There is no world without Verona walls,
But purgatory, torture, hell itself.
Hence-banished is banish’d from the world,
And world’s exile is death: then banished,
Is death mis-term’d: calling death banishment,
Thou cutt’st my head off with a golden axe,
And smilest upon the stroke that murders me.
– William Shakespeare, Romeo and Juliet
Uma das vantagens de Pavia e sua localizacao estrategica. Esta a quarenta minutos de trem de Milao, de onde pode-se pegar trens e chegar-se em poucas horas em varias cidades turisticas da Italia. Depois de passar um dia olhando mapas e planejando meu role pela Peninsula Italica, resolvi ir conhecer Veneza, e parar em Verona no caminho. Acordei cedissimo, coloquei poucas roupas numa das minhas malinhas, deixei um bilhete para o casal adormecido e parti para a estacao de Pavia.
Uma hora mais tarde eu estava em Milao. Enquanto esperava o trem para Verona, comprei a passagem para Nice, onde estarei na semana que vem, e dei uma volta pelos arredores da estacao de Milano Centrale. A viagem foi um exemplo do horario de pico dos trens italianos: todas as cabines lotadas, pessoas pelos corredores dos vagoes, aqueles que tinham comprado lugares expulsando os que tinham sentado neles de alegre. Havia um casal de turistas britanicos perto de mim que estavam claramente horrorizados com tanta presenca humana tao perto deles; eu abaixei um banquinho no corredor, sentei e fui lendo e tomando cha gelado. Quem acha esse trem um show de horror e porque nunca foi de Araraquara pra Campinas de trem em oito horas, como eu ja fiz com Vo Maria quando era crianca pra usar o pase da Fepasa do vo Dico.
Ao chegar em Verona, fiz o expediente padrao: localizei o escritorio de turismo mais proximo (no caso, ficava na propria ferroviaria) e pedi um mapa. A mulher do Officio de Turismo foi superprestativa, me deu mapa, me encontrou todas as ruas que eu tinha pesquisado no dia antes na internet, e ainda me avisou do Verona Card, um cartao que por 6 euros te da entrada em todos os museus e atracoes turisticas de Verona, e ainda te permite andar de onibus o dia inteiro. Devidamente armado de mapas, enderecos e Verona Card, sai da estacao para desbravar mais uma cidade.
Apesar de ter o cartaozinho que me permitia andar de onibus, com uma olhada no mapa eu ja percebi que dava pra fazer a cidade inteira a pe, e me pus a caminhar. O albergue de Verona ficava do outro lado da cidade, ladeira acima, e assim eu pude dar uma boa olhada nela toda e resolver o que fazer antes de deixar meus belongues no ostello.
Certamente todos os habitantes da cidade todas as manhas agradecem aos ceus pelo dia em que William Shakespeare resolveu escrever Romeu e Julieta. Nao fossem os star-crossed lovers, haveria bem pouco para se fazer la. Gracas a eles, no entanto, a cidade e bem movimentada, e muito bem conservada, o que nao se pode dizer de muitas outras vilas italianas. Verona vibra e respira a Romeu e Julieta. Todas as atracoes turisticas oficiais sao ligadas a Julieta, a maior parte dos servicos se chamam Romeu (bar Romeo, restaurante Romeo, o onibus turistico chama-se Romeo, tem boate chamada Romeo’s…), sem falar do hotel Romeo e Giulietta, da padaria Romeo e Giulietta, da sorveteria Romeo e Giulietta…
Chega a ser impressionante como uma historia levemente baseada em rumores reais toma proporcoes de realidade em Verona. Minha primeira parada foi na tumba da Julieta, o lugar onde teria acontecido a desgracenta cena final em que os dois se matam e condenam-se a uma eternidade no setimo circulo do Inferno (estamos na terra de Dante, afinal). Mesmo sabendo que provavelmente isso nem aconteceu, e muito menos ali, estar la e imaginar a cena se passando naquela cripta de pedra e emocionante. No mesmo predio tem um museu de afrescos renascentistas que tenta correr no vacuo da Julieta, mas que provavelmente seria muito pouco visitado nao estivesse aproveitando o holofote da menina.
