Operação partida

Uma das grandes esperancas que eu tinha quando resolvi acompanhar Tutu e Rodi ao festival era de conseguir escapar um dia para passear por Roma. As questoes fisicas e logisticas acabaram fazendo com que isso fosse impossivel durante o findi; segunda-feira, dia de partida, era minha ultima esperanca.

Acordar cedo nao era problema; como eu disse, a localizacao da minha barraca fazia com que fosse impossivel nao despertar com a primeira alvorada. As sete e meia da manha eu ja tinha desmontado e guardado Iracema, disposto a pegar o primeiro onibus ate o aeroporto que a organizacao do festival tinha jurado que fretaria para o exodo dos participantes. O plano era deixar a bagagem guardada la, correr para Roma, passar quantas horas desse e voltar a tempo de pegar meu voo.

Doce ilusao. Rodi e Tutu me acompanharam ate a entrada, e la fomos informados de que tinham cancelado os onibus pro aeroporto, e que toda a mundrungagem ia ter que se virar pra sair dali por conta propria. Os dois voltaram para desmontar seu abrigo; eu, emputecido, segui de bike ate Capodimonte pra pegar o primeiro onibus que me tirasse dali.

Cheguei na fermata de onibus na vila e encontrei o onibus pra Viterbo quase saindo;ter que desmontar a Angelana Paula e guarda-la na mala-trambolho, porem, fez com que eu o perdesse e tivesse que aguardar o proximo, as dez horas. Onze e pouco eu desabei minha carga em Viterbo, e vi que um onibus pra Orte estava saindo. Corri, comprei a passagem e consegui voltar a tempo de jogar a bagagem pra dentro dele e partir para mais proximo de Roma. Uma hora e meia depois, o onibus me largava na estacao de trem de Orte, onde eu comprei passagem para Roma Termini.

Tive que esperar uma hora pelo trem, durante a qual mudaram a plataforma de embarque duas vezes, e eu carregando meus trambolhos escada abaixo e escada acima em cada uma delas. Duas e qualquer coisa eu desembarcava em Roma. Depois de enfrentar a ma-vontade dos atendentes mais uma vez, descobri onde se pegava o onibus para o aeroporto, contabilizei o tempo e disse arrivederci pra ideia de visitar Roma.

A unica coisa de Roma que pude ver e que os postos de gasolina ficam na calcada; as pessoas estacionam ao lado, enchem o tanque e vao embora. Demorou quarenta minutos para o onibus chegar ao aeroporto, depois dos quais eu montava a bagagem no lombo para fazer check-in na Ryan Air. Tinha pagado o extra pra levar a bicicleta no aviao quando comprei o bilhete, entao a moca fez check-in normal das minhas duas malinhas, e me mandou achar a seguranca pra que eles colocassem a bicicleta numa esteira especial. Tentei levar meu pacote de tenda, saco de dormir e colchao inflavel como bagagem de mao, mas a seguranca nao permitiu por conta dos pinos e do martelo da barraca; tive que voltar, pagar bagagem extra e mandar o pacote junto com as outras malas. A comida e bebidas no portao de embarque custavam os olhos da cara, entao achei melhor segurar a sede e fome e gastar o dinheiro num cartao telefonico internacional, ja que aparentemente minha mae estava achando que eu tinha morrido.

Mais uma hora de voo, e eu carregava minha cruz turistica para o onibus que me levaria do aeroporto de Bergamo ate a estacao de Milano Centrale. O busao pegou a hora do rush, e demorou horrores pra chegar ao centro de Milao. Nesse tempo, eu fiz as contas, e amaldicoei os organizadores do festival ate a quinta geracao. Nao tivessem eles mentido que haveria onibus do festival para o aeroporto de Roma, eu teria pegado um trem de Roma ate Milao, gastado menos, sofrido menos, e chegado na mesma hora. Espero que morram todos de doencas venereas dolorosas.

Despencando em Milano Centrale, eu ja fazendo o numero do burro de carga de novo quando chegou um bebado com a cara toda machucada e um carrinho de bagagem nas maos. Achei que nao era o caso de considerar as questoes sociais do ato, simplesmente aceitei, ele foi levando minha bagagem toda estacao adentro e escada acima ate os carrinhos de bagagem da estacao, eu dei dois euros pra ele e ficamos todos felizes. Precisei correr um pouco pra pegar o trem pra Pavia, mas em poucos minutos estava eu na fase final dessa longa viagem.

Foram mais 45 minutos ate chegar na cidade da Tutu. Ela tinha me avisado que os pernilongos na cidade eram muitos, mas eu nao imaginava o quanto. Eu era praticamente comido vivo pelos maiores pernilongos que eu ja vi enquanto num esforco de concentracao montava Angelana Paula mais uma vez na frente da estacao. Quando ela estava pronta para rodar mais uma vez, seguimos o mapinha que Tutu tinha feito e achamos seu apartamento sem nenhuma dificuldade.

Ela tinha me dado as chaves da casa, porque eu ia chegar antes. Mal pude esperar para tomar um banho e me sentir gente de novo. Algumas horas depois, Tuts e Rodi chegaram, contando historias de sua jornada ate ali que eram tao tragicas quanto as minhas, incluindo servir de guia de excursao para todos os mundrungos estrangeiros que nao sabiam falar italiano e estavam perdidissimos, inda mais depois de terem trincado o cerebro em quatro dias de festival. Tiveram tambem que pegar um taxi pra conseguirem chegar no aeroporto a tempo, e correrem desabaladamente com mochilao nas costas e barraca em maos pra nao perderem o check-in. Depois de tomarem os banhos civilizantes, escorremos cada um para sua cama, querendo um pouco de moleza na vida for a change.