Betise

Hoje: 93,6 km
Total: 926,8 km

Depois do dia um tanto entediante que eu passei em Cambrai, o que eu mais queria era seguir viagem e ter um dia de vistas novas. Querendo percorrer o caminho ate Laons por uma estrada secundaria, a D960, eu precisei mais uma vez procurar todas as saidas, depois ir me informar no bureau de turismo, pra descobrir como alcancar a dita. O caminho indicado nao batia com meu mapa rodoviario, mas chegava la. Fui pedalando por uma estrada sem acostamento e quase sem carros.

Quando ja estava a uns 20 km de Cambrai, eu encontrei uma agencia do correio numa cidade minuscula. Contente que poderia despachar os mapas e livros que nao vou usar mais, eu atentei a porta e vi que de sabado a agencia so ficava aberta ate meio-dia. Automaticamente fui pegar o celular na pochete pra conferir que horas eram…

E ele nao estava la.

Os preparativos matinais fizeram um flashback nesse instante, e eu tive a certeza de que nao tinha pegado o celulo. Ele tinha ficado em Cambrai. Cheguei a considerar por alguns instantes abandona-lo la, mas cheguei a conclusao de que ele estava sendo muito util, e que valia o esforco. Resignadamente e com um suspiro profundo, dei meia-volta.

E desolador ir galgando uma longa subida quando voce sabe que ha minutos voce tinha descido ele, e que passara por ali novamente em pouco tempo. Pelo menos confirmei que o caminho a D960 que tinham me indicado era errado mesmo.

Uma hora mais tarde estava eu de volta no albergue. Jogado as tracas como quando eu cheguei la pela primeira vez, com um aviso na porta para os hospedes dos quartos 10 (o meu) e 21 (o da familia) pra ligarem pra um numero tal pra recuperarem seus belongues. Numa sequencia que seria engracada se nao fosse tragica, tive que andar pela cidade pra achar algum lugar que ainda vendesse um cartao telefonico (carissimo), depois achar telefones publicos (e, obvio, nem o primeiro nem o segundo funcionavam), daih falar com a tiazinha, fazer o caminho todo de volta pro albergue e esperar a pessoa que abriria o escritorio e me devolveria o celular.

A moral da historia era que, depois de almocar por la mesmo, ja eram duas e meia da tarde e eu ainda estava no ponto de partida. Ja tinha percebido que nao chegaria a Laons, mas qualquer coisa era melhor que continuar mais meia hora naquela cidade. Parti com o sol quente, e passei pela terceira vez naquele dia pelas mesmas cidadecas.

Cinquenta quilometros de subidas e descidas depois, eu ja estava querendo ferias. E foi entao que magicamente apareceu uma placa na minha frente dizendo "camping". Depois de alguns minutos de duvida, resolvi seguir esse sinal divino e sai da estrada alguns quilometros ate o camping indicado. Encontrei-o sem a menor dificuldade, paguei um quinto do que eu costumo pagar nos albergues, e voila, eu tinha onde dormir.

O camping e um ambiente superfamilia; aparentemente os franceses adoram ir para confins distantes passar o fim de semana num camping aproveitando a vida do campo e fazendo coco em banheiro publico. Eles tem barracas gigantes cheias de quartos e com antena parabolica, cabe a familia inteira. Encontrei um lugarzinho na sombra de umas arvores, montei em poucos minutos a Iracema pela primeira vez, e estava la comendo quando me vi cercado de pirralhinhos franceses loirinhos que estavam me achando um bicho muito interessante. Eles comecaram a conversar comigo, e me acharam mais interessante ainda quando descobriram que meu frances nao vai muito longe. Vinha um: "Ce ta sozinho?", e eu, "Oui…", outra, "Essa barraca nao e muito pequenininha?", e eu "Oui, mais je suis seul", mais um, "Voce nao fala frances?", eu "Pas beaucoup…". Ficaram lah fazendo perguntas e dizendo que iam dancar, e eu tentando responder o melhor que podia. Daih chegou uma atrasada lah e perguntou "Ele nao fala frances??", e a molecada toda, em coro, "PAS BEAUCOOOOOOUUUP!!!, ele ja disse!".

Tinha um riachinho por perto, onde os nativos estavam nadando, e, como estava um calor do cao, eu fui lah nadar. Descobri que eles pulam na agua de tenis e tudo mesmo, entao eu mantive minhas sandalias e assim protegi meus pes dos pedregulhos do fundo do riacho. Depois fiquei andando pela cidade de uma rua inteira que tinha ao lado do camping. Ela se chama Vadencourt, e seria conhecida como Finfanfun de Pirapora se estivesse no Brasil. Mas como e a Franca, fica sendo Phinphanphenne de Pirapore.

O unico supermercado decente onde eu podia comprar os viveres pro dia ficava numa cidade a 3,5 km dali, entao la fui eu comprar a janta. Uma hora depois, cheguei cantando, e a criancada, que ainda estava la dancando as musicas francesas delas, comecaram a me aplaudir. Sao debochados ate, cada vez que eu passava falavam "Hello!!", ja que eu so era capaz de entender isso.

Acampar ate que nao esta sendo ruim; o espaco na barraca e bem pouco, mas da conta do necessario. Pelo preco, pra ter direito a chuveiro e banheiro, ta otimo.