Erro de cálculo

Hoje: 170.3 km
Total: 525.1 km

Ontem a noite, querendo ser previdente, eu avaliei as distancias no mapa e resolvi que a jornada do dia seria de Haia ate a Antuerpia, na Belgica. Aproveitei que estava no cybercafe e fiz reserva no albergue de la. Comeca aqui a odisseia do sem-nocao.

De manha, o trecho entre Haia e Roterda aconteceu sem maiores sobressaltos. Logo na entrada de Roterda ja tinha placas apontando pra Dordrecht, entao eu nem passai pelo centro e ja segui em direcao a outra. Nao muito depois, a ciclovia levou para dentro de um predio que parecia uma estacao de metro. Meio passado, descobri que era por conta de um tunel feito para que os ciclistas pedalassem para o outro lado de um rio (ou baia, ou canal, sei la, essas coisas meio que se confundem na Holanda). Nao seria problema se a escada rolante de descida estivesse funcionando, mas e claro que minha vida tem que ser cheia de adrenalina e a maledeta estava quebrada. Sem querer desarmar o castelo pra descer, fui baixando a bike degrau por degrau, segurando
ela no braco, depois atravessei o tunel, e subi de elevador a superficie do outro lado. O esforco foi tao grande que achei por bem fazer a primeira pausa do dia, alem de recolocar as bolsas no lugar devido depois da intrepida descida escada abaixo.

Estava eu encostado numa parede comendo uma banana quando chega um negao e fala sorrindo meio maldosamente "crishtofen bohofen froftofen zomprsroffen bananen". Eu fiz cara de quem nao falava holandes, e ele repetiu, depois ficou so no "bananen, bananen, bananen". Eu soltei um "nicht" generico, e ele, levemente ofendido, ficou tirando sarro de mim para os amigos. Vahssefudorhfen tambem.

Mas acho que algo na minha figura em repouso atrai os curiosos mesmo. Quando parei pro almoco num supermercado em Dordrecht foi a mesma coisa. Eu comendo no estacionamento, e as pessoas puxando papo. Mas falavam ingles, e eram mais educadas. Cheguei a trocar uma ideia com uma senhora manca que em breve faria a viagem de la ate Amsterdam em sua cadeira de rodas eletrica. "Mas so 40 km por dia, que a bateria
nao aguenta mais que isso".

Sendo o primeiro dia de sol de verdade, a essa hora eu comecei a sentir o bronzeado queimando nas areas expostas. Estou com a marca das bermudas (supernitidas, ja que as bermudas sao de lycra), mas as canelas nao estao queimadas porque ficam mais na sombra. Os bracos estao queimados, mas da manga pra dentro, estou branquinho ainda. Tentei tirar a camisa pra nao ficar tao listrado, mas nao adiantou muito.

Foi o primeiro dia tambem que eu percebi que voltei a me acostumar com pedalar no lado certo da rua. Ate ontem, cada vez que eu me distraia eu sem querer ia pro lado esquerdo, sinonimo de seguranca pra mim no transito londrino, e era trazido a realidade por holandeses me xingando que eu estava na contramao.

Mais algumas horas, umas perdida de leve e a maior travessia de ponte ate o momento depois, eu cheguei em Breda, o ultimo grande municipio antes da fronteira. Comecei a me dar conta do meu erro quando eu perguntava pras pessoas como chegar na Antuerpia, e eles apontavam a direcao, seguido de "mas e longe pra caralho!". Nesse ponto percebi que os elasticos que amarram o saco de dormir, a barraca, o colchao inflavel e os itens mais usados (garrafa d’agua, mapas, guia de albergues) tinha se soltado, e a garrafa d’agua e o guia ja eram. Quase que o colchao vai nessa tambem. Ja revoltado, parei num supermercado, comprei outra garrafa d’agua, e parti destemidamente para o outro lado da fronteira.

Uma hora depois, eu ja tinha feito 110 km no dia, e comecava a xingar minha falta de nocao. A estrada emendava uma cidadezinha de primeira depois da outra em linha reta numa planicie sem fim. Cheguei a considerar parar num camping e botar o albergue na lista de prejuizos, mas, quando eu tentei fazer isso depois de ver uma placa prometendo um camping, as pessoas com quem eu fui me informar ficaram no abobroften
blablachobrong, nao consegui captar uma intrucao que me levasse ao lugar certo, e quando fui ver ja era.

Cruzei a fronteira pra Belgica as 18:50h, sem um gaurda sequer que me carimbasse o passaporte. Dai pra frente a viagem foi um puro ato de teimosia, seguindo a N1 ate a Antuerpia. Cidadecas e mais cidadecas enfileiradas, e eu passando quase sem parar. As oito e meia eu cheguei nos confins da Antuerpia, e, como nao tinha mais o guia, fui achar um cybercafe onde descobrir o endereco do lugar.

No fim das contas foi boa essa parada, porque descobri um site que me deu a rota ate o albergue. Mas como nada nessa viagem pode ser simples, por alguma razao faltou um trecho, e eu tive que ficar rodando e perguntando pela Provinciestraat por um bom tempo ate conseguir encontrar o caminho. Cheguei no albergue quase dez da noite,
com o sol quase terminando de se por (viva o verao!). Por conta do cansaco, revolta, e do que vi pela cidade na penumbra, resolvi ficar por aqui mais um dia.

E me prometi que nunca mais passo dos 120 km por dia.

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