saía de lá depois de ter uma experiência Moulin Rouge, nem que a garçonete tivesse que se fantasiar de fada verde pra me expulsar do bar. Depois de olhar o cardápio, pedi uma Coca-cola com absinto, e uma porçãozinha de absinto pra Lud experimentar, já que nunca tinha tomado antes. Apesar de seguir os ensinamentos de seu chefe chef de que, se você de primeira não gosta de uma comida, deve experimentar de novo, e de novo, e de novo, até adquirir o gosto pela coisa, ela não quis ir muito adiante no absinto. Fui tomando minha bebida, a garçonete trouxe uma porção de azeitonas e uma de alho (!) de cortesia. Quando o copo chegou ao fim, pus nele o resto da garrafa e reforcei com a dose rejeitada pela Lud, maravilhado de como eu nunca tinha tomado algo tão bom antes. Lud olhou prum pôster atrás dela, uma ilustração de um francês com um casaco verde tomando alegremente seu absinto, e disse que lá estava meu fado verde. Eu respondi que pra mim fado verde, só se surgisse um português de bigodes esmeraldas, cantando tristes canções lusitanas. Obviamente, eu já estava pra lá do rio Tejo.
Saímos de lá para que eu terminasse de conhecer as maravilhas de Antibes, Lud indicando o caminho e eu seguindo em zigue-zague. Paramos numa doceria chiquésima que premia todas as suas fatias com uma microfolha de ouro no meio, Lud não resistiu e comprou pedaço de bolo, eu, mais feliz que devia, resolvi que porque não, e comprei um pedaço de torta de chocolate. De loja em loja, livraria em livraria, restaurante em restaurante, chegamos até o ponto de ônibus e tomamos o ônibus até o hotel, eu já dando graças a deus que não tinha vindo de bicicleta, assim não corria o risco de ficar dando 50 voltas no balão que tinha no caminho antes de decidir que entrada tomar.
Mais tarde, depois que eu tomei banho e estava de volta ao meu estado normal, provamos os doces que tínhamos comprado, e descobrimos que ouro não tem gosto de nada, e que a mulher podia muito bem guardar aquilo pra fazer fortuna. Enquanto esperávamos o influxo de colegas de hotel começar (estavam todos trabalhando no turno da noite, afinal…), Lud reparou na minha vergonha de ler O Código Da Vinci, e me deu o Regurgitofagia, do Michel Melamed, pra ler, um livrinho cheio de textinhos geniais que eu li contente da vida. O problema é que em uma hora acaba. E daí estava eu de volta à Sophie Nevau…