Depois dos acontecimentos do dia anterior, que tanto comoveram os leitores desse blog, fiz questão de descansar bastante e colocar em dia o sono perdido. Gui foi trabalhar de manhã e eu nem tchuns, fiquei puxando o ronco na sala e só acordei quando era meio-dia, mais devido ao calor que qualquer outra coisa. Não, a onda de calor européia não e ficção, está um calorô de rachar coquinho, e as casas feitas para aguentar o frio tornam-se todas forninhos.
Depois que acordei, fiquei enrolando na casa do Gui até que ele chegasse, aproveitando o tempo sozinho para finalmente planejar as rotas da minha viagem com a paz que eu não tinha em Londres. Infelizmente descobri que é uma dificuldade descobrir a localização de campings em cidadezinhas desconhecidas quando não se sabe a geografia dos países em questão; descobrir, por exemplo, se vale a pena ficar num camping em Chateau Thierry é dureza quando não se sabe sequer em que departamento da França fica isso. Estou achando que vou me ater às capitais mesmo e deixar a sorte fazer economia pra mim.
Dei uma saidinha na hora do almoço e fiz comprinhas de comida no supermercado mais próximo. O fator chobrong da língua holandesa continua tornando algumas coisas mais difíceis: escolher a variedade de arroz torna-se uma questão de escolher a caixinha mais bonita, quase levei uma lata de sopa de tomate pensando que era molho de tomate, e comprei pãezinhos crus crente de que eram pães de leite. Algumas constantes ainda têm se provado universais, porém: ainda estou pra encontrar uma lata de atum que não seja redonda, e os tabletes de manteiga têm a mesma cara aqui abaixo do nível do mar, apesar de eu não fazer a menor idéia do que a embalagem dizia. Fazer compras de mochileiro te dá a liberdade de comprar o produto absolutamente mais barato de todos, algo que em geral não se faz em casa por um apreço à qualidade do que se compra, mas na minha atual situação de restrição orçamentária de repente qualquer coisa que custa menos de um euro passa a brilhar pra mim.
Vale dizer também que eu nunca vi tomates tão bonitos quanto os que vendiam aqui. Cheguei a tirar foto.
Gui conseguiu escapulir do trabalho mais cedo, e fomos então à estação central pra fazer um dos tours de barco pelos canais de Amsterdam. Ele já não aguenta mais ciceronear visitantes pela cidade, já fez uns cinco tours desse com convidados diversos, mas foi bacana o bastante pra me acompanhar nisso. O passeio vale bastante a pena, a locução do barco dá informações interessantes e dá pra ter uma boa idéia da geografia e história da cidade. A gente descobre, por exemplo, que, como o espaço aqui sempre foi muito limitado, as casas têm em geral 6 metros de largura, e aquelas que são absolutamente nababescas têm 12. Todas têm um gancho no alto do telhado, porque as escadas são tão estreitas e inclinadas que não dá pra subir os móveis pela escada, então a mudança chega aonde tem que chegar pendurada nos ganchos.
Amsterdam fica numa baía, à beira do rio Amstel (daí o nome, devido à barragem [dam] do rio Amstel), e é toda feita ao longo dos canais utilizados para ampliar sua área útil. Sim, é bizarro pra cultura brasileira em que o espaço não falta, mas toda vez que se fala de fazer alguma expansão da cidade, até hoje, o raciocínio aqui é "então, vamos drenar esse pedaço aqui, e daí…". Eu fiquei imaginando como é que o povo fazia pra construir os tais canais em mil seiscentos e bolinha.
À noite fomos para um bar na Reguliersdwarstraat, uma rua descolada que eu já tinha curtido bastante da outra vez que vim pra cá. Foi nessa rua inclusive que comprei minhas camisetas dos Beatles e outras roupas diferentes que se tornaram um dos melhores investimentos que eu já fiz, tamanho sucesso que fazem quando as visto. Enquanto tomávamos uma típica cerveja holandesa, fomos acompanhando o jogo da Alemanha X Itália, que estava passando em telões de todos os bares ao redor. Os holandeses têm uma rixa estilo Brasil e Argentina contra os alemães, e estavam todos torcendo ferrenhamente contra a alemoada toda. Berros de alegria tomaram as ruas quando os italianos fizeram dois gols no final da prorrogação. Eu comemorei também, mais porque desde o começo da copa achava que seria muita marmelada se a Alemanha fosse pra final em casa, ainda mais se ganhasse, então fiquei feliz de que minha crença de que rolava algum acordo com relação às finais das Copas estava errada.