Certamente eu nunca tomei tanto trem na minha vida quanto nessa estadia italiana. Pra quem ia fazer tudo de bicicleta…
Pela manha, antes de me despachar, o Mario resolveu me apresentar a Padua. E uma cidade pequena, com quatro pracas onde tudo acontece, e uma faculdade de psicologia que agita o que seria uma cidade pacata. Sim, e a terra de Santo Antonio de Padua, e num desses lances meio morbidos que a Igreja Catolica tanto curte, esta numa capela da cidade a lingua embalsamada do santo. Por que foram guardar justo a lingua eu nao sei, porque nao fui la conferir.
As pracas estavam lotadesimas de gente, principalmente por causa das feiras que aconteciam no dia. Fiquei sem saber se acontecem todo dia ou justo no dia que eu fui, mas dava pra comprar tudo, desde comida ate acessorios e antiguidades. Mario ia me levando de uma pra outra, apontando os predios antiquissimos que as rodeavam e mostrando os lugares caresimos em que se paga so de olhar firme.
A faculdade de psicologia faz com que haja jovens andando pra la e pra ca em todas as ruas do centro, o que nao acontece tanto em cidadezinhas italianas, em que tipicamente a presenca da terceira idade e avassaladora. Demos sorte de poder ver um habito muito bacana dos universitarios de la: quando um aluno se forma, os amigos fazem um cartaz de uns dois metros e meio de altura por um metro e meio de largura, escrito algo como "Giuseppe de Silva se formou!!" no alto, uma caricatura gigante do individuo no centro, e, em volta, todo o relato do que o fulano ou fulana fez durante os anos da faculdade, obviamente cheio de casos constrangedores e piadas as custas do individuo. Isso feito, comemoram a formatura da vitima e penduram o cartaz na frente da facul, onde ele fica por dias e dias, ate o dono ir buscar e guardar pra sempre como lembranca da epoca de faculdade.
Assim como Pavia, Padua tem um comercio invejavel, com todas as grifes que Campinas nao tem. E, numa ironia do destino, a area em que a centenas de anos ficava o gueto onde isolavam os judeus hoje e o lugar dos bares descolados. Aproveitando o ensejo, paramos la pra eu experimentar um spritz aperol, drink supertipico de Veneza e Padua, que nao e mais que agua, vinho branco e um licor laranja chamado Aperol.
Com o tour de Padua completo, peguei o trem de volta a Veneza pra completar o meu tour por la. Chegou a dar um de ja vu, mas dessa vez eu resolvi que podia muito bem fazer tudo a pe, e desprezei os barcos-onibus.
Foi entao que eu senti como Veneza e uma mentira que a minha vaidade quer (ou a dos turistas, melhor dizendo). Ela nao e mais uma cidade em que se vive, mas sim uma grande atracao turistica. E inegavel que e tudo muito lindo; que passear num lugar onde nao existe carros, ha agua por todos os lados e a cada dois quarteiroes voce atravessa uma pontezinha pra chegar ao outro lado de um canal e algo impar hoje em dia; e que ela ainda tem uma atmosfera que faz voce se sentir feliz so de estar la.
Mas chega a ser aflitivo como, por exemplo, da estacao de trem ate a Piazza San Marco (ou seja, uma boa metade da ilha) nao existe janelas: todas sao vitrines. E tudo de lojas vendendo souvenirs ou comida carissima; os servicos da vida normal sao dificeis de se encontrar. Ruas e mais ruas feitas para sugar tudo que se pode dos milhares de turistas pedestres que vao inevitavelmente passar o dia zanzando de um lado pro outro com o bolso cheio de euros e tao encantados que nao sentem pudores de usar o cartao de credito pra levar uma lembranca.
Alias, turistas. Ceus, andar por Veneza e abrir caminho entre correntes de turistas. E impossivel tirar uma foto de qualquer coisa sem que na sua foto aparecam tres ou quatro outros turistas tirando fotos. Principalmente japoneses, que sao incapazes de tirar uma foto da coisa simplesmente, tem que aparecer na foto tambem, entao andam aos pares, um tira a foto do outro na frente do predio/monumento/paisagem, dai eles trocam de posicoes. E sempre fazendo algum gesto com a mao.
Depois de atravessar o Canal Grande pela ponte do Rialto (uma ponte cheia de lojas, so em Veneza mesmo), resolvi sair do circuito turistico e fui me embrenhando pelos lados menos populares da cidade. Dai comecei a ver as vielas que, de tao estreitas e bisonhas, dao medo de atravessar, as construcoes menos conservadas, as pessoas pondo as roupas no varal no terceiro andar do predio… Sim, existem pessoas que ainda moram la, mas elas ficam distantes da turistaiada pagante, ate pra manterem sua sanidade, imagino eu. Mas fica a dica, faca esse tipo de aventura apenas com o mapa de Veneza na mao, porque perder o senso de direcao nos reconditos venezianos e mais facil que cantar O Sole Mio, corre-se o risco de ficar dando voltas por horas sem esperanca de sair.
De coisas bacanas, fica a constatacao que realmente as gondolas existem. Obviamente, um passeio de gondola custa pelo menos 80 euros (existem gondolas que ja vem com um cantor e um tocador de sanfona embutidos, e portanto devem ser bem mais caras), entao sem quatro ou cinco comparsas essa brincadeira e inviavel. Mas descobri que em certos pontos do Canal Grande em que as pontes ficam muito longe, existe um servico de gondolas que te levam de um lado para o outro do Canal por 50 centavos, entao fui num desses, passei pela igreja de Santa Maria de la Salute, voltei pro outro lado de gondola de novo, e assim posso dizer que nao perdi de fazer algo que so se faz em Veneza.
Ao cair da tarde, retornei a estacao de trem e rumei de volta a Pavia. Ainda demorou mais quatro horas ate que eu pudesse ser atacado pelas zanzaras pavienses novamente, por volta das onze e meia. Tutu e Rodi me receberam de volta com a maior alegria, levemente lesados pelas atividades do dia, e sem um fio de macarrao que eu pudesse jantar. Juntei as ultimas forcas pra enganar o estomago com umas torradas, trocamos impressoes de Veneza. Rodi nao aguenta mais ir la, ja levou cinco levas de parentes pra visitar a cidade, e deu gracas a deus que eu sou um turista independente que vou la me perder por conta propria.