A terra de Ruy Barbosa

Hoje: 116.4 km
Total: 354.5 km

Meu avô Dico sempre dizia que queria que a gente fosse inteligente que nem o Ruy Barbosa, de alcunha A Águia de Haia. Imagina a emoção dele se soubesse que eu vim parar aqui na terra do homem, Den Haag.

Parti de Amsterdam hoje cedo, depois de ter dormido apenas três horas. Sim, de novo. Ancetece que, ao contrário de mim, que sabia muito pouco da noite de Londres e só sabia recomendar a Ghetto, o Gui está sempre por dentro das baladas de Amsterdam, e ontem à noite estava rolando uma festa, segundo ele, imperdível. E foi mesmo: o lugar era ótimo, a música, de qualidade, e as pessoas, bonitas. Basicamente, uma noite imperdível, e, mesmo sabendo que teria que sair cedinho de qualquer jeito, fiquei na balada até as quatro da madrugada.

Tudo que me restou fazer essa manhã, portanto, foi respirar fundo, tomar um banho, e me fantasiar de ciclista. A hora de montar o castelo na Angelana Paula me assustou um pouco: agora que eu tenho água, comida e curativos, o peso estava bem maior. Que reédio senão equilibrar tudo e partir?

Minha intenção era simplesmente fazer o mesmo caminho que eu tinha feito do porto de Hoek von Holland até A’dam, descendo pelo sul da cidade até Leiden. Mas, como não podia deixar de ser, me perdi, me confundi, não encontrei plaquinhas que me ajudassem a me achar, e quando consegui parar um ciclista amigo e anglófono que me localizasse no mapa e sugerisse um percurso, já era tarde demais. Eu tinha rumado para oeste, e a solução agora era seguir para Haarlem e daí descer pela costa.

O que, tirando a distância extra, não foi tão ruim; pelo menos variava a paisagem. De Haarlem eu segui para Zandvoort, onde parei para o almoço. Faz muita falta aqui uns bebedouros públicos, onipresentes no Caminho de Santiago, mas imagino que sem o fluxo constante de peregrinos, não tem muito por que dar água de graça pras pessoas.

Quando encontrei a praia, dei de cara com um monte de crianças batavinhas cantando na frente de uma estátua. Poucos dos nativos se interessaram, o adulto regendo estava mais empolgado que os pimpolhos (como sempre), mas elas estavam bem ensaiadinhas. A praia aqui pelo menos era de areia, mas, ao longe, a água parecia bem fria.

O trecho seguinte foi o mais difícil: a ciclovia acompanhava os barrancos de areia à beira do mar, criando várias subidas e descidas, e a brisa soprava em geral na direção contrária, exigindo mais esforço pra andar pra frente. Mas, felizmente, não demorou muito e uma estrada interditada me obrigou a fazer um desvio, eu voltei a me perder, e quando outra boa alma me explicou pra onde ir, a rota já não seguia mais o mar tão de perto.

Suspeito que algo na minha fantasia de ciclista-com-capacete-e-óculos-escuros deve parecer RIDÍCRO para os padrões do bom-senso holandês. Os ciclistas que passam por mim olham consternados, as vovozinhas nas praças me observam achando que eu perdi o juízo. Um grupo de crianças, ao me ver passar, começou a se mijar de rir com a minha figura. De me olhar nos reflexos do caminho e nas fotos que eu tiro, só chego à conclus&aatilde;o de que estou parecendo o Vigilante Rodoviário (só falta o Lobo). Provavelmente deixarei o país sem desvendar esse mistério.

Me perdendo, perguntando, e acreditando nas respostas que me davam, por volta das seis da tarde consegui chegar em Haia. E daí esse processo só se intensificou. Descobrir onde ficava o albergue não foi fácil; minha pronúncia dos endereços holandeses (que surpresa…) é torpe, e nem sempre os inquiridos falam inglés. O processo de localizar alguém com uma cara confiável, parar o sujeito, perguntar apontando pro endereço no guia, e tentar seguir as intruções mais ou menos precisas que eu recebia se repetiu again and again and again. Por fim, quem me apontou o lugar direito foi um vovozinho motorista de ônibus que eu interceptei no ponto final de sua linha, aguardando a hora de sair, que mal falava inglês. Ao finalmente chegar no albergue, me dei conta que já tinha passado na entrada da rua várias vezes, sem conseguir ver a placa com o nome dela ou a placa da entrada do albergue.

Até o momento, no meu quarto estão mais três caras, todos mochileiros sem recursos como eu: um alemão, um americano e um chinês. Pra se ter uma idéia da contenção de custos, o americano jantou pão com batatinha ruffles e milho de lata, regado a água de torneira. para a nossa sorte, o albergue está exibindo a final da Copa num telão, de graça. É o final perfeito para a minha Copa internacional. Se a França ganhar, periga dos holandeses catarem suas bandeiras nederlândicas, virarem-nas de lado e saírem comemorando.