Admire la puissance de l’esprit: tu es ici, allongée sur le versant d’une montagne chinoise, et ton esprit peut se transporter dans ton pays natal ! L’esprit posséde des possibilités d’excursion infinies ; tu dois t’en servir pour voyager. Il établit des connexions tout seul ; il est de même nature que le nuage qui passe ; le stable n’existe pas pour lui. Suis ses variations sans fin. Il faut accepter nos pensées diverses, même contradictoires. (…) Arrête de cogiter, d’essayer de comprendre; oublie, oublie, et ton esprit comprendra "subitement" pour toi.
– Fabinenne Verdier, Passag?re du silence
A viagem para Roma demorou umas dezesseis horas. Pode parecer muito e devagar para a populacao urbana geral, acostumada a chegar em poucas horas em qualquer lugar, mas para mim, mais uma vez, a sensacao era de que estava a uma velocidade absurda e que era pura magica que me fazia ir dormir na Franca e acordar na Italia. O celular britanico ia me avisando ao longo da noite conforme o trem ia cruzando fronteiras, se registrando nas operadoras locais e me avisando os precos pra fazer e receber chamadas e textos em cada localidade. Eu, encantado que estava subindo e descendo morros sem ter que fazer esforco nenhum.
A conversa na minha cabine nao durou muito; ja estavam todos proximos de dormir quando cheguei, em meia hora veio o consenso de se apagarem as luzes para que todos caissem nos bracos de Morfeu. Eu tentei, mas estava mais pra cair no chao mesmo; de todos os seis leitos da cabine, o meu era o unico que tinha algum defeito que o deixava numa inclinacao de uns trinta graus em direcao a parede. Eu me acomodava o melhor que podia, tentava encontrar uma posicao confortavel, e quando comecava a adormecer ia escorrendo contra a parede. Resolvi que precisaria estar bem mais cansado do que estava no momento pra conseguir dormir daquele jeito, entao peguei o livrinho da francesa maluca e fui pro vagao-restaurante passar o tempo.
Varios insones estavam la; avido por socializar, logo engatei conversa com um americano vesgo e duas canadenses falantes que ali se encontravam. A conversa manteve-se por horas da profundidade de um pires, mas era tao bom simplesmente conversar e conversar e conversar… Na medida do interesse deles, contei da minha viagem, dos lugares que passei, mas logo eles mudavam para assuntos ainda mais inocuos, e eu ficava lah desenferrujando minhas ferramentas sociais.
Eventualmente o corpo pediu arrego e eu voltei para o vagao para dormir no leito inclinado. Acordei por volta das oito da manha, ja dia claro, e nao demorou muito o resto dos passageiros fizeram o mesmo. Felizmente, algumas outras cabines ja tinham sido esvaziadas, e eu transferi a mala trambolhenta da Angelana para outra cabine e assim evitei o odio generalizado dos meus colegas de viagem. O tempo de viagem ate chegar em Roma foi gasto com a portuguesa me dando dicas do que fazer em Roma e Lisboa, trocar mensagens de celular com a Tutu dando os informes de como prosseguia a viagem, e recarregar o celular no banheiro do vagao (unico lugar com tomada, para barbeador). Meio-dia e pouco cheguei na antiga capital do imperio.
Certamente os romanos sao conhecidos por muitas coisas bacanas e charmosas. Mas nao pela boa-vontade de seus servicos, com certeza. Durante as duas horas seguintes, eu fiquei me arrastando de um lado para o outro da estacao de Roma Termini, tentando descobrir como fazer para comprar um bilhete para Orte, cidade onde haveria um onibus que me levaria para o festival. As cabines de informacoes aos clientes tinham sempre filas enormes, com pessoas de todas nacionalidades enfurecidas por razoes que so a elas cabiam, que disputavam a tapa um atendente que falava um ingles pior que o do copeiro do Don Corleone. E eu carregando malas mais a bicicleta no lombo, indo de um canto pro outro.
Depois de muito esforco, encontrei uma ragazza da estacao que falava ingles. Depois de explicar meu drama, ela falou que seria um prazer me auxiliar, foi comigo ate uma cabine automatica de bilhetes, e demonstrou toda sua disposicao em me dar um help esmurrando uma maquina de bilhete automatico com uma delicadeza calabresa, arrancando o dinheiro da minha mao, entuchando-o na maquina e me entregando o bilhete e o troco com um rosnado.
Continuando minha sina de burro de carga, fui pra plataforma, encontrei um espaco entre vagoes onde deixar meus fardos, e fui procurar onde sentar. Descobri entao que na Italia se vende bilhetes de trem sem preocupar-se com a lotacao dos vagoes; voce pode pagar a mais pra ter um lugar marcado, mas a maioria nao faz isso, ficando com o assento quem chega antes. O resto vai de pe nos corredores, entre um vagao e outro… Acabei sentando no chao ao lado da minha bagagem, e la aguardei os 45 minutos ate chegar em Orte.
Quando desembarquei, encontrei outras pessoas com cara de acampantes alternativos, e em grupo encontramos o onibus que o festival havia fretado para nos levar. Foram mais 40 minutos de viagem ate chegar ao mezzo de niente onde se daria o evento, sob um sol inclemente e envoltos por nuvens de po que se erguiam de um chao mais seco que uma ampulheta. Cada vez que passava um carro, nos viravamos o Laurence da Arabia. Rodi, namorado da Tutu, conseguiu me achar na fila. Paguei a entrada, abri a mala alguns metros mais pra frente e remontei a bicicleta heroica ali mesmo. Quase virei uma duna no processo, mas o esforco se fazia necessario: a barraca de Rodi e Tutu estava numa das poucas sombras existentes no festival, barranco acima e a uma longa caminhada da entrada; levar a bagagem rodando sobre a Angelana era muito mais inteligente que subir com tudo nas costas.
Quinze minutos depois, Tutu me recebia com uma alegria sem fim. Tive que montar a Iracema imediatamente, para nao perder o teco de sombra que tinham guardado pra mim. Depois disso, corri tomar banho, que dois dias de suor e terra estavam depositados em mim. Quando eu voltei, o trance na pista ja se ouvia ao longe.