Salve Salvador

Desde que passei o ano novo em Florianópolis pela segunda vez, de 2003 para 2004, que eu tomei consciência da importância do oceano para a minha sanidade, uma necessidade portuguesa de ter mar. Desde então, eu não perco uma oportunidade de me colocar numa praia, cair no mar e sentir as águas salgadas e as ondas. Rio, Barcelona – foram sinônimos de minhas balanças voltando ao equilíbrio nesses últimos anos.

Conheço Edu Gomes há dois anos e meio, mais ou menos. Ele, ator migrande da Bahia, sempre me dizia que um dia eu tinha que ir com ele para Salvador para que me apresentasse a cidade direito.

Pois eis que calhou de que, nesse meu retorno de Londres, ele estava em Salvador, depois de meses pelo interior do Brasil tentando entender o que se passava em seu próprio interior. Nos contactamos, jogamos um pouco de conversa fora por telefone, e daí, caprichando no óleo de peroba, me convidei para passar uma semana em Salvador onde quer que ele estivesse hospedado. E ele topou em me receber.

Já mais experiente por conta de ter feito viagens nesse mesmo esquema "hóspede -em-casa-de-amigo" para Barcelona, Paris e Amsterdam, comprei uma passagem de avião o mais cedo possível, confirmei a conveniência das datas com Edu e fiquei contando os dias para o embarque.

O vôo foi pela Gol, no horário barateiro (porém cruel) de embarcar às dez e pouco da noite. Desembarquei em Salvador às 23:50h, descobrindo o "fuso horário" que me separava da terra de ACM devido ao fato deles lá não terem por que adotarem o horário de verão.

No táxi careiro até o apartamento de Edu, descobri que o nordeste é quente mesmo, que Salvador tem avenidas larguésimas e urbanísticas, e que metade das coisas da cidade têm Magalhães no nome, sendo que grande parte delas é o nome do Luís Fernando Guimarães, o filho de ACM que era pra ser presidente da república mas que, provavelmente para a alegria geral da nação, morreu antes.

O apartamento ficava no Caminho das Árvores, próximo à praia de Pituba, numa parte soteropolitana construída relativamente há pouco tempo para os endinheirados de Salvador que se cansaram de se misturar com a plebe. Quando adentrei o apê pela primeira vez, vi que ele fazia jus a sua localização: um escândalo de grande, com salas maiores que muito apartamento que já vi, quatro suítes, varanda, e móveis de primeira linha. A dona era a tia de Edu, que estava de viagem; junto com ele, estavam hospedados Jana, sua prima, e Alê, amigo dela.

Rapidamente percebi que em Salvador Edu era chamado de Duda, e não demorei para sem querer adotar os jeito cantado de falar dos que me cercavam. Duda ostentava o resultado de seu retorno à terra natal em sua tez caramelo, fruto de muita praia, cuja melanina já fazia desnecessário o uso de protetor solar. Já eu, que ainda tentava me recuperar da palidez européia de minha epiderme, não podia abrir mão do Sundown nem em sonho, o qual foi muito usado nos dias seguintes.

Tomando o mote-quase-hino "Sorria, você está na Bahia", segui Duda na semana seguinte em todos os programas com que sua impressionante popularidade entre os nativos preencheu sua agenda. Ele me levou para suas praias prediletas em Salvador, me fez subir e descer as ladeiras do Pelourinho, me levou para uma rave na praia e a um show de Margareth Menezes, me revelou as delícias do picolé Capelinha e pacientemente explicou o funcionamento dos trios elétricos no carnaval de Salvador.

Num dia que resolvi andar sozinho pela praia para me perder pela cidade e surpreender as cenas dos lugares entre destinos, saí de Pituba, olhei para esquerda e vi uma placa apontando para Itapuã e um farol ao longe. Instantaneamente decidi recuperar o aprendido quando era peregrino e caminhar até chegar ao farol ou a Itapuã, o que chegasse antes. Sem ter quem me passasse protetor nas costas, fiz o serviço melhor o que pude com meus próprios membros, o que me deixou com um quadrado mais queimado que o resto nas espaldas ao final da tarde. Ao correr da tarde, fui achando tudo e todo mundo cada vez mais lindo, e não queria mais me separar daquele sol e mar todo; tomei muita água de côco, um dos piores drinks (ou drynky’s, como dizia o carrinho do vendedor) da minha vida, e, fazendo jus à tradição peregrina, peguei uma leve tendinite nos pés e no joelho direito que exigiram muito Gelol à noite.

Entre os programas oficiais, conversas sem fim na varanda, correndo sobre tudo; Jana e Alê explicando o funcionamento da indústria da moda, cortes de roupa, tingimento de tecidos e como se faz a inserção de fios metaloplásticos na trama. Dias depois, acompanhar os debates fervorosos dos amigos atores todos de Duda, suas histórias sobre as peças que fizeram, principalmente uma com crianças portadoras da síndrome de Down, calando-se apenas para fazer body improvisation onde quer que estivessem.

E, com tudo isso, ainda consegui terminar o As intermitências da morte, de José Saramago, e li as primeiras 200 páginas de Carmen, de Ruy Castro. Nada mal.

Ao final da semana, já não queria mais sair de lá; a perspectiva do frio londrino me parecia cada vez pior; fiquei ainda mais convencido de que vou ter que morar numa cidade com praia num futuro não muito distante; e, com pesar denso na alma, refiz as malas, ouvindo as raridades da Björk que Duda tem, e parti para o aeroporto.

Nem a batida policial de que meu ônibus foi vítima a caminho do aeroporto estragou meu encanto. Durante nossas conversas, Jana tinha me dito que uma tática infalível para que os puliças não parem seu carro quando resolvem parar veículos aleatoriamente para inspeção é bocejar enquanto passa por eles; isso é compreendido como um sinal de relaxamento, o que significaria que você não está tenso por estar escondendo alguma coisa, e assim te deixam passar. Pois, depois de um tempo dentro do busão para o aeroporto, ele ficou parado num ponto longo tempo; depois, um seo-guarda botou a cabeça pra dentro da porta e mandou todos os homens saírem do veículo com seus pertentences. Com o enfado da inocência absoluta, desci do ônibus, e, assim como meus colegas de condução, encostei no busum com as mãos contra as chapas da condução. Fiquei lá, bocejando com cara de pamonha, até que o guarda me revistou, perguntou o que tinha nas malas, e acreditou na minha resposta de que eram roupas e nada mais sem nem abri-las. Talvez por conta dos bocejos, mas, mais provavelmente, por eu ser branco com sotaque paulistano.

Aguardando o vôo, coloquei os e-mails em dia, enquanto tomava copos e mais copos de suco de cajá do Bob’s numa dessas peculiaridades gastronômicas que só acontecem no nordeste. O prospecto de retorno à garoa de Sampa e, pior ainda, ao fog de Londres, não me alegravam muito. Mas a idéia de voltar a sorrir um dia por estar na Bahia me alentavam enquanto eu curtia os últimos momentos do calor perfurante de Salvador.