Minha proxima parada foi na Arena de Verona. Instalada bem no meio da cidade, ela e um mini-coliseu, cuja estrutura inteira resistiu ao passar dos seculos. Hoje em dia ela e usada para a exibicao de pecas e shows. Um festival de opera esta acontecendo nessas semanas, e pecas de cenario gigantes estavam depositadas ao redor da Arena, a espera de suas performances. MInha intencao era apenas visitar o predio, mas, quando cheguei, as visitas turisticas ja estavam encerradas porque tinham que montar os cenarios para a opera daquela noite. Eu ja ia embora quando me deu um estalo; pensei, por mais que eu nunca tenha assistido uma opera antes na vida, quando e que eu teria uma oportunidade dessas de assistir a esse tipo de espetaculo numa arena romana de dois mil e tantos anos? Fui me informar sobre os precos, e vi que tinha lugares distantes a precos modicos, os quais comprei sem sequer saber ao certo que opera que iam apresentar naquela noite.
Dali, segui para a casa da Julieta. Um sobrado antigo, antigo, na via Capulet, onde a familia que teria baseado os Capuletos do Shakespeare viveu. Na frente tem ate a varanda em que a cena do "Romeu, Romeu, onde estas tu, o Romeu" teria acontecido. Dentro da casa tem uma exposicao bem legal de mobilias da epoca em que a historia teria acontecido, pinturas inspiradas pela peca, e de figurinos e objetos cenograficos dos filmes de Romeu e Julieta, incluindo a cama em que a famosa transa do filme do Zefirelli foi filmada. Ao lado da entrada da casa, uma estatua da Julieta em tamanho natural; tanta gente tira foto com a mao no peito direito da Julieta que a coitada esta com um peito mais claro que o outro. As paredes da passagem que leva a casa estao cobertas de recadinhos e rabiscos de outros casais apaixonados que passaram por ali. Tem gente que acha horrivel, eu acho mo legal.
Dei uma passada na catedral de Verona, que e bacana mas ja vi melhores, e dali fui para a rua onde o Romeu teria duelado com o Tybalt, sendo forcado entao a fugir de Verona. Meu pit-stop final antes de voltar pro albergue foi no Teatro Romano, do outro lado do rio. Assim como a arena, e uma estrutura de dois mil e tantos anos que ainda e usada para performances. E o ponto mais alto da cidade, subindo ate o alto da pra ter uma vista fantastica de Verona, emoldurada pelas ruinas das partes superiores do teatro. Quando eu estava descendo, um grupo de flamenco que se apresentaria aquela noite comecou a ensaiar para a apresentacao que fariam mais tarde, e, como ninguem me expulsava, eu fiquei la vendo. Logo comecaram a fazer a passagem de som, e foi incrivel ver o povo la sapateando, o violao flamenco tocando, e o cantor andando de um canto do palco para o outro bradando seus "AY AY AY AY AY AY AY, Mi corazoOoOoOoOoOoOon sufriYiYiYiYiYiYidoOoOoOoOoOoOo…". O interessante de ver ensaios e reparar como as dancarinas acionam uma expressao DRAMATICA, DOLOROSA, assim, sempre que querem; vao do "me passa a agua enquanto eu amarro o cordao do sapato" para o "MEU MARIDO MATOU MEU IRMAO E MEU FILHO MORREU JUNTO!" sem o menor esforco. Se nao tivesse ja comprado o ingresso pra opera, iria assistir a apresentacao de flamenco.
Duas horas depois, ja de banho tomado e devidamente alimentado, com uma granita de limao na mao, fui assistir a opera na Arena. O espetaculo da noite era a Cavalaria Rusticana; a acustica do lugar era excelente, dava pra ouvir tudo que o elenco cantava perfeitamente, por mais que estivessem ao longe e fosse tudo ao ar livre. Vendiam por la o libreto da peca com traducoes, o que me permitiu acompanhar a historia ao lusco-fusco do anoitecer. Mais um banho antes de dormir pra tirar o suor daquela noite calda, e encerrava-se um dos melhores dias dessa viagem.