Os efeitos da noitada de sabado desabaram inclementes sobre nos no domingo. Tutu e Rodi acordaram com dor de cabeca e me encontraram ja de pe, depois de poucas horas de sono, depois de descobrir que a alvorada incidia sobre Iracema disposta a nao me deixar dormir. Rumamos para a casa de cha em Capodimonte numa verdadeira demonstracao do poder da mente sobre o corpo. Nos sentamos numa mesa nos sentindo o po da rabiola, sem forcas sequer pra falar ou levantar o copo. Mexer a mandibula para mastigar a comida ja parecia um esforco sem fim. Terminada a refeicao, nos arrastamos ate o lago, estendemos as cangas da Tutu sobre o gramado, deitamos na sombra e puxamos o ronco ate depois do meio-dia.
Quando despertamos, ficamos ainda um bom tempo em estado contemplativo, depois fomos nadar, e aos poucos voltamos a ser seres capazes de raciocinar e conversar. Demos uma voltinha pela cidade, tomamos sorvete, e basicamente ficamos la nos divertindo observando a populacao nativa se sentindo em Copacabana a beira do lago, montes de nonas italianas, ragazzos e ragazzas saltitantes entremeados pelo povo de dreadlocks e tatuagens que descia do festival.
Subimos de volta as barracas quando o sol baixou, pra tomar banho antes que ficasse mais frio e a agua gelada do banho passasse de alivio para martirio. Encontramos Gianna e Vitor, da Jungle, no caminho, vindos de Londres com o pessoal da casa deles. Mais limpinhos e felizes, Tutu e Rodi foram fazer a sesta em sua barraca, e eu deitei na frente da Iracema e continuei a ler o livro da francesa na China. A mundrungagem que passava a caminho dos banheiros quimicos via a cena e ficava olhando como se eu fosse um alienigena. Eu devia ser o unico ser leitor ali.
Menos incomum, surpreendentemente, eram as criancas, rebentos de pais que resolvem que nao sera a filharada que vai impedi-los de ir aos festivais de tecno. La tinha desde bebes que mal andavam ate uma molecada de dez ou onze anos. De certa maneira, funcionava tudo como uma colonia de ferias beeeeeem alternativa, cheia de espaco pra se correr e gente que nao enchia o saco com o que se pode ou nao pode fazer. Cheguei a conclusao de que, assim como hoje tenho amigos engenheiros e capitalistas que sao filhos de hippies, e contam como andaram pelados ate os sete anos de idade, essas criancas, daqui a uns quinze, vao divertir seus amigos em saraus de musica classica com as historias de seus pais maloqueiros e suas passagens por festivais de musica eletronica.
Mais tarde, voltamos a pista, onde a fauna continuava animada. Sendo ja o terceiro dia de calor e po, algum mundrungo conseguiu abrir um cano que passava pela pista e, para a alegria geral, molhava a todos e enchia garrafas d’agua. A noite, os mais habilidosos dancavam girando uma bola atada a uma corda em cada mao, a bola com fitas de pano presas a ela, ou com luzes fluorescentes, ou ate em chamas. Os malabarismos feitos assim criavam efeitos mutchododjos que atraiam a admiracao geral.
Dancamos um pouco, mas passamos a maior parte da noite estendidos numa tenda que tinha umas esteiras no chao, ouvindo Rodi contar dos outros festivais em que ja esteve, e como num deles choveu o tempo inteiro e ele passou sete dias atravessando um barro que literalmente afundava ate o joelho. Perto disso, a seca e o po que cobriam nossas gargantas nao pareciam tao ruins.