Luz vermelha

Hoje: 57.1 km
Total: 187.3 km

Um dos meus planos quando vim aqui pra Amsterdam era pegar um dia ou dois e ir pra uma das praias mais ou menos próximas. Mas todo dia, na noite anterior, quando eu contava isso pro Gui ou pros amigos dele, eles me desencorajavam dizendo que a previsão do tempo dizia que ia chover muito e portanto não valia ir. Até agora a previsão do tempo errou bizarramente todas as vezes, porque o sol tem brilhado fulgurantemente todos os dias.

Não acordando cedo o suficiente pra pegar a estrada e voltar no mesmo dia, eu resolvi me perder na cidade um pouco. Se perder em Amsterdam é uma das coisas mais seguras de se fazer, pois a parte turística cheia de coisas para se ver é razoavelmente pequena, e dá pra se virar muitíssimo bem apenas com um mapinha que cabe no bolso. Além disso, os maiores canais da cidade são em forma de U, então, na pior das hipóteses, é só andar numa direção qualquer que fatalmente você encontra um ponto de referência para se localizar.

Na lista de afazeres também estava encontrar um mapa da Benelux que me servisse pra planejar minha saída de A’dam. Então fui até o centro, parei perto do Mercado das Flores, deixei Angelana Paula estacionada na frente de um supermercado (onde, supus, haveria menos chance dela ser roubada), e entrei na livraria ao lado. Demorou um pouco pra eu me acostumar com o fato de que, apesar de todo mundo aqui falar inglês, os livros todos ainda eram em holandês e pouco eu podia decifrar. Mesmo assim, consegui encontrar um mapa que me serviu, com poucos textos, e esses poucos com tradução em inglês.

Depois disso eu fui andando a esmo pela cidade. O Mercado das Flores fica à beira de um canal, e, obviamente, vende flores (tulipas holandesas legítimas!). Além disso, para os apreciadores, dá pra se comprar sementes de maconha das mais variadas qualidades. Várias lojas de souvenires também ficam ao redor, vendendo desde miniaturas de tamanco, bonequinhos, e, claro, todo equipamento necessário para intensificar sua mary jane.

Aproveitando que estava na região, passei na loja de camisetas em Reguliersdwarsstraat, onde eu comprei minhas camisetas dos Beatles. Para minha felicidade, apesar de estarem em promoção, não tinha nenhuma roupa que eu achasse que valia a pena o prejuízo. De lá eu subi a Kalverstraat, um calçadão com todas as lojas que você pode querer. Ao fim da rua, fui andando a esmo, vendo as coffee shops, dando uma passadinha numa bicicletaria pra comprar uns elásticos novos, e fazendo o possível pra me perder de verdade.

Depois de uma sesta pra aliviar o calor e alguma pesquisa com meus mapas novos, fui encontrar Gui e sua turma para uma excursão no lado mais hardcore da cidade. Jantamos num barzinho na Warmoesstraat, a rua das baladas mais… fetichísticas, digamos, e de lá fomos pro Distrito da Luz Vermelha.

A prostituição é legalizada na Holanda, desde que aconteça nos lugares apropriados, nas condições higiênicas devidas. Rola fiscalização, pagamento de impostos e tudo mais. É claro que a região que isso rola não é assim das mais amigáveis, mas, sem segundas intenções e com a segurança dos números, dá pra fazer um passeio turístico de algo que só se vê em Amsterdam mesmo.

A gente entrou numa rua tão estreita que corria o risco de bater os ombros nas paredes. Depois de alguns metros, começam a ter as vitrines de ambos os lados, com as putas lá sentadas em exibição, nos modelos mais escandalosos de roupa íntima. De preferência branca, pra brilhar na luz negra. Aparentemente, é só acertar o preço, entrar no quartinho, elas fecham a cortina da vitrine e mandam bala. Tem de todos os tipos, magra, gorda, branca, preta, alta, baixa…

Aparentemente muitas das mulheres lá foram vendidas durante a juventude e estão presas no esquema de escravas brancas (ou pardas, pretas, etc.). Não sei. Mas, pra mim, pelo menos, se vai acontecer mesmo, melhor que seja no esquema daqui, em que tudo é feito por cima dos panos e o cidadão que realmente sente necessidade desses serviços pode fazê-lo com a proteção da lei. Muito do que faz Amsterdam um lugar especial é esse clima de liberalidade e respeito pelas vontade de cada um. Eu realmente acho que o mundo seria um lugar melhor se esse tipo de atitude acontecesse mais.