E assim se descobre a localização dos lugares. O moreno do “Rancho Fundo” mora bem pra lá do fim do mundo; é uma pena que o autor não especificou em que direção, mas, se for no sentido América-Europa, calha do Rancho Fundo na verdade ficar aqui na ilha. Seja onde for, o fim do mundo eu já encontrei.
Hoje, mais uma vez, concentrei todas as minhas forças pra ir no curso de guitarra que me manterá como estudante aqui juntinho com a Tia Bete. O problema vai além da total incompatibilidade de objetivos entre eu, os professores e os alunos; faz pelo menos três anos que minha vida não precisa começar antes das 11 da manhã. Especialmente aqui na Terra da Ingla, eu raras vezes realmente tinha horário pra acordar. A facul nunca começou antes das 11 horas, e fica a sete minutos de bike aqui de casa; eu sempre pude acordar nove, nove e meia, tomar banho e café da manhã com toda calma do mundo e ir pra aula.
Essas duas horas parcimoniosas antes de sair de casa tornaram-se sinônimo de qualidade de vida pra mim. Acontece que agora eu estudo num lugar que fica a uma hora de bicicleta. Assim sendo, pra eu chegar, digamos, às dez na aula, eu teria que acordar às sete pra poder cumprir a rotina matinal a contento e pedalar pra escola. Agora, com a grande diferença de temperatura entre minha cama e o mundo exterior, o horário indecente e a escuridão lá fora, não é muito difícil adivinhar que até hoje eu não cumpri o horário uma vezinha que seja.
A hora pedalando é muito aprazível, já que o caminho que eu aprendi me faz cruzar o Hyde e o Green Park, passar na frente do palácio de Buckingham e por aquele lugar chamado Notting Hill. Mas acontece que existe uma maravilha do serviço público que é o site Transport for London. Você põe lá onde está e pra onde que ir, e ele te dá os itinerários todos dos horários que você quiser. Ou, se preferir, a melhor rota para ciclistas. São rotas maravilhosas sem subidas, descidas, ou trânsito, passando por lugares lindos que eu nunca acharia sozinho. O problema é que também costumam ser MUITO tortuosas; se considerar-se a dificuldade que é encontrar uma placa que te diga o nome da rua em Londres, dá-se que a primeira vez que se faz uma rota nova costuma-se demorar o dobro do tempo normal.
Pois hoje eu resolvi testar a rota que o TFL recomendava de casa para a escola, que, vi desde o começo, era totalmente diferente do caminho que eu costumava fazer. Já estava atrasado quando saí, mas a perspectiva de descobrir recônditos novos (e a falta de vontade de fazer aula) me fizeram ignorar isso.
Na hora que eu tirei a foto aí em cima, já estava uma hora e meia atrasado. Mas não consegui deixar passar essa foto, ainda mais pra um fã de Sandman como eu (e a emoção de encontrar um restaurante no fim do mundo logo em frente? Seria o Inn at Worlds End disfarçado?). No fim das contas, quando faltava pouco pra chegar na escola, já estava tão atrasado que achei que não valia o esforço de ir até lá pra chegar atrasado na última aula. E fui pedalando pro serviço.
Um detalhe preocupante na foto acima são meus olhos inchadaços. Não tinha me dado conta de que estavam assim; mostrei a foto pro povo da KE e eles me disseram “Ué, você tá assim faz um tempo. Você chegou do Brasil com uma cara ótima, mas faz dias que você está com a cara inchada assim. Deve ser porque você tá dormindo demais”. Terrível. Vou ter que dormir menos pra não ficar parecendo um travesseiro. Mas quem sabe daí eu começo a chegar no horário nas aulas.