Locked out

Uma das coisa que eu adoro da minha casa é a possibilidade de hospedar os amigos que vêm pra Londres passar um tempo. Gui Galvão, que já vai fazer quase um ano se mudou para Amsterdam, foi um dos que ano passado me deu o prazer de ser abrigado em minha humilde habitação; ele passeou pela cidade, nós saímos à noite, se bem que não conseguimos pegar uma balada decente, mas no fim das contas tudo foi superdivertido. Depois eu fui pra Amsterdam e fiquei na casa dele, e também me diverti à beça. Pois então que Gui resolveu vir pra ilha de novo, e eu, que agora estou um pouco mais por dentro das baladas de Londres, resolvi que dessa vez a gente ia para uns lugares BONS.

Fui buscar ele na estação de trem, e na primeira noite a gente ficou só colocando a conversa em dia mesmo. Dia seguinte, ele foi para o Museu de História Natural, se divertir com a exposição do Darwin, enquanto eu trabalhava. À noite, fomos na Turnmills, balada eletrônica que haveria de agradar deveras o Gui, que é o tipo de pessoa que sabe a diferença entre techno e trance e house e quaisquer outras subdivisões da música eletrônica.

Pois que, já noite a dentro, estamos dançando quando eu revisto meus bolsos e me dou conta de que tinha deixado a chave em casa. Fiquei levemente preocupado, mas afugentei meus temores me convencendo de que algum dos meus três housemates estaria em casa e me abriria a porta. Saímos do lugar uma hora e pouco depois, pegamos o busão para Old Kent Road, paramos numa venda para comprar algo que matasse a fominha noturna, e fomos para casa prontos para acordar os meus colegas de casa entre mil desculpas.

Mas é óbvio que, se tem uma certeza na existência, é o funcionamento da lei de Murphy. Pois que nesse fatídico primeiro de abril, a holandesa tinha ido pra Holanda visitar a família, o inglês tinha ido passar a noite na casa da namorada, e o indonésio, que nunca dá sinal de vida, continuou agindo como tal. Não havia qualquer indício de atividade dentro da casa. Batemos na porta, e nada. Janelas, e nada. Estávamos mesmo trancados pra fora, à mercê do frio da madrugada.

É claro que, pra fazer as coisas piores, meu celular estava sem crédito. Resignadamente, fomos até a cabine telefônica mais próxima tentar ligar para alguém. Os telefones públicos daqui são famosos por não dar troco, acabando com seu dinheiro rapidamente, e essa vez não foi excessão. Mas, por mais pences e libras que eu gastasse, não consegui contactar nenhum colega de casa.

Voltamos para frente de casa e tentamos abrir a janela da frente, sem sucesso. Eu ensaiei subir à janela do segundo andar, para ver se as janelas de lá poderiam ser abertas, tudo o que consegui foi ver como as paredes de fora estão sujas e quebrar de levinho a calha da entrada. Sem saber se ríamos ou chorávamos (mas mais propensos ao último), voltamos à cabine telefônica, onde Gui me exortou a descobrir os números da telefonista e insistir até descobrir um chaveiro 24 horas.

Várias libras e vários tipos de telefonistas depois, consegui os números de dois chaveiros. Foi então que eu descobri que eles eram chaveiros 24 horas só em teoria, pois os dois números deram em caixas postais de celulares. É impressionante como esses serviços civilizados de São Paulo só existem lá mesmo. Me sentindo o pior anfitrião da Terra, voltei com Gui pra frente de casa.

Me resignei esperar sentado e puxar o ronco na porta de casa mesmo. Ficamos lá meia hora; nesse meio-tempo, uma raposa vira-lata, algo razoavelmente comum na ilha, veio cheirar nossos pés duas vezes, provavelmente atraída pelo cheiro das comidas que havíamos comprado no super. Quando eu já estava começando a cair no sono, Gui me despertou, falando que estava congelando, que não dava pra ficar mais lá. Sem saber nem de hotel nas redondezas nem de chaveiro que pudesse nos salvar, tudo que pude propor era irmos até a estação de Waterloo, que haveria de estar aberta, e nos abrigarmos lá.

Seguindo as tendências da noite, já dá pra adivinhar que, chegando lá, descobrimos que a estação estava aberta coisa nenhuma. Ficamos andando a esmo nos arredores até chegar a hora em que ela abrisse. Lá dentro, percebi que o interior da estação era quase tão frio quando o lado de fora. Nos acomodamos nos bancos nada anatômicos da estação e ficamos lá meio que dormindo até o dia raiar.

Fomos andando de Waterloo até de volta em casa, para fazer hora e assim aumentar as chances de acontecer algo que nos tirasse dessa situação miserável. Nos sentindo no bico do corvo, chegamos na mesma porta já agora tão conhecida, apenas para constatar que tudo continuava exatamente como a gente tinha deixado. Querendo se jogar na frente de um ônibus para acabar com o sofrimento, tentamos ligar para o chaveiro de novo.

O qual, dessa vez, atendeu. E nos informou, candidamente, que cobraria 98 libras pelo serviço. Nesse momento eu me neguei a gastar essa grana absurda, e já ia voltar pro batente da porta esperar sentado que algum habitante da minha morada chegasse e nos botasse pra dentro. Guilherme, a essa altura já no desespero do bico do corvo, conseguiu me arrancar de lá e saímos novamente a vagar sem destino, procurando entre os negócios que estavam abrindo suas portas algum que nos salvasse.

Depois de muito andar, perguntar e inquirir, descobrimos um chaveiro a uma distância média do meu endereço, que estava começando o expediente de sábado naquele exato momento. Esse foi mais gente boa e cobrou "apenas" 68 libras. Mas o chaveiro só chegaria às nove da manhã. Caminhamos de volta à mesma bat-porta, dessa vez já vendo uma luz no fim do buraco da fechadura.

E foi assim que, às nove e doze, chegou a van do chaveiro. Um rapaz saiu dela, perguntou se era só a chave normal que nos trancava para fora, ou se havia alguma outra. Não, apenas a normal, respondi. Ele então puxou uma folha de plástico, enfiou entre a porta e o batente, deu dois trancos na porta e tchans, ela se abriu. Demorou exatamente dez segundos, o que há de incluí-lo entre os segundos mais bem-pagos do planeta.

Rindo pra não chorar, nos arrastamos casa a dentro. Gui, exausto, fez as malas logo depois e resolveu pegar o primeiro trem de volta pra Amsterdam, que já tinha se cansado demais nessas pequenas férias. Fiquei eu lá me sentindo novamente um fracasso como anfitrião. Mas entendendo a situação dele.

Em junho eu devo ir pra Amsterdam de novo. Espero que ele não resolva descontar o mico.