Depois de experiencias tao agradaveis em Verona, rumei empolgadissimo para Veneza esta manha, esperando coisas ainda mais fabulosas numa cidade assim tao inusitada. Estando mais proximo da cidade dos canais, os trens eram mais numerosos e bem menos cheios. Em uma hora e meia de trilhos a locomotiva se aproximava de sua chegada, e ja dava pra ter uma ideia do que viria: agua, agua, agua onde quer que se olhasse, conforme a ferrovia atravessava a distancia ate a ilha de Veneza.
Chegado na estacao, uma fila enorme serpenteava na frente do escritorio de turismo. Veneza ja comecou a mostrar suas garras quando a mocinha do officio me disse que o mapa da cidade custava 2 euros. Com seu ingles perfeito, ela me vendeu o Veneza Card, que custava muuuuuito mais que o Verona Card, e em teoria seguia o mesmo principio: transporte gratis, mais entrada em museus e igrejas. Depois de comer qualquer coisa na estacao mesmo, avancei rumo ao sol acachapante do verao italiano e logo de cara cai no Canal Grande, o maior canal de Veneza.
Aquilo que a gente ve nos filmes, desenhos animados e na novela do Manuel Carlos e verdade. Veneza e toda a base de barco mesmo. Agua por todos os lados. O transporte publico e em barco, o carro de policia e um barco, a ambulancia e um barco com sirene em cima, o carro funerario e um barco preto… Eu subi no "onibus-barco" que leva da ferroviaria ate a Piazza San Marco e desacreditava. Ja tinha estado em Amsterdam, que tambem e cheia de canais, mas Veneza e absurdo. As casinhas dao direto na agua, as ruas sao substituidas por canaizinhos mesmo, e as pessoas tem seus barquinhos a motor pra ir de um lado pro outro. Os palazzos antigos todos como deviam ser ha seculos (alguns mais bem conservados que outros, deve-se dizer), mas tudo muito lindo, muito impressionante.
Saindo na Piazza San Marco, fiquei la embasbacado pelos predios renascentistas lindos a volta, a igreja de Santa Maria de la Salutte do outro lado do Canal Grande, as gondolas que existem mesmo, indo e vindo. A caminho da praca, varios e varios stands vendendo todo tipo de souvenirs: mascaras, camisetas, miniaturas… E uma enxurrada de turistas italianos, franceses, japoneses, chineses, portugueses, marcianos.
Para entrar na Basilica de Sao Marcos tinha fila. Depois de quinze minutos debaixo do sol ardente, o guarda na entrada me diz que eu nao podia entrar porque estava carregando uma bolsa, que eu fosse pra um guarda-volumes a dois quarteiroes dali e deixasse a bagagem la, e ao voltar podia ir direto para a entrada da basilica. Fui ate o guarda-volumes, deixei meus pertences ali, e ja ia entrando quando o mesmo guarda me para e me diz que nao podia entrar no recinto de camisa regata e shorts, mas que poderia comprar por alguns euros uns xales de papel pra cobrir os ombros e as pernas ali mesmo. Veneza querendo sugar o meu dinheiro, claro. Puto que ele nao me disse sobre o dress-code ANTES de eu deixar minha bagagem a dois quarteiroes de distancia, voltei pro guarda-volumes, pedi minha bolsa, peguei minhas calcas e uma camiseta normal que estavam la dentro, me troquei ali mesmo, devolvi a bagagem ao tio do guarda-volumes e voltei para a basilica.
Arquitetonicamente, a basilica nao e tudo isso, mas impressiona e muito o fato de que todo o teto e folheado a ouro. Isso mesmo. Ouro. Aparentemente as reliquias de Sao Marcos estao la dentro, roubadas em algum ponto da historia de Constantinopla, mas eu nao as vi, basicamente porque, apesar de entrar na basilica ser de graca, ver os tesouros da basilica custava 1,5 euro. Nem e tanto, mas, ao tentar entrar com o meu carissimo Venice Card, o vovozinho da bilheteria me disse que eles nao aceitavam Venice Card e que eu tinha que pagar. Revoltei, mandei mentalmente eles supositarem os tesouros, e fui embora.
A esse ponto, o sol estava escaldante; dei um bizoiao no meu mapa e vi que a ilha de Lido de Venezia, onde as praias ficam, era bem proxima de onde eu estava, entao resolvi ir pra praia e dar um mergulho pra esfriar a cabeca, e depois continuar a passear por Veneza antes de voltar para Pavia naquela noite. Um barquinho e um onibus de verdade depois, eu descia na praia de Alberoni, que nao e linda nem nada, mas pelo menos e de areia. A agua estava otima; a praia afundava bem gradualmente, descobri depois que o mar Adriatico inteiro e assim.
Ja estava indo embora de volta para a ilha de Veneza quando um grupo de dois caras e uma menina gritou um "Hi!" pra mim. Eu parei, olhei bem, e lembrei do conselho dado pela minha querida Maria Otilia antes de eu partir de viagem, de prestar atencao nos encontros que ocorressem, e resolvi dar corda. Eles comecaram a puxar conversa, e eu fui conversando de volta. Eram todos italianos; disseram que adivinharam que eu era turista por conta da bolsa e do mapa na mao, apesar de aparentemente ter cara de italiano. Eu expliquei que nao podia ficar muito, porque tinha so mais tres horas de Veneza antes de ir embora. Me disseram pra largar mao de ser bobo, deram uma olhada no meu bilhete de trem, disseram que eu poderia pegar o trem no dia seguinte, que eu ficasse por la que eles arranjavam onde eu ficar aquela noite. Entao eu fiquei.
E fiz muito bem, porque a praia estava otima, a conversa foi excelente e so de nao ter mais pressa pra fazer as coisas o mundo parecia muito mais bacana. Ao longo da conversa, os italianos ficaram chocados que, entre tanta musica italiana, eu conhecia justo "Strani Amori", que no Brasil tambem se fala catzo e paura, e que pra gente napolitano e sinonimo de sorvete de morango, creme e chocolate. So um deles falava ingles, o resto falava frances, e todos falavam italiano, obviamente. Pra tentar incluir mais gente na conversa eu falava frances na medida do possivel, mas, quando o assunto engatava, eles naturalmente retornavam ao italiano, apesar de as vezes lembrarem de falar devagar pra que eu entendesse. Em pouco tempo minha cabeca estava uma salada de linguas, as frases comecavam em frances e terminavam em espanhol, por mais que eu fosse tentando pegar as expressoes em italiano.
Ficamos la de bobeira ate o sol baixar, dai retornamos para o ponto de onibus e fizemos a jornada de volta para a ilha de Veneza com aquela canseira de fim de tarde na praia. Depois de um pequeno debate, ficou decidido que eu iria pra casa do Mario, o que falava ingles, e que na verdade nao morava em Veneza, mas em Padua, que ficava a meia hora de trem. Quer dizer, em geral; nos demos o azar de pegar a linha mais demorada de todas, que parava em cada cidadeca do caminho, e so fomos chegar la as onze da noite. Em compensacao, tive conversas otimas sobre o modo de vida italiano.