Mais uma fronteira

Hoje: 157,3 km
Total: 802,8 km

Gui Galvao, que tao gentilmente me hospedou em Amsterdam, me disse que detestava a Belgica porque o pais era um tedio que chegava a esvaziar seu cerebro de tao intenso. Eu estava discordando dele, por conta das minhas boas impressoes da Antuerpia, mas ao longo do dia descobri que quem estava certo era ele.

No cafe da manha, encontrei um americano ciclista que literalmente ja estava careca de pedalar pela Europa. Ele me disse que a Franca e o melhor lugar do mundo pra se pedalar, ainda mais se voce acampa, e eu fiquei empolgadissimo pra cruzar a fronteira logo. Fiz as malas ja cantando a Marselhesa.

O interessante de se viajar de bike e que voce ve nao so a parte historica e linda das cidades, que todos os turistas veem, mas tambem as feiuras quando se sai delas. Bruxelas e um exemplo tipico. Toda elegante e pernostica no centro, quando se sai dela, o que se ve e um amontoado de ruas cinzentas e sem encanto.

E, devo dizer, o resto da Belgica nao foi muito melhor. Verdinhos e amarelinhos das plantacoes a beira da estrada, certo, mas nada que valesse uma foto da digital. Fui ate Mons sem grandes dificuldades, parei pro almoco, depois segui com a fronteira em vista.

As duas e qualquer coisa, numa conurbacao entre Quentin e Valenciennes, uma placa me avisou que daquela esquina pra frente eu ja estava em solo frances. Mais uma vez, meu passaporte passou incolume.

Estava indo tudo calminho demais, entao Valenciennes, uma cidade razoavelmente grande encostada na fronteira, resolveu animar meu dia. Sair de qualquer cidade nao costuma ser muito dificil, em geral e so seguir na direcao pretendida o melhor que se pode, que voce passa pelo centro e sai do outro lado. Mas…

Seguindo essa estrategia e as placas, eu cheguei na principal saida da cidade – que so levava para mais uma das temidas autovias, a A23. Tive que voltar e comecar o arduo processo de pedir informacao, tentar direcoes diferentes, ir eliminando alternativas. Uma senhora numa loja de bicicletas me deu instrucoes superdetalhadas e por escrito, pena que levavam pro lugar errado. Passei pela praca principal umas cinco vezes, ate que, quando me dei conta de que estava voltando por onde eu tinha chegado, eu encontrei um ponto de onibus com mapa, me localizei, e finalmente encontrei a saida daquele labirinto.

Foi assim que descobri que o problema era meu mal-estreado mapa da Franca, da Michelin. No meu excelente mapa da Benelux que eu vinha usando ate entao, se uma cidadezinha nao estava no mapa, ela nao existia. Nesse frances, se ela nao esta no mapa e porque e pequena demais pra ser listada mesmo. Faz muita diferenca pra quem depende das indicacoes regionais pra se orientar.

Passei duas horas miseraveis zanzando sem descanso por Valenciennes, cidade besta na qual eu espero nunca mais colocar meus pes novamente. Ate o final ela foi complicada, quase me jogando em outra autovia, a A2, por conta de indicacoes dubias. Nao fosse um negao com oculos escuros de aro branco Dolce & Gabbana me explicar como saia, eu teria ficado preso ali muito mais tempo.

Meu destino era Cambrais, ao fim da estrada N30. Ela ia ladeando a autovia A@, o que fez com que estes fossem os 40 km mais ansiosos da minha vida, sempre com medo de pegar um acesso a autovia e alguem ter que ir buscar meus restos com uma colher pouco depois. Tirando isso, a viagem foi tranquila.

Cheguei no albergue quase sete horas da noite, e nao tinha ninguem pra atender. Tive que ligar no numero indicado na porta pra fazer aparecer um senhor que me desse acolhida. Ele nao falava ingles, nem tinha a menor do do meu frances claudicante. Mesmo assim, consegui todas as instrucoes dos supermercados ao redor, do que tinha pra se fazer na cidade, e descobri que no dia seguinte era feriado nacional. Resolvi entao ficar dois dias, pra ver as comemoracoes na noite seguinte.

O albergue esta quase vazio, e eu ganhei uma suite de cinco camas todinha pra mim; minha bagunca ja ocupa tres delas. consegui ter espaco pra espalhar todos os meus mapas e selecionar as rotas que farei ate Portugal. Estou ansioso pra ver se a Franca e tudo isso mesmo